Memórias artificiais: “Entreato”, uma coluna de Victor Grizzo
Qual história deve realmente ser escrita? É durante a noite que os outros são inocentados. Libertos de suas correntes, punidos pelo silêncio, pela falta e pela vergonha. Queria escrever algumas notas para não me perder no amontoado de restos que a vida pode se tornar. Preocupar-se com o outro atrasa o tempo. Os ratos saem das tocas e caminham até a cozinha em busca de migalhas de pão. As portas de madeira estalam. Os “taques” do relógio sobressaem os “tiques”. Não quero saber do fim — apenas uma linha a mais para manter-me vivo.
Assim o sono aparece. Toca uma terra possível. Imaginar mesmo antes dos corvos cutucarem a janela. Esticado na cama, ouço a reza antiga. Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria. E a santa gargalha. Na noite de hoje, os surreais também construirão suas casas de tijolos. A convicção da divagação como ação. Importar-se com a vida não é uma tarefa digna; já com a escrita, sempre foi diferente. O resto é não se deixar vencer pelo sono e escrever mais um pouquinho, a menos que ocorra uma parada cardíaca antes da hora. Ora, até que estou otimista. Voltemos para a escrita, voltemos.
O menino refletido na janela da frente sou eu — não consigo codificar fonemas, por isso ignoro o próprio nome. Sobre a escrivaninha, uma folha em branco com sobrancelhas coladas ao centro. Na folha, estou condenado a viver sob a sentença de um papel que se faz sombra e pede por uma nova história. Odeio os inícios, vou começar pelo final.
Palavras escritas em movimento trêmulo, o corpo entorta-se, mas a mão se mantém reta. A mão é uma pata, uma garra, um casco, uma lança ligada a um braço fino e seco. Escrever deitado alguma história inteira. Final, meio e começo. Será isso. O meio sempre estático. Também sou o filho do meio. Mediano. Medíocre em meios termos.
Amanhã desejo ficar com os pés firmes, algum chá pela manhã. O pêndulo do relógio em constância — meio-dia como a metade do sol e meia-noite esquentará a cabeça no sono. Aqui estou eu escrevendo novamente sobre o meio. Montanha de pedras no meio do caminho. A escrita não sairá com fórceps. Os livros prematuros sempre acabam mofados, já os maduros são comidos por traças de longas jornadas, com grandes histórias. A saga de um escritor começa onde termina o ponto final. Deve ser isso.
Victor Grizzo
Victor Grizzoé artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.