“O sagrado às vezes escorre pelas frestas do absurdo.”
—Caio Fernando Abreu
No fim da tarde, quando os sacos descem pelos corredores e se encostam nas portas do térreo, dá para saber quem se separou, chorou na noite anterior, mentiu no café da manhã. Tem lixo que desce morno, com o cheiro ainda cru do que foi dito. Outros se demoram na lixeira, pesados demais para serem largados de uma vez só. Tem quem jogue pão embolorado com um laço. Quem descarte remédio vencido dentro de caixa de bombom. Tem também os que dobram papel higiênico antes de descartar. É através do lixo que as pessoas mostram quem são.
Foi por volta das quatro da tarde, a hora que os orgânicos são colocados na lixeira frente ao prédio, que se ouviu o grito na rua. O menino eletrocutado. Colado no bocal da lâmpada do banheiro. Histórias interligadas. A morte do jovem, o salão de beleza e a vingança da Santa.
Antes de zelador, trabalhei como assistente de cabeleireiro.
Aprendi a diferença entre cabelo doado e cabelo arrancado. No salão onde varri os primeiros salários, descobri que cabelo com promessa gruda mais no couro, brilha mais no sol, mas carrega junto o susto de quem rogou.
Aqui no prédio, sou quem puxa o carrinho, limpa o vinco do elevador com escova de dente, lubrifica as engrenagens do portão. Também sou quem vê o que sobra de quem finge. E o que falta de quem nunca finge nada.
Sei da moradora do 501, que esconde cuecas de outro no cesto do marido. Sei do senhor do 204, que se maquia de madrugada e joga o algodão com demaquilante num saquinho separado. Sei até do menino, esse que morreu. E do homem que o penteava aos sábados.
Salão pequeno, acoplado ao lado do edifício. Fachada rosa desbotado e três bonecas de vitrine com penteados de concurso. O dono é o que mora no 1402, meu antigo patrão. Educado, calado, perfumado até nas segundas. Vira e mexe pede ajuda com trancas. Uma vez, a chave dele ficou para fora, a porta bateu e travou. Subi.
Não gosto de entrar na casa dos outros, mas era emergência.
Abri a porta e ele estava no chão da sala. Rodeado de malas. No colo, uma peruca sendo costurada com linha lilás. No canto, um pano com mechas presas por grampos e cheiro forte de descolorante vencido. Não me espantei. Já tinha visto cena parecida quando trabalhava com cabelo, mas o que me prendeu ali foi a data.
Terceira semana de outubro.
É sempre nesse período que o lixo do 14 me exige três viagens. Os sacos vêm pesados, pingando água de lavatório e pedaços de cabelo tingido, meio molhado ainda, como se saísse de um couro recém-rasgado.
O salão vivia às moscas. Só ganhava fila na semana da santa. Ele mesmo me contou, numa tarde abafada, enquanto alinhava fios tingidos. Não sussurrou, não escondeu. Disse com a naturalidade de quem já perdeu o medo da própria fé. Viajava até Aparecida com uma bolsa térmica. Voltava com os cabelos da sala dos milagres. Comprava do padre. Preço simbólico.
Milagre feito. Promessa cortada. Cabelo vendido.
A primeira vez que ouvi, achei que era piada. Depois entendi: tinha convicção no que dizia. E orgulho. Disse que alguns fios vinham com mais poder que muita reza mal-feita – o segredo estava em não desperdiçar nada.
Ele os tingia de cobre, de anil, de verde musgo. Transformava as promessas em disfarces. E vendia. Perucas feitas de fé vencida. Aplicadas com laquê e oração engolida.
Só que promessa não desaparece. Ela muda de forma. Se desvia por cano entupido, por fresta de parede, por goteira mal vedada.
Foi nesse entupimento que começou o vazamento. Água que subiu até o forro do 13º. Escorreu escondida, mês a mês, até parar acima do banheiro do menino. Bem acima do espelho, rente ao fio.
Um dia antes do grito, desci o lixo do 1402. Três sacos. Um deles com papelão amassado, marca de aplique. Outro com mechas ainda úmidas. O último não tinha peso, mas deixava rastro: vela azul quebrada e bilhete curto, escrito com a mão de quem devolveu o que devia.
Não falei nada. No dia seguinte, o menino subiu numa cadeira para trocar a lâmpada do banheiro. A queimada de sempre. Aquela que toda criança pensa que é fácil. Um giro, um estalo, um clarão.
O que ele não sabia era que a água estava ali.
Já carregava cabelo com milagre grudado.
Milagre roubado, vinga.
A lâmpada explodiu quando encostou o dedo.

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.