Sendo uma brasileira que vive na Europa, cheguei à conclusão de que nós, mulheres latino-americanas, temos uma relação “tóxica” com a nossa casa.
Conversando com amigas argentinas, equatorianas, colombianas, ou de outros países latino-americanos, o discurso de orgulho pelo zelo que essas mulheres têm com suas casas, é sempre o mesmo.
Fomos educadas desde pequenas a manter a casa em ordem, priorizar a arrumação antes de qualquer outra tarefa do dia. Desde a hora que levantamos, até a hora que vamos dormir, essa relação nos toma tempo e energia. Ao acordarmos, já precisamos deixar a cama pronta e arrumada para que ao voltarmos encontremos a paz de espírito que só uma colcha bem esticadinha nos proporciona. A pia da cozinha está impecável, porque tomar café da manhã com louça suja do dia anterior nos tiraria até a fome.
Antes de sair de casa ainda temos que lavar, secar, estender, recolher, dobrar ou guardar alguma roupa. Depois, precisamos recolher tudo que está jogado pela casa que os outros integrantes da família deixaram espalhados por aí (eles sim conseguem sair e nem olhar para trás), assim que lá vamos nós recolher copos, sapatos, livros, mochilas, óculos, chaves, e tudo mais que está fora de seu devido lugar.
Me dou conta que ainda não são nem 8:30h da manhã e já fiz tudo isso descrito aí em cima. Moro na Europa, mas a latinidade não me abandona. Vejo que aqui as mulheres europeias não se importam nem a metade do que nós nos importamos com essa organização do lar. Não me refiro à limpeza. Elas também faxinam, varrem, tiram o pó, lavam as roupas etc. Mas essa cobrança que nós temos de não conseguirmos fazer nada antes de ver toda a casa organizada, não encontro por aqui. Não me entendam mal. Se arrumar a casa é algo que a mulher gosta de fazer, ótimo.
Mas se é uma atividade que se faz no automático por achar que é uma obrigação, justamente pelo fato de ser mulher, então flertaremos com a frustração. Poderíamos usar esse tempo em outras atividades que nos proporcionem mais prazer, seja uma saída com as amigas, um esporte, uma leitura, um hobby.
Bom, falando em hobbies, já se deram conta de como nós mulheres temos poucos hobbies? Será falta de tempo? Eu prefiro chamar de falta de saber priorizar. Não fomos ensinadas a priorizar nossos hobbies. O tempo que nos sobra depois de trabalhar e cuidar da família, normalmente é empregado na casa, como se fosse nossa obrigação. Mas isso nos leva ao cansaço físico e mental.
Precisamos conseguir chegar em casa e deixar o sapato no meio da sala e a louça do jantar na pia e ir tomar um banho demorado, assistir uma TV, ler ou simplesmente não fazer nada. E sem ansiedade, porque no dia seguinte o sol nascerá igual e não será o fato de termos ou não arrumado as almofadas no sofá da sala na noite anterior que nos fará ganhar mais anos de vida ou mais saúde, nem nos ajudará a conseguir aquela vaga de emprego desejada ou a conhecer alguém especial. Recolher ou não, antes de dormir, a blusa que você esqueceu jogada no sofá não vai mudar tua vida em absolutamente nada.
Quando dedicamos tempo e energia para alguma coisa, renunciamos a várias outras. A pergunta é: onde estamos focando nosso desejo, e por quê? Muitas podem ser as respostas e depende de cada história e vivência, mas uma coisa é certa: todas nós seremos mais felizes e realizadas se nos permitirmos pequenos momentos de ócio e prazer durante o dia.
Que tal começar encontrando um hobby para chamar de seu?
BEATRIZ PAOLIELLO após me formar em administração de empresas em Londrina, no Paraná me mudei para Barcelona onde estudei marketing, roteiro e cinema. Retornei ao Brasil onde empreendi na área de bem-estar e hoje resido novamente em Barcelona com meu marido e minha filha. Sempre escrevi e o ano passado, participando de um concurso em um curso de auto ficção da Tati Bernardi, tive um conto inédito meu escolhido pela editora Pé de Amora para ser publicado e enviado a todas suas assinantes.