Um dia, a Mulher acordou e viu que já estava na cama do Homem. O travesseiro amassado tinha o formato do seu crânio. Mas, porque os colchões são como água, seu lado da cama tinha um pequeno relevo que era o reflexo do ninho afundado pelo peso do corpo Dele, que era maior e mais pesado, e, como o colchão sempre fora Dele, era natural que a miúda montanha estivesse ali não para ferir as suas costas e lhe dar uma dor persistente na lombar — como, efetivamente, ela fazia — mas para, pelo contrário, oferecer a ela o prazer de dormir com Ele. A mulher, no entanto, tinha muito mais afinidade com os objetos, então, todos os dias, enquanto ele trabalhava no seu escritório, ela deitava do lado em que Ele costumava desmaiar depois de longas e misteriosas labutas, e ficava aninhada no fundo da espuma como uma pequena contraventora da lei.
Sabia que amava o Homem. Essa era, provavelmente, a única certeza da sua vida. Havia tanto espaço para preencher com dúvidas na sua cabeça que ela pensava, pensava e pensava, e o Homem a chamava de preguiçosa por causa disso. Ela acreditava, aliviada por preencher uma lacuna na sua imensidão de incertezas, e ouvia docilmente a todas as outras coisas que o Homem tinha a dizer. Diferente dela, o Homem tinha muitas certezas. Ele a fascinava e, por conta disso, afinal, a Mulher O amava acima de tudo.
Mas como era preguiçosa, um dia ficou com preguiça da cama e decidiu sair para o quintal. Largou os objetos, deixando a panela fervida evaporar a água lá dentro como um fantasma que escapasse para assombrar as paredes. Lá fora, o Homem havia plantado uma macieira alguns anos atrás, quando ela ainda nem estava lá. Teria sido Ele mesmo? Não tinha certeza, de novo. Quis perguntar para a árvore há quanto tempo ela estava ali. Ter afinidade com objetos não lhe garantia afinidade com árvores, no entanto; e seria uma árvore um objeto, ou era errado falar assim de uma coisa viva? Passou os dedos finos pelo tronco áspero e esfregou as folhas do galho que conseguia alcançar, procurando por novas texturas porque havia aquele espaço vazio dentro de si, e se assustou com as formigas que subiam e desciam, subiam e desciam, intermináveis. Teve pena delas. Pensou no Homem, todos os dias, indo e voltando e indo voltando para o escritório.
Mas o que mais lhe chamou a atenção foram as roseiras. Parecia tanto que ela havia vivido ali a vida toda, que quando viu que havia roseiras se sentiu levemente tonta, porque nunca, em todo aquele — quanto? — tempo ela as percebera. Rosas brancas se amontoavam nos beirais da casa, e tinham o cheiro tão forte que a Mulher pensou que era assim, através do cheiro, que elas se comunicavam. O barulho do vento batendo nas suas hastes frágeis imitava um burburinho. De que multidão, se havia alguma multidão de que ela se lembrasse, era todo aquele escândalo? Perguntou para as rosas muitas coisas sobre o Homem. Elas responderam, mas ela não entendeu, e acabou trocando a cama pela terra e o dia pela noite.
As rosas tinham muitas certezas. Assim como a árvore, elas cochichavam incessantemente sobre as estrelas, as formigas escravizadas, os gafanhotos desagradáveis e, agora, sobre a estranha mulher estirada debaixo delas. Na primeira noite, o céu se desfez numa chuva violenta, e o Homem achou que a mulher tivesse saído e estivesse esperando por um tempo tranquilo para voltar para casa. Na segunda, ele teve certeza que ela havia se afogado nas inundações do temporal, mas ainda teve a esperança de que ela voltaria com mais frio e fome. Na terceira noite, nem o Homem e nem o travesseiro deram sua falta na cama, e finalmente, sob a luz da lua mais cheia, um galho ficou mais pesado e caiu um pouco, levando uma maçã para o lado dela. Então a mulher viu o pequeno Verme colocando a cabeça para fora da fruta, e os dois ficaram se olhando como ela e o Homem costumavam fazer em algum momento esquecido. Eventualmente, o Verme falou:
Debaixo de você há uma outra mulher, que morreu há cem anos. Eu estava aqui e atesto.
Os restos dela não se parecem com você, mas, quando ela ainda não era resto, era como a sua gêmea, e se vissem as duas juntas ninguém haveria de saber qual era qual.
Debaixo de você há uma outra mulher, que viveu há cem anos. Eu estava aqui, ainda não havia árvore e nem fruta, mas do fundo do mundo eu vi tudo e atesto.
Ela pediu para que o Homem plantasse rosas, e até tentou ela mesmo, mas nada nunca vingou nesta terra antes que ela morresse, porque nós, os vermes, só pudemos nos alimentar quando ela nos deu a carne.
Debaixo de você há uma outra mulher, que amou há cem anos. Eu estava aqui, e eu estava com fome, mas o mais estranho, se você me perguntar, é que sempre houve outra mulher, mas o Homem sempre foi o mesmo.
Debaixo Dele, ela foi amada como a Lua ama a Terra; através de uma fonte distante, desfazendo-se um pouco a cada noite, mirrando e crescendo e mirrando e crescendo, mas dela só nasceram cadáveres que usamos para não morrer de fome no inverno.
Debaixo de você há a verdadeira Mulher, que não é Outra mais do que você. E acima de você há o Homem, que pode me arrancar daqui a qualquer momento com suas ferramentas cortantes, mas também existo eu, o Verme, que comerá até o final e terá fome até o final.
Então, a Outra Mulher acordou e levantou-se da terra, sentindo o seu crânio doer com o formato do chão, e estendeu a mão até a maçã mais baixa da árvore. Ela a devorou, e teve certeza, como o Verme, de que sentiria fome até o final, e também o vazio. Dentro da casa, o fantasma da água fervida havia formado uma grande mancha em formato de mulher no teto da cozinha, mas ela não se incomodou com a companhia. Pegou as ferramentas cortantes do Homem e rasgou a sua garganta, tomando o cuidado de não sujar o travesseiro. E comeu da sua carne até que, dela também, as rosas nascessem e os filhos saíssem vivos.
Eu estava lá, e atesto.
Era eu a água que tudo observava do teto, e também um pouco daquela que respingou da chuva lá fora. Aos pés gelados que caminham por esta floresta, eu ofereço o que ela me deu, o Verme; ele atesta que eu secarei, assim como ele.
As filhas da Outra mulher escutam e respondem às árvores, destruindo formigueiros. Seus irmãos foram embora porque elas lhe eram iguais e eles não podiam mais suportar o escândalo das flores.
Por ora, vivemos irrigados pelas lágrimas das filhas Dela, que ficaram porque havia rosas. E sabemos que o mundo não terminará enquanto houver, sobre a terra, uma outra mulher.
Sempre uma outra mulher.

Maria Luiza Artese nasceu em 1992 no Rio de Janeiro, mas saiu da cidade tão cedo que não ousa se chamar carioca. Viveu em Salvador antes de morar em Fortaleza, tendo o oceano como único ponto fixo. Decidiu ser escritora aos 12 anos, vencendo diversos concursos de conto e poesia na escola, e escreveu um pequeno livro de poemas épicos aos 16, mas prefere que estes permaneçam aventurando-se na gaveta. Foi colaboradora do portal Homo Literatus, publicou o romance Olhos de Oceano (2014) e participou de diversas coletâneas de contos e poesia, como O Corvo (Empíreo, 2015), Farol: Contos do Ateliê de Narrativas de Socorro Acioli (Moinhos, 2019), Um Fragmento Chamado Vida (Editora Modo, 2019) e Antologia Poética Literatura Br (2021). Colaborou para jornais e revistas literários como o RelevO e a Para Mamíferos, e aguarda até hoje pelo seu diploma honorário de graduanda em Psicologia, Moda e Letras, que cursou até concluir, finalmente, seu bacharelado em Jornalismo. É autora do romance A História Quebrada da Completude (Casa Philos, 2025) e participou da programação da Casa Philos na Flip 2023, como autora convidada na mesa A Fantástica Fábrica de Literatura.
Há dias guardava esse texto para ser lido com mais tempo e menos angústia, e não me arrependo. Realizar a leitura com a atenção merecida, e na cadência mansa de uma tarde de domingo foi impagável, bem como conhecer o trabalho de Maria Luiza. Já estou à procura dos outros textos da escritora que muito me sensibilizou para além da irretocável construção textual.