Antes de ser pequena e famosa, a sereia já foi muitas coisas. Na Odisséia de Homero, elas já eram criaturas metade mulher, metade bicho, mas, ao invés de caudas de peixe, tinham asas e pernas de pássaro. Ao surgir em outra grande obra da literatura mundial, A Divina Comédia, a sereia foi representada pela figura de uma mulher que encantava com sua voz, mas que era na verdade podre e cadavérica. Ao longo da Idade Média, ela foi ficando cada vez mais ligada aos perigos marítimos, e talvez por isso sua forma metade peixe, metade mulher tenha se consolidado nas ilustrações da época, embora elas também tenham aparecido, nesse período, como apenas mulheres que viviam nas águas. Outras lendas e criaturas, como as selkies, as mulheres-foca do folclore irlandês que tiravam suas peles em terra firme, se assemelham muito à sereia, especialmente porque todas falam, essencialmente, da mulher.
Quando surgiram sereias nos meus escritos inundados, eu estava às voltas com a minha relação com os homens, que desde sempre foram mesmo os marinheiros. Filha de um homem que trabalha com o mar, criança nômade de litorais, eu sabia que marinheiros constroem navios e atravessam o oceano, seu perigo, suas profundezas, para desembarcar em portos distantes e explorar o mundo, fazendo das terras todas suas. Marinheiros entram numa mulher — ou mais — diferente em cada cidade, saem delas como saíram primeiro de suas mães e muito frequentemente deixam alguma coisa para trás. Depois de sair, como entraram também, das praias mais novas, eles voltam a correr o risco de afundar porque vão para o meio da água. As sereias são mulheres porque vêm do fundo e sabem permanecer lá dentro. Elas são perigosas para os homens porque podem fazer com que o frágil, fabricado sustentáculo do navio naufrague facilmente. Porque as sereias, que nem sempre foram peixes, sempre souberam, por outro lado, cantar. E isso era o suficiente para que, em todas as suas versões, elas fizessem os homens perder o controle de suas tolas e racionais invenções, e se atirassem ao fundo como a criatura primitiva que busca a sua forma primeva — aquela que veio da água.
Na época em que escrevi sobre sereias, não sabia que estava escrevendo sobre minha mãe. Achava que era apenas sobre meu pai, o marinheiro, e todas as maneiras pelas quais eu poderia submergir do fundo da minha própria natureza e conquistar uma terra inteira com o meu nome. Minhas sereias eram pequenas e muitas, ou uma e grande. Elas eram mãe, mulher, animal, eu, sonho, realidade. Minhas sereias nunca foram maldosas. Elas sempre foram melancólicas, penteando os cabelos sob o luar e chorando pérolas que não lhes serviriam de nada. As sereias me vieram quando eu precisava compreender a mulher em mim, a mulher de onde vim, a minha casa inteira.
O que aprendi com as sereias foi que as mulheres sem voz não têm o que fazer no mundo. O que aprendi com as sereias foi que, mesmo que uma mulher com voz utilize seu poder, ela vai acabar muitas vezes apenas com os escombros de um naufrágio. Aprendi que temos que aprender a amar os afogados. E que, como viemos todos da água, temos que aceitar que a ela pertencemos. Somos todos afogados de um jeito ou de outro. Mas tendo cauda se vai à superfície, e é lá que há ouvidos para ouvir canções, palavras, magia, poder. Acho que quem escreve é meio sereia, entoando histórias para encantar, atraindo os olhares para o fundo, inspirando quem escuta a mergulhar.
Dito isso, as sereias, sempre consideradas ameaças, impõem ao mundo um desafio profundo que se torna cada vez mais difícil: o de voltar ao começo de tudo e encarar o abismo. Mas, como o abismo sempre olha de volta, há também o desafio oposto: saber criar pernas e andar os seus próprios passos. Percorrer o caminho para a sua própria terra. Encontrar aqueles que entendam mesmo sem palavras. E recuperar a voz nesse processo.

Maria Luiza Artese nasceu em 1992 no Rio de Janeiro, mas saiu da cidade tão cedo que não ousa se chamar carioca. Viveu em Salvador antes de morar em Fortaleza, tendo o oceano como único ponto fixo. Decidiu ser escritora aos 12 anos, vencendo diversos concursos de conto e poesia na escola, e escreveu um pequeno livro de poemas épicos aos 16, mas prefere que estes permaneçam aventurando-se na gaveta. Foi colaboradora do portal Homo Literatus, publicou o romance Olhos de Oceano (2014) e participou de diversas coletâneas de contos e poesia, como O Corvo (Empíreo, 2015), Farol: Contos do Ateliê de Narrativas de Socorro Acioli (Moinhos, 2019), Um Fragmento Chamado Vida (Editora Modo, 2019) e Antologia Poética Literatura Br (2021). Colaborou para jornais e revistas literários como o RelevO e a Para Mamíferos, e aguarda até hoje pelo seu diploma honorário de graduanda em Psicologia, Moda e Letras, que cursou até concluir, finalmente, seu bacharelado em Jornalismo. É autora do romance A História Quebrada da Completude (Casa Philos, 2025) e participou da programação da Casa Philos na Flip 2023, como autora convidada na mesa A Fantástica Fábrica de Literatura.