A única certeza que Berenice tinha era que ia morrer.
A qualquer momento, atrás de qualquer curva entre os corredores, Caronte surgiria com sua barca decomposta deslizando no linóleo, e não importava que ela não tivesse moedas, pois ele tomaria o ferro das suas obturações como prêmio, e de pouco serviriam as coberturas esmaltadas quando ela embarcasse na sua canoa. Aos poucos ela já ia fundindo-se às coisas, desfazendo-se em si mesma, desgastando-se mais a cada passo e a cada suspiro, ar que entra e chega vazio, ar que volta e escapa cheio, cheio de si, cheio de pouco. Berenice sabia que estava prestes a sumir e cuspia o seu fôlego, recheando-o de partículas peculiares que já não eram ela.
Pois os cabelos de Berenice caíam aos montes, e ainda assim ela se recusava a cortá-los. Mastigava-os entre os dentes, e eles formavam nós com as comidas apodrecidas arrancadas pelo fio. Outro dia, a gata, que já lambia tanto de si mesma e saía vomitando partículas suas, porque sabia também que ia sumir, engolira um punhado dos cabelos de Berenice, e não conseguira defecar; pois o cabelo de Berenice trançara a bosta em gominhos, unindo-os uns aos outros como brincos de miçanga, e mamãe tivera de puxar e puxar até que saísse tudo, e a gata sumira um pouco mais naquele dia. Mamãe havia feito isso porque eram sempre as mães que o faziam; eram sempre elas que metiam os dedos na baba e na merda e no vômito das crianças para que elas não sufocassem no próprio refugo. Mamãe reclamava do cabelo de Berenice dia e noite, porque ele estava em todos os lugares como se a cabeça de Berenice se esticasse numa onipresença, e de certa forma mamãe, que era a casa, não podia deixar que a filha se tornasse parte das paredes. Mamãe cortara os cabelos enrolados até a raiz, ficando eternamente parada, porque perdera o movimento espiralado que definia o universo. Berenice não tinha cachos mas tinha uma tesoura, que ela só usou nos pelos do braço, partindo-os enquanto arranhava a ponta afiada sobre a pele, e por mais que já estivesse mesmo morrendo, ficava então em carne viva.
Às vezes a casa pedia um pouco de pele e um pouco de sangue, porque não tinha como ser alguém sem essas coisas; nem só de cabelos viviam os fantasmas. Era muito pouco o que saía com a tesoura, mas todos os meses Berenice sangrava muito. Sangrava tanto que pensava que ia morrer, além de saber que realmente ia. Então a casa ficava mais forte, seus fantasmas alimentados, e eles iam sussurrar verdades nos ouvidos das mulheres. A loucura está a apenas uma camada de pele, diziam eles, e Berenice não sabia se mamãe ouvia o mesmo.
Como estava virando a casa, Berenice se sentia mais confortável durante a noite, quando não havia o barulho de nada. Então podia sentir os ruídos do assoalho, escutar os estalar dos móveis, esticar-se na queda gradativa de uma sacola muito cheia sobre uma superfície inclinada. Eu reino sobre o tempo, pensava, esnobando a lua que a mandava dormir. Espalhava os cabelos nos seus passeios, as luminárias agradecidas envaidecendo-se com a feminilidade, os sofás cheios de pelo sentindo-se cada vez mais mulher, meio gato e meio onda. Pois os cabelos de Berenice eram ondulados e tão compridos que podiam amarrar qualquer coisa, e ela era uma espécie de rainha com vários tentáculos que alcançavam tudo, crescendo até o encanamento e entupindo os ralos, e muitas coisas inundavam, e os chuveiros estouravam e transformavam seu quarto num lago, fazendo os cabelos nadarem no auge da sua volúpia, porque eram tentáculos e ondas, e juntas as partículas peculiares da casa de Berenice e da própria Berenice faziam sentido. Mamãe enfiava os dedos nos ralos e arrancava os krakens da cabeça da filha, e reclamava, e jogava tapetes nos maremotos onde um cheiro terno de mofo ficava. Berenice gostava do cheiro; ele tapava as suas vias aéreas e por mais que ela assoasse muito, empurrando catarro para os ouvidos que inflamavam, a alergia parecia criar tanto mais de si que ela podia doar às coisas, que ela ficava satisfeita em ornamentar os espaços com seus papéis escarrados.
Mamãe odiava os papéis também, porque ela ainda era a casa e não podia deixar que a filha a ocupasse; já passara nove meses alimentando-se do que era seu, e achava que agora, a ferida feita na barriga, para sempre um trauma, nada tinha a dever para ela. Berenice odiava o buraco na sua barriga e se pudesse o cortaria com a tesoura. Tinha tanto nojo desse esfacelamento que quase vomitava, mas seu desejo era emparedar-se entre os tijolos. Não falava sequer o nome, e amava a casa porque ela não tinha um. Onfalofobia era o termo do seu horror, e ele parecia falar de falos e coisas melhores, e ela preferia falar assim, tenho onfalofobia e pronto, ninguém entendia o que era e não fazia troça dela, levantando as camisas.
Um dia Berenice tivera amigos, e namorados, e até já fora noiva. Sonhara com o véu muito mais do que com o vestido: gostaria de um que lhe cobrisse os cabelos todos, e a fronte, e poderia deixar as madeixas soltas por baixo, e tudo ficaria protegido e seguro como se ela tivesse um telhado. O véu é o mais importante, ela repetia, se não as coisas voam e sobem e uma vez que você flutua, você não volta. Não conseguia lembrar de quando havia dito isso, pois tudo parecia tão distante agora, e como não lhe deram um véu e nem um vestido e nada acontecera, ela flutuara indefinidamente até nunca mais voltar. Agora tudo parecia mais ou menos com aquelas pinturas impressionistas, pontilhismos inexatos sob uma vista míope. E era mesmo míope e não enxergava de longe, então não podia ver mais nada.
Quando ela finalmente virasse a casa, não lembraria mais de nada. Nem dos pontos ou dos garranchos ou das manchas e vultos. Quando ela finalmente virasse a casa, não poderia ver, nem ouvir e nem falar. Berenice vivia inteiramente inflamada, doente como um inválido, e não havia conseguido caminhar até o altar. Se ao menos eu for algo, ela entendera, em vez de alguém, eu não teria mais de abandonar ninguém, nem ser compreendida, nem explicar, nem suprir. Ah, Berenice desejara muito ter filhos, mas não suportaria que estragassem suas barrigas quando os tirassem dela. Sendo uma casa, podia ser abandonada, mas nunca mais sentiria nada.

A loucura está a sete palmos de distância, mentiu um fantasma. Está aqui, corrigiu Berenice, com cuidado para fazê-lo em privado, pois era muito educada. Às vezes metia os dedos entre as pernas porque se sentia entupida, e enquanto tivesse dedos poderia fazer como mamãe e metê-los nas coisas grotescas, impedindo-as de se afogarem no próprio refugo. Um vão inteiro não levava seu dedo a nada. Está vazio, como uma casa, ela pensava, mas ninguém ficaria lá. Tinha certeza que as partículas daquela parte eram diferentes e estavam erradas de alguma maneira. Bruxas, histéricas, neurastênicas. Sempre estavam tentando consertar as mulheres, da mesma forma que sempre estavam fazendo as obras nas casas, porque com o tempo elas empenavam e quebravam e mofavam, e ela sabia que empenaria, quebraria e mofaria, porque era assim que era. Não está pronta ainda, havia dito o seu noivo, que esperava que as suas melhorias terminassem até a data da igreja.
Porque mamãe já era a casa, ela tinha uma voz muito baixa, especialmente depois de cortar os cabelos como Joana D’arc, queimada. Ao longo dos anos, a sua urgência gutural dera espaço a um ruído monocórdico que fazia com que as estantes dentro de Berenice se agitassem derramando tudo, e se ao menos ela fosse a casa não sentiria raiva de quem já havia virado tijolo, papai, papai. Papai não vivera o bastante para morrer, então estava no mundo, bem longe de tudo que era ser mulher e ter um espaço a mais onde tantas partículas erradas transitam sem formar nada além de cômodos que sangram porque ninguém vai morar neles. Às vezes Berenice desejava que mamãe caísse na lareira e morresse como Joana D’arc, mas a ferida na barriga lhe doía e ela sabia que não seria capaz de suportar um mundo sem ela. Um mundo sem casa, por mais que todas as paredes da casa estivessem podres. Cairiam a qualquer momento, talvez bem em cima da cabeça de Berenice, quando algum dos seus cabelos gigantescos alcançasse uma quina e a puxasse sobre ela. Papai, papai, por que está fora, por que não vem, por que somos uma casa tão vazia e triste e quebrada? As paredes caindo, o telhado caindo, não há colunas nem vigas, papai, papai, são os homens que fazem as obras! Mas no final somos nós que ficamos aqui, tendo que varrer os despojos e enfiar as mãos nos refugos de tudo que existe e não apenas é. Berenice gostaria de encontrar onde mamãe havia escondido a própria voz, mas apenas as mães encontravam as coisas, porque afinal alguém já morara dentro delas e elas não tinham apenas se desfeito. E gritava, esperando que as partículas e ondas do som, porque tudo era partícula e onda, chegassem na garganta da mãe, que sufocara, que engolira a própria voz num cinismo que a fazia odiá-la. Que me deem o grito, rezou Berenice, antes de me darem o murmúrio. Mas as casas apenas estalavam e cantavam com o vento, tristes, tristes.
Um dia a casa ficou tão triste que todas as luzes nela se apagaram. As luminárias, deprimidas porque não podiam mostrar o fulgor dos seus cabelos, queimaram se estragando. Os sofás não enxergaram os pelos dos gatos ou as ondas de Berenice e congelaram sem mais visitas. Os ralos deixaram que as baratas escapassem e os encanamentos ficaram parados. A lareira só funcionava a eletricidade e também morreu. As paredes estalaram tremendo, porque elas sempre só estalam no escuro. As janelas cantaram tanto que acordaram Berenice. E os telhados, muito fracos para a tempestade, foram desfeitos com o vento. A chuva caiu sobre as camas de Berenice e mamãe inundando tudo. E, porque havia tanto delas desfeito nas paredes, elas não tinham peso; e flutuaram, tanto e por tanto tempo, que as nuvens foram embora e surgiram as estrelas. Como as luminárias haviam queimado, quando elas olharam para trás, tentando encontrar a mancha da casa na noite, não conseguiram ver nada.
E nunca mais voltaram.

Maria Luiza Artese nasceu em 1992 no Rio de Janeiro, mas saiu da cidade tão cedo que não ousa se chamar carioca. Viveu em Salvador antes de morar em Fortaleza, tendo o oceano como único ponto fixo. Decidiu ser escritora aos 12 anos, vencendo diversos concursos de conto e poesia na escola, e escreveu um pequeno livro de poemas épicos aos 16, mas prefere que estes permaneçam aventurando-se na gaveta. Foi colaboradora do portal Homo Literatus, publicou o romance Olhos de Oceano (2014) e participou de diversas coletâneas de contos e poesia, como O Corvo (Empíreo, 2015), Farol: Contos do Ateliê de Narrativas de Socorro Acioli (Moinhos, 2019), Um Fragmento Chamado Vida (Editora Modo, 2019) e Antologia Poética Literatura Br (2021). Colaborou para jornais e revistas literários como o RelevO e a Para Mamíferos, e aguarda até hoje pelo seu diploma honorário de graduanda em Psicologia, Moda e Letras, que cursou até concluir, finalmente, seu bacharelado em Jornalismo. É autora do romance A História Quebrada da Completude (Casa Philos, 2025) e participou da programação da Casa Philos na Flip 2023, como autora convidada na mesa A Fantástica Fábrica de Literatura.