Por ser uma coisa feita, ela nunca teve de fazer nada. 

Isso, aliás, era parte do seu projeto. Da pia, rasa demais para a louça muito grande, não saía água. O forno não tinha porta, e suas bocas, dragões enguiçados, não cuspiam fogo. Não podia fechar as janelas, pois as cortinas eram apenas desenhos sobre a parede. Embora as cadeiras comportassem o seu corpo, nunca estavam ajustadas para que as costas rígidas não doessem. Esse também era um problema muito grande: fora feita dura demais. O suficiente para que uma criança não a deformasse, se tivesse uma. E havia sido feita para isso: ter uma criança. Não, não era bem isso. Havia sido feita para que uma criança a tivesse.

Era um papel desengonçado, aquele. Era mãe, filha e fada ao mesmo tempo; ora suas pernas tocavam o chão, ora flutuavam girando com ela. Era uma menina que gostava muito de girar, girar e girar até perder o equilíbrio, mas, apesar das pernas trôpegas, ela nunca caía. Se jogava na cama quando seu mundo balançava demais, rindo enquanto os olhos fitavam o teto indiferente, focando em um ponto, em outro, nada muito certo enquanto carregava sua boneca no colo, e às vezes a erguia exatamente ali, naquele momento de quase queda, e fingia que ela voava no firmamento do seu quarto, os adesivos de estrelas que brilhavam no escuro se misturando aos seus cabelos, ah, por que os cabelos das bonecas eram tão brilhantes se nem eram de verdade? E dava um nome para ela que sempre mudava, porque esquecia ou porque já não combinava, um dia foi Joana e no outro Elizabete, foi até Joaquina quando quis um ar pomposo, e porque achou engraçado. Na caixa em que veio havia um nome, mas já o esquecera há muito tempo. Melhor que de si mesma se soubesse apenas boneca, e pertencente a ela, menina. E a menina pensava que só assim sem identidade era possível voar, andar e ser um pouco de tudo ao mesmo tempo; ela só era criança, e sabia que isso era ser mesmo nada – a única forma de poder ser tudo. 

Mas os cabelos da boneca brilhavam muito, e nem eram de verdade. Tinham uma cor de mel que ficava entre o louro e o castanho, porque assim não ficavam presos em um nem outro. A face  muito branca tinha bochechas muito rosadas, os olhos muito azuis tinham cílios muito grossos, no topo das maçãs do rosto havia pequenas sardas. As sobrancelhas escuras eram opacas, apenas alguns riscos escondidos pela franja sedosa, e nas pontas os cabelos cacheavam num arranjo eterno, nunca se desfazendo ou perdendo a forma. A boca cor de rosa nunca se abria, e, por algum motivo, não havia sido desenhada num sorriso. Estava toda encerrada numa indeterminação absoluta, mas não era moldável como o plástico ou mutável como o pano. Era feita de porcelana – um modelo antigo, raro, de coleção. Acima de tudo, fora feita para ser admirada, e era: a menina nunca soube brincar direito, e, toda vez que fazia dela alguma coisa, contentava-se em movê-la pelos cantos como se quisesse capturar a luz adequada com que a vestiria daquela vez. Muitas vezes tirava sua roupa, espiando seu corpo de boneca que não era mais que uma ideia. E massageava o próprio corpo, sentindo excitada a indeterminação de que eram gêmeas. 

No começo, a boneca achou que, como não tinha nada de seu, não era mais do que uma parte dela, como um duplo que se esmera num único sol e enxerga apenas o que ele ilumina. Sim, ela era a sombra da menina, sempre a acompanhando como um satélite encantado, por mais que o universo das duas tivesse o tamanho inteiro de uma casa. Do mundo lá fora, apenas a imagem assustadora do abismo da janela da menina, que era grande demais e perturbava como um buraco negro sob o qual a pura destruição residia. A boneca tinha medo do lado de fora, e a menina também. 

Tinha uma casa sua, também. A réplica de uma mansão vitoriana, e louças de plástico que nunca serviam nada, todos os tempos e contextos diferentes se misturando, simulando o mundo da menina que também era uma coisa toda torta. Às vezes a menina a levava até a cama, e seus olhos estavam menores, mais cristalinos como os seus, e ela amassava o seu cabelo como se fosse encontrar alguma coisa ali, talvez uma daquelas escovinhas de cerdas curtas que não serviam para nada além de afundar nos pés de quem as pisava, perdidas no chão. A menina nunca caía apesar de girar tanto, mas uma vez ela caiu porque se machucou desse jeito. Não foi nada demais, mas a cabeça da boneca ganhou sua primeira rachadura. 

Aos poucos a menina começou a virar outra coisa. Porque a carne era como o plástico, mas um pouco pior: esticava demais, partia se forçada, e não dava pra ver quem a moldava, de forma que a boneca passou a ter medo do escuro onde os donos da menina deviam reformá-la toda noite. Todo dia ela parecia mais alguma coisa, um pouco de mãe, filha e fada, um tudo assim que brincava de identidade sem saber voar. Deixaram de se visitar, não que a boneca pudesse mesmo fazê-lo; a menina-alguma-coisa parou de frequentar a casinha vitoriana com o mesmo empenho, e ficou um pouco mais do lado de fora. O abandono era o destino de todas as bonecas, ela sabia disso. Lá de dentro da sua réplica de papel, ainda que as paredes fossem tão frágeis, ela nunca poderia se livrar do seu claustro. Se todo aquele palacete caísse, o que quebraria primeiro?

Quando já estava quase que totalmente diferente, a menina voltou a falar com ela. Pegou-a entre os braços, alisando os cabelos endurecidos pelo tempo, esbarrando as unhas pelos olhos cristalinos, tirando uma poeirinha do canto. Parecia empoeirada também, uma camada de mofo sobre cada olho acinzentado, mas ela guardava aquele bolor em caixinhas e o espalhava com pinceis. Quando seus olhos ficaram vermelhos, os olhos não cristalinos da menina, a boneca pensou que estavam irritados. Porque já estava feita, não entendeu que a menina tinha de se fazer todo dia. E que às vezes isso doía. 

A menina sofria de amor, mas a boneca não sabia disso. Porque as bonecas são sempre mulheres, ela não sabia o que era um homem, nunca tivera a mais remota visão de uma criatura que não fosse como ela. Nem a menina sabia dos homens também, aprendera a ser mulher daquele jeito quebradiço, segurando bem os vôos ensaiados, se caísse quebrava e então como ficava? A boneca tinha uma rachadura na cabeça, mas ficava escondida pelo cabelo. Ela só descobriu quando se livrou dele. 

Sim, pois a menina não podia ter rachaduras, e quando tentava, elas ficavam molhadas de sangue e saravam. Desde que havia quebrado, a boneca sentia que havia algo escondido dentro dela, ali na parte mais escura, entre as centenas de fios de cabelo que já não brilhavam como antes. Como ela era uma coisa feita, nunca tivera de fazer nada, mas como a menina não sabia que lhe faltava um pedaço, foi como se sua existência de boneca tivesse pela primeira vez um ato; pois havia um segredo, um mistério, um vazio que era só seu e começava ali, nas pequenas reentrâncias de sua louça oca, e por mais que fosse oca, por mais que fosse nada, era um nada todo seu. A primeira coisa que lhe pertencia, ela que só estava lá para o outro, ela que não passava de uma ideia. Uma vez ouviu a menina lendo que ideias eram imortais. Se ela não quebrasse, ela também seria. 

Mas a menina não. Ela podia quebrar e sarar, quebrar e sarar, e no final ainda assim morreria. Pintava os lábios de vermelho e embebia os cílios de rímel, e se chorasse ele escorria, escorria, às vezes vinha um cílio junto da lágrima e era difícil soprar um pedido com ele, pois estava molhado. Se tivesse o rosto da boneca, que não ficava nunca sujo, cristalizando-se no tempo…mas era carne, plástica, flácida e mortal, e precisava todo dia descobrir uma nova maneira de se fazer, de se montar de alguma coisa, e era muito difícil se fantasiar de boneca. Passara a vida numa casa de brinquedo, brincara mesmo tanto que agora, que crescera, só sabia continuar brincando daquele seu jeito troncho que era só ficar admirando as coisas, admirando o reflexo, mas de onde batia a luz certa para o que quer que fosse agora? Não era boneca, não era criança; não era definitivamente nada do que fora antes. Sentia como se precisasse livrar-se de alguma coisa, como se as unhas dos pés estivessem girando de tão grandes, e girar e girar era a única forma de voar que conhecia. 

Examinou o espelho e decidiu que mudaria o que ele via. Se cortasse um pouco do cabelo, a luz chegaria no seu pescoço e aqueceria a sua garganta, sim, aí então ela teria o que dizer e como. Pegou a tesoura e cortou uma das mechas, que não brilhava tanto mas tinha cachos na ponta. Cortou o resto, jogando os despojos sobre a penteadeira. Todos juntos, os fios do cabelo dela deviam dar a mesma quantidade de cabelos da boneca. Mas chorou assim que os viu recolhidos; não havia encontrado nada além de um nó na garganta quente. 

Então fez o que já não fazia há tanto tempo. Pegou a boneca, trazendo-a para a cama, e deitou chorando enquanto alisava os seus cabelos inteiros, os cachos intactos, a cor indefinida. Mas, dessa vez, e apenas àquela altura, a menina encontrou a rachadura entre os fios. Num susto, a louça arranhou-lhe o dedo, que feriu-se a imitando. 

A boneca estremeceu. Seu único segredo revelara-se. Uma gota de sangue escorreu no interior da sua cabeça oca, preenchendo-a de uma coisa nova. A menina, feita a rachadura no dedo, parou de chorar. Ao invés disso, apertou a ferida com a outra mão, engordando o sangramento, que sugou depois. E ali, ambas alimentadas do mesmo vinho, foram até a penteadeira onde o ritual deveria continuar. No começo, a boneca achava que não era mais do que uma parte dela. Mas agora isso tinha mudado; no meio do seu vazio, um pedaço de menina escorria. 

Por algum motivo, as crianças do mundo todo costumavam destruir suas bonecas, e isso frequentemente começava por cima: cortavam-lhe os cabelos sem saber que, diferente delas, eles nunca cresceriam. A menina já sabia disso, mas pegou a tesoura mesmo assim. Tinha descoberto um segredo importante, desses que arrancam sangue muito depois de serem armados, os segredos tinham tempo de cozimento e só queimavam depois. Sussurrou desculpas para a boneca, que teria chorado uma lágrima se tivesse alguma. E picotou os cabelos dela até a raiz, onde uma linha torta desenhava uma ferida. O vermelho do sangue dela coloria as raízes coladas, deixando-as escuras. Assim, tosada, a boneca tinha uma cor que já não era nada, era alguma coisa, um quê de definição que se busca e se esbarra em si mesmo como um novelo. Sim, elas eram mais parecidas agora; feridas, emaranhadas e escuras, e acima de tudo mulheres. As bonecas são sempre mulheres. 

E a menina achou que encontrara alguma coisa nas pontas do seu próprio cabelo cortado.

Foi pegar a escova, e, assim como naquele dia, esbarrou nas cerdas e deixou-se cair. Mas, no chão, apenas a boneca quebrou. 


Maria Luiza Artese

Maria Luiza Artese nasceu em 1992 no Rio de Janeiro, mas saiu da cidade tão cedo que não ousa se chamar carioca. Viveu em Salvador antes de morar em Fortaleza, tendo o oceano como único ponto fixo. Decidiu ser escritora aos 12 anos, vencendo diversos concursos de conto e poesia na escola, e escreveu um pequeno livro de poemas épicos aos 16, mas prefere que estes permaneçam aventurando-se na gaveta. Foi colaboradora do portal Homo Literatus, publicou o romance Olhos de Oceano (2014) e participou de diversas coletâneas de contos e poesia, como O Corvo (Empíreo, 2015), Farol: Contos do Ateliê de Narrativas de Socorro Acioli (Moinhos, 2019), Um Fragmento Chamado Vida (Editora Modo, 2019) e Antologia Poética Literatura Br (2021). Colaborou para jornais e revistas literários como o RelevO e a Para Mamíferos, e aguarda até hoje pelo seu diploma honorário de graduanda em Psicologia, Moda e Letras, que cursou até concluir, finalmente, seu bacharelado em Jornalismo. É autora do romance A História Quebrada da Completude (Casa Philos, 2025) e participou da programação da Casa Philos na Flip 2023, como autora convidada na mesa A Fantástica Fábrica de Literatura.

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