Querido homem do mar,
Eu sei que você está vindo. Desde ontem, as marés têm mudado na sua direção, e as sereias estão agitadas com a sua chegada. Você não sabe quem eu sou, e nem eu sei quem você é; mas já naveguei como você, parando neste oceano secreto, e sei que não há muitos lugares para se chegar aqui. A essa altura, você já deve ter percebido que não está em qualquer lugar descrito num mapa, e a sua bússola, como a minha, deve estar apontando para todas as direções. Tome cuidado, mas não tenha muito medo. O medo chama o Kraken e você não quer olhar nos seus olhos gigantes. Jogue as pérolas dos tesouros que vem levando para que ele, as devore, e não corra o risco de sentir fome.
Se você for esperto, como, aliás, deve ser, já que chegou até tão longe, deve ter compreendido que não adianta mais tocar no leme. Deixe que o vento dirija as suas velas e sussurre os seus segredos. Todos aqueles que se lançam nas águas sabem que os ventos são mais importantes que as correntes, que o ar é o mestre da água. Tente fingir que é líquido e se deixe levar.
Quando eu ainda não havia chegado, era apenas uma menina no meio de homens carrancudos e embriagados. Achava que estavam me levando para a minha família, que por algum motivo me deixara num porto distante. Eu não compreendia como podia ser tão pequena e tão sozinha. Lembrava de ser ainda menor e estar sempre acompanhada. Talvez você ache que é história de pescador, mas eu juro que é verdade quando digo que lembrava de como era estar dentro de mamãe, respirar debaixo das águas dela, ser eu mesma um peixinho. Lembrava de saber nadar e de ter esquecido. Demorei a andar e nunca estive realmente confortável na terra. Meus pés doíam e, quando me deixaram sozinha, fiquei tão parada que só me acharam depois de um mês. Comi os frutos que caíam do pé da macieira, engolindo algumas larvas. Conversei com elas por muito tempo, mas no final todas morreram dentro de mim, começando a solidão.
Lá do fundo do convés, onde eu sentava enrolada em mim mesma, ficava me perguntando por que estar na superfície se lá debaixo parecia ter tanta coisa. Olhava pro mar com tanto afinco que acho que chamei as suas criaturas para cima. De tanto secar a água com os olhos, fiz com que ela evaporasse e formasse nuvens que desceram sobre o mastro. O céu se desfez em cima do meu navio, e as sereias vieram cantar. Levaram mais da metade dos homens, e os que sobraram capturaram uma delas. Naquele dia, caro marujo, eu entendi que, quando não estavam afogados no fundo de uma garrafa, os homens eram famintos e queriam mais.
Corri para o aquário improvisado onde haviam deixado a sereia presa, quebrando o seu tampo. Eu era muito pequena, mas consegui, e ela escapou pelo casco me sussurrando um obrigada. Porque era mulher e minúscula, eles nunca suspeitaram de mim, mas percebi que jogaram sobre mim um pouco da fome que não havia sido sanada pela sereia. Fiquei com medo e passei a rezar para as marés. Eram o deus que eu conhecia, e eram mulheres como eu. Nos próximos dias, as nuvens voltaram a chorar acima de nós. E, como eu ainda lembrava como era respirar debaixo d’água, fui a única que sobreviveu à mais nova tempestade. Quando os céus ficaram azuis de novo, eu peguei no leme e percebi que havia crescido.
Imagino que você não esteja acreditando em nada, mas que tenha continuado a ler porque, na desordem do seu trajeto, uma distração não é pouco importante. Ou talvez esteja curioso sobre mim, sobre a insolação que fritou meus miolos e os deixou assim, moles e inflamados. Vou deixar que você constate a minha sanidade quando chegar, mas por ora vou te entreter. Tenho amizade com as sereias e, se você as acha perigosas, talvez deva me temer um pouquinho por isso. Mas eu preciso que você lembre que não são as mulheres que perdem a cabeça nos mares e vão parar no fundo do oceano.
Quando já havia comido quase todo o peixe que podia pescar, percebi que meu navio estava encalhado. A bússola do capitão morto havia parado; toda hora que eu a pegava, ela apontava para um lugar diferente, mas nunca por tempo suficiente para ser confiável. Entendi que rezar para as marés não era suficiente, pois eu não havia agradecido por todas as partes envolvidas. Então comecei a clamar pelo céu e pelo sol, e acabei percebendo que o vento era a única coisa que me levaria a algum lugar. Nesse ponto eu me refugiei na cabine, encontrando os cômodos do capitão. Baús pesados de tesouros e espelhos compridos me colocaram, pela primeira vez, em contato comigo mesma. Senti um calor estranho que era minha única forma de fogo. Ansiei pela terra, compreendendo que eu só me sentiria completa quando tivesse todos os elementos ao meu alcance. Lembrei da macieira e das larvas que viviam, fantasmas, dentro de mim. Eu passei a sonhar com uma casa.
Peguei as joias do tesouro e me vesti dos veludos brocados de outros corpos. Subi de novo até a proa sob a lua mais cheia, e cantei, como lembrava, a melodia das sereias. O vento passou tímido, fazendo a ponta do meu vestido subir. Cantei mais um pouco, desafiando-o a mais. Então ele veio, atravessando-me e sussurrando, no meu ouvido, que nunca seria meu. Engoli um pedaço dele e cantei mais, para que entendesse que não era verdade. Deixei que o vestido caísse de vez, e fiz amor com o vento até que ele se tornasse um homem de cabelos de nuvem e corpo de brisa. Permiti que ele escapasse como todos os outros, carregando pedaços de mim, e porque então havia o ímpeto e a falta, as velas se esticaram e o navio se moveu à partida dele, ainda que parte do peso no ar fosse meu. Tive filhos dele nos meus sonhos, pequenas criaturas de névoa que ainda me visitam nos dias mais frios.
Depois que conheci o amor do vento, as sereias voltaram e me ensinaram a sua canção. Gratas pela libertação de anos atrás, elas prometeram guiar meu navio até aqui. E foi assim, grávida dos ares e devota das marés, que cheguei na terra em que uma fogueira queimava sem parar. É para cá que você está vindo, homem do mar, porque não há segredos que os ventos não me sussurrem. E sei que, como eu, você irá se apaixonar pela ilha farta que não fica em nenhum oceano mapeado, e onde só se pode chegar através de um pacto divino. Aqui construiremos uma casa com os destroços dos nossos navios. Talvez você já tenha sentido meu cheiro no vento, assim como eu senti o seu. E, embora eu não saiba quem você é, eu já estou dentro de você.
Antes de saltar aqui, faça a gentileza de recolher papeis e tinta, além de garrafas vazias, pois sem isso eu nunca teria conseguido te enviar esta mensagem. E, caso algum dia nos separemos, é preciso garantir que você também possa me escrever alguma coisa.
Mas, assim como eu, eu sei que você sabe que isso é impossível. Nós estamos juntos no ar, encontrando-nos agora mesmo, e é impossível desaparecer depois que você entender que acima de tudo está o vento, e ele mistura o mundo todo.
Sinceramente sua,
A mulher da terra.

Maria Luiza Artese nasceu em 1992 no Rio de Janeiro, mas saiu da cidade tão cedo que não ousa se chamar carioca. Viveu em Salvador antes de morar em Fortaleza, tendo o oceano como único ponto fixo. Decidiu ser escritora aos 12 anos, vencendo diversos concursos de conto e poesia na escola, e escreveu um pequeno livro de poemas épicos aos 16, mas prefere que estes permaneçam aventurando-se na gaveta. Foi colaboradora do portal Homo Literatus, publicou o romance Olhos de Oceano (2014) e participou de diversas coletâneas de contos e poesia, como O Corvo (Empíreo, 2015), Farol: Contos do Ateliê de Narrativas de Socorro Acioli (Moinhos, 2019), Um Fragmento Chamado Vida (Editora Modo, 2019) e Antologia Poética Literatura Br (2021). Colaborou para jornais e revistas literários como o RelevO e a Para Mamíferos, e aguarda até hoje pelo seu diploma honorário de graduanda em Psicologia, Moda e Letras, que cursou até concluir, finalmente, seu bacharelado em Jornalismo. É autora do romance A História Quebrada da Completude (Casa Philos, 2025) e participou da programação da Casa Philos na Flip 2023, como autora convidada na mesa A Fantástica Fábrica de Literatura.