Eu não quero que você me veja. Não quero que saiba do formato dos meus olhos e nem de que cor eles são. Quero que você fique na dúvida quando souber que eu estou olhando para algo. Quero que ache que eu não vejo nada. Eu não quero que você me veja. Não quero que espie através do meu cabelo, que sempre foi muito feito uma assombração asiática. Quero, aliás, que você ache isso de mim, que sou um fantasma, e desejo que você enterre os seus mortos debaixo de cimento, porque não quero subir e não quero ir pro céu, não quero descer muito mais do que já. Não quero que você me veja. Não quero que escute a minha voz e muito menos que tente adivinhar de onde foi roubado o meu sotaque. Quero que você tenha certeza de que sou translúcida e maleável, como a boa água, e não torpe e torta como a carne que forra osso.
Quero que você esqueça o meu nome quando for falar das minhas palavras, quero que elas sejam maiores do que eu jamais fui. Quero que você nunca me tenha de verdade. Quero ser areia para que você construa seus próprios edifícios, quero que meu rosto seja a sua memória mais enevoada. Quero ser névoa. Quero que você tente me costurar no vento mas não perca muito tempo com isso.
Quero o seu tempo. Ele inteiro, exclusivo e subordinado. Mas quero ele mais tarde, quando ele existir, e quero que você o invente sem pressa.
Quero que você entenda que a aniquilação é a minha maneira de pagar o preço. Pelo absurdo de um trabalho narcísico, pela cara de pau de escrever um livro. Eu não quero que você me ame. Nem sei se quero que goste de mim. Eu quero que você me leia, e ainda assim não quero que imagine, nem por um momento, que está olhando para mim de verdade. Tenho gosto pela mentira porque não sei esfregá-la nos meus olhos, trançá-la nos meus cabelos, cravá-la na minha carne. Eu trabalho de faz de conta porque vivo de uma realidade muito brutal. Não quero que você saiba que eu falo demais, choro demais, grito demais. Quero ser o busto de pedra, silente e ambíguo e provavelmente fisionomicamente errado porque é um crime atentar contra a realidade, tentar capturá-la, tirá-la da cifra.
É necessário compreender que a verdade precisa ser aniquilada.
Para que então se torne areia. É necessário compreender que é preciso montar castelos de areia por mais que a maré os derrube.
Poeira. Quero ser poeira. Para que em todos os lugares eu exista, para que eu seja a única coisa eterna e inesgotável neste planeta.
Quero que você saiba que eu não mantenho meus livros em saquinhos de plástico e nem os espano, quero que você saiba que estão todos amontoados numa estante que é o pulmão alérgico da casa. Eu quero que você saiba que a minha casa é alérgica e por isso ninguém pode entrar nela, e nem em mim. Porque eu não quero que você me veja. Não quero que você viole o mistério que faz segredo e sagrado terem só uma vogal diferente.
Eu quero que você entenda que o que eu desejo é muito pior. Quero que você entenda que eu roubei a poeira e a areia e a água e fiz da realidade a única coisa que ela pode ser: uma invenção.
Mas não quero que você pense que eu estou inventando que eu não quero nada de você além do seu tempo, que, ousadia a minha, é a coisa mais preciosa de todas. Nem nego a possibilidade de que, apesar do fato de que você nunca estará em mim, talvez eu escorregue para dentro de você e possa parecer que somos iguais.
E talvez a gente seja. Mas eu não quero que você saiba, porque eu não quero que você me olhe.
Eu só quero que você me leia.

Maria Luiza Artese nasceu em 1992 no Rio de Janeiro, mas saiu da cidade tão cedo que não ousa se chamar carioca. Viveu em Salvador antes de morar em Fortaleza, tendo o oceano como único ponto fixo. Decidiu ser escritora aos 12 anos, vencendo diversos concursos de conto e poesia na escola, e escreveu um pequeno livro de poemas épicos aos 16, mas prefere que estes permaneçam aventurando-se na gaveta. Foi colaboradora do portal Homo Literatus, publicou o romance Olhos de Oceano (2014) e participou de diversas coletâneas de contos e poesia, como O Corvo (Empíreo, 2015), Farol: Contos do Ateliê de Narrativas de Socorro Acioli (Moinhos, 2019), Um Fragmento Chamado Vida (Editora Modo, 2019) e Antologia Poética Literatura Br (2021). Colaborou para jornais e revistas literários como o RelevO e a Para Mamíferos, e aguarda até hoje pelo seu diploma honorário de graduanda em Psicologia, Moda e Letras, que cursou até concluir, finalmente, seu bacharelado em Jornalismo. É autora do romance A História Quebrada da Completude (Casa Philos, 2025) e participou da programação da Casa Philos na Flip 2023, como autora convidada na mesa A Fantástica Fábrica de Literatura.
Li, Maria Luísa Artese.
O seu apelido contém a palavra arte e , realmente, o seu texto é arte.
Uma distopia. Pela negação surge a afirmação, o desejo maior de ser lida.
Cabe ao leitor reconhcê-la ou não por entre as palavras entrelaçadas que formam o lindo texto.👏👏👏👏🌸
Gostei tanto.👏👏👏🌷