“Os bons tempos vêm e vão. E maus tempos também. Ainda assim, nós gastamos muito do nosso tempo e energia tentando trazer os bons tempos de volta. Nós falhamos em notar que os bons tempos chegam sozinhos. Do mesmo jeito, os maus tempos aparecem, mesmo que gastemos muito tempo e energia tentando mantê-los apartados.”

Esse é um trecho do livro “Budismo Claro e Simples”, de Steve Hagen, que eu gosto muito.
Li o livro e, em outro momento, ouvi um conselho da minha terapeuta que muito se assemelha: “Coisas boas acontecem o tempo todo, e coisas ruins também. E não há nada que você possa fazer para mudar isso”.
As grandes “sacadas” da citação e do conselho são a inevitabilidade da vida, a ausência de controle total sobre as coisas e, mais interessante ainda, o fato de que dá muito trabalho “segurar” as coisas boas e “afastar” as coisas ruins. (esse é um texto de muitas aspas e alguns parênteses).
Particularmente, não acredito em coincidências. É fato que a gente prolonga aquilo a que dedicamos maior atenção.
Não estou sugerindo que é uma boa ideia ausentar-se da responsabilidade dos próprios atos e abster-se das consequências. Falo em trazer para a consciência aquele enorme esforço que a gente faz para controlar o destino das coisas que não estão no nosso poder.
Nessa paranoia, quando bons momentos chegam a gente até demora para reconhecer.
Fica se “sacudindo” para evitar que algo saia do planejado. Mas sair do planejado é bom também, nossa mente é tão limitada que nunca poderia ser tão criativa e genial como a própria natureza das coisas.
Pensando nisso, lembrei-me de como eu costumava reagir às mudanças quando criança.
E veio à memória uma situação específica. Aos 10 anos, eu era uma garota de cabelos lisos, escuros e usava franja. E lembro, exatamente, o momento em que decidi abandonar a franja.
(gosto da palavra “franja”, gosto da sua estranheza)
Pensei muito, apeguei-me na versão de franja, certifiquei-me de que havia muitas fotos que pudessem me lembrar de que já fui uma menina com franja.
Insegura, pedi a opinião da minha mãe e sofri ao pensar que a versão sem franja representava um crescimento e, portanto, eu deixaria de ser criança e não teria mais o colo dos meus pais.
Depois de toda essa batalha interna, deixei a franja crescer.
Fui muito feliz com meu cabelo sem franja e nunca quis voltar para a fase que havia passado.
Penso, agora, o tanto de sofrimento que poderia ter sido evitado, quantos “fantasmas” que não faziam sentido e quantas “amarras” eu tive que soltar nesta vida para ser uma
mulher segura e livre (dos meus próprios flagelos).
Por vezes, eu me esforço para viver apenas o presente, aceitar as coisas boas, agradecer, alegrar-me, sobreviver a coisas e tempos ruins e lembrar que tudo deverá passar.
Ainda é um esforço. Mas também há tanto de “ser livre” em mim que a essência já está absolutamente transformada. Foi virando uma prática e, então, aliviando os ombros.
É no “presente” que as coisas acontecem!


MONALISA SORIO é escritora dos livros Sentimentos Etéreos e Os filhos do nosso tempo (Casa Philos, 2025). É comunicadora, artista, feminista, mãe e mulher latina.

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