I CONCURSO PETROBRAS CASABLOCO DE ARTES CARNAVALESCAS

Antes de me encontrar em definitivo com a minha história e as minhas  raízes abraçando os orixás, eu tive uma caminhada na espiritualidade das mais  diversificadas. Além das religiões afro e do espiritismo kardecista, assim como  uma parcela gigante da população brasileira, tive uma sólida formação católica,  com direito ao pacote mais comum de sacramentos. Sabe como é, o combo  básico, com batismo, primeira comunhão, crisma e matrimônio. 

Infelizmente, a minha jornada pelo catolicismo se deu durante o grande  sucesso experimentado pela Renovação Carismática ao longo dos anos 90, o  que resultou numa grande guinada conservadora da Igreja Católica. Sem citar  o desastre musical que era o medonho fenômeno dos padres cantores.  Contudo, em meio àquela onda conservadora de gosto musical discutível,  havia uma canção que, pela melodia bonita e simples e pela poesia da letra,  sobressaía daquele festival de bizarrices. Eu sempre ouvia com muito gosto a  conhecida Oração da Família, um dos maiores sucessos do Padre Zezinho. Ela  tinha um verso muito específico me tocava particularmente: “Que as crianças  aprendam no colo o sentido da vida”. 

Herdeiros que somos de culturas com forte tradição oral, nos toca,  fundo, na alma, o costume, tão sagrado quanto tradicional, da transmissão do  conhecimento sendo feita diretamente dos mais velhos aos mais novos. A  imagem de um grupo de jovens e crianças, sentados em roda em torno de um  idoso, do qual eles ouvem atentamente, à sombra de um baobá, nos toca pelo  simples fato de que ela foi, durante milênios, uma forma legítima e amplamente  disseminada de passar o conhecimento adiante. Ritos religiosos e artísticos,  técnicas de construção, caça, plantio e de produção de utensílios, tudo isso foi  aprendido e ensinado pela tradição oral por muito tempo e permitiu a  construção de civilizações das mais variadas no continente mãe. 

Entretanto, essas práticas foram deslegitimadas durante muito tempo.  Não faltou autor bastante lido e celebrado que defendesse que o continente  africano não tinha História por ter muitas culturas em que a oralidade era um  traço cultural marcante. Hegel era um dos que defendia esse argumento, de  que a ação humana de nossos ancestrais se aproximava da natureza e se  afastava da cultura. Qualquer semelhança com o discurso mais recente de que funk não é música ou de que as religiões de matriz africana são do Demônio  não é mera coincidência. A desqualificação de nossas práticas culturais sempre  foi a justificativa clássica para que nossa destruição soe palatável. 

O fato é que a nossa tradição oral é parte integrante de nossa potência.  A nossa tradição oral é um aspecto primordial da força de nossas culturas,  tanto que uma figura das mais importantes das sociedades da África Ocidental  era o Griô, guardião da tradição oral através da arte de cantar e contar  Histórias. 

Se isso for parte de nossa potência, nada mais natural que busquemos  nos reconectar com a nossa História e as nossas tradições e passá-las adiante  com a molecada preta. A escola pode e deve ajudar nesse processo (ela  inclusive está legalmente obrigada a isso), mas, em tempos de avanço do  fundamentalismo religioso, não podemos contar que a nossa história, luta, arte e nossas religiões virarão matéria escolar. Somos nós que teremos que  conduzir a criançada nesse processo a aprender no nosso colo o sentido da  vida. Levando os pretinhos nessa busca, eles não vão crescer sem referências,  entubando passivamente que algum bosta de cobra saia por aí propagando a  ideia de que o som que eles fazem e curtem não é música. Essa reconexão pode parecer algo abstrato ou distante, mas não é bem  assim. Eu, por exemplo, me reencontro com meus Griôs regularmente para  aprender com eles sobre como ganhar a vida, resistir à opressão, manter a fé e  como lidar com amores ganhos e perdidos. Tenho alguns aspectos da cultura  afro-brasileira como objeto de estudo acadêmico, fonte de lazer e  autoconhecimento. Meu Trabalho de Conclusão de Curso na faculdade e  alguns trabalhos que publiquei tinham como tema a maneira como a História do  Brasil é abordada nos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro. Além  disso, tenho experiência com Departamentos Culturais de escolas de samba.  Para mim, os griôs estão vivíssimos na figura de nossos sambistas veteranos,  em cada baiana ou em cada membro de nossas velhas guardas. As escolas de  samba, inclusive, têm um belo histórico de resistência, através de uma  capacidade ímpar de leitura da conjuntura política de seu tempo, em diferentes  momentos históricos. 

As quadras das escolas são espaços sagrados que ainda remetem às  origens das agremiações, com vínculos estreitos com as religiões de matriz  africana, abrigando com destaque assentamentos, capelas, oratórios e espaços  de devoção. E, embora essa característica já não seja mais tão facilmente  identificável, as batidas das baterias descendem diretamente dos toques  executados em honra aos orixás protetores de cada uma das agremiações. 

As escolas de samba são organismos vivos, espaços de produção  cultural e artística e epicentros da vida social de suas comunidades. A mais  perfeita tradução do aquilombamento moderno, tão decantado por intelectuais  antenados nas questões raciais. Os enredos são ricas fontes de conhecimento,  muitas vezes, abordando personagens, acontecimentos e obras de arte de  absoluta relevância às quais, em muitos casos, somos apresentados  exatamente por conta dos desfiles. Não tenho como quantificar o tanto de  temas apaixonantes que me foram apresentados pela primeira vez num desfile  de carnaval. 

Da poesia de Manoel de Barros às pinturas de Tarsila do Amaral,  da música de Villa-Lobos à saga heróica dos revoltosos Malês, da importância  histórica e geográfica do Cais do Valongo à arquitetura de Niemeyer… são  tanto os assuntos que o carnaval me ajudou a conhecer melhor que não posso  quantificar. As escolas de samba são espaços de lazer, cultura, arte,  convivência, assistência social e aprendizado. 

Um dos aspectos mais emocionantes de minha história com o samba é a  cena, tão deliciosa quanto recorrente, das crianças, geralmente, filhos e netos  de frequentadores das quadras, correndo pelas dependências da escola e se  apropriando daquele espaço. Ali elas se aquilombam, se empoderam e se  reconhecem. Não consigo pensar num lugar melhor do que aquele para que elas aprendam sobre o sentido da vida, principalmente, da vida preta.


MAURO SÉRGIO FARIAS é escritor, historiador, enredista, ex-integrante do Departamento Cultural da Lins Imperial e integrante do Departamento Cultural do GRES Portela.

A fotografia que acompanha o conto é de autoria de ANA BIA NOVAIS, artista visual e educadora popular. Natural da Zona Norte do Rio de Janeiro, utiliza como referência a trajetória de corpos e signos periféricos como ela, promovendo novos encontros e narrativas que ressignificam e deslocam a história de si mesma, das pessoas que fotografa e dos territórios que observa. Se utiliza de técnicas diversas como a fotografia, a colagem e o bordado, sobrepondo materiais e técnicas que se conectam e ocupam as ruas através do lambe lambe. Integra o Imagens do Povo, acervo de fotografia popular com sede na Maré, foi vencedora do Prêmio Inspirar 2023, é pós-graduanda em Linguagens Artísticas, Cultura e Educação (IFRJ) e idealizadora do projeto Lambe das Manas, onde promove o ensino gratuito da fotografia, a expressão através da arte urbana e a conexão de artistas dissidentes. Participou de exposições coletivas em instituições como Museu de Arte do Rio, Casa Firjan, Galpão Bela Maré, Paço Imperial e MAC Niterói.

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