Evento histórico de João Pessoa (PB) “Panapaná” chega à sua 10ª edição com a exposição coletiva “Reencantamento”. Com a curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra discute as poéticas da água e do tempo.
O Panapaná é um evento histórico de João Pessoa, na Paraíba, que chega à sua 10ª edição em 2025. Ao longo desses anos, o projeto já recebeu diversos artistas renomados, tais como José Rufino, Alice Vinagre, Adriano Machado, Guto Oca (artista participante da atual 36ª Bienal de São Pauo); além de vários curadores como Raphael Fonseca, Clarissa Diniz, Luciara Ribeiro entre outras.
Em 2025, o projeto apresenta a exposição coletiva “Reencantamento”, assinada pela curadoria de Lucas Dilacerda, e com a participação dos artistas Aídyne Martins, Felipe Tomaz de Morais, Inara Marchi, Kal Yoga e Luiza Ribeiro, para além da artista homenageada Alice Vinagre.
A mostra reúne obras instalativas que abordam as poéticas da água e do tempo. Inspirado nos pensamentos de Nego Bispo e Ailton Krenak, o conceito de reencantamento se contrapõe ao “desencantamento do mundo”, processo pelo qual a racionalidade moderna e colonial expulsou o mistério, o sagrado e a magia da experiência humana.
Nesse sentido, o reencantamento propõe uma retomada das forças mágicas que atravessam o mundo, uma reconexão com a Natureza, com a ancestralidade, o mistério e o divino. A arte, nesse contexto, opera como dispositivo de reencantamento: restabelece nossos laços com a realidade ao redor e transforma nossa maneira de ser e estar no mundo. Ao reunir razão e emoção, ciência e espiritualidade, humano e não humano, o conceito rompe com a separação cartesiana e as lógicas coloniais.
A água, em sua matéria viva e em sua simbologia profunda, aparece na exposição como força ancestral que atravessa corpos, cidades e tempos. Elemento vital, ela é também um organismo de memória, um arquivo líquido que carrega gestos, histórias e parentescos mais antigos que a própria humanidade.
A cidade é um campo de disputa permanente, atravessada por forças que moldam e rasuram o território aos interesses do capital, da especulação imobiliária e das políticas de esquecimento. Suas ruas, casas e becos carregam vestígios de mundos que insistem em permanecer, mesmo enquanto empreendimentos expulsam moradores, rompem laços comunitários e silenciam cosmologias ancestrais que sustentaram o chão por gerações. Nesse cenário, a ruína surge como matéria poética e política: fragmento que resiste ao apagamento, dobra do tempo onde passado, presente e futuro coexistem.
Diante dessas forças que atravessam o mundo (a magia da água, a matéria sensível da cidade, a persistência das ruínas e a urgência do reencantamento) a exposição afirma a arte como campo de retomada, cuidado e imaginação. Se o desencantamento moderno tentou esvaziar a Terra de sua alma, aqui reivindicamos o contrário: reconhecemos que cada gesto artístico pode reabrir fendas no real, devolvendo-nos à vibração primeira que une corpos, territórios e temporalidades.
Ao convocar a ancestralidade, a memória e o mistério como tecnologias de vida, o Panapaná propõe não apenas olhar o mundo, mas recriá-lo; não apenas lembrar, mas continuar a linha de quem veio antes; não apenas habitar a cidade, mas sonhá-la outra vez.

Lucas Dilacerda é Curador e Crítico de Arte. É sócio da AICA – International Association of Art Critics; da ABRE – Associação Brasileira de Estética; da ABCA – Associação Brasileira de Críticos de Arte; da ANPAP – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas; do Conselho Curatorial do MUTHA; e do Comitê de Indicação do Prêmio PIPA. Ganhou o prêmio ABCA pela curadoria da Bienal Internacional do Sertão. Realizou mais de 60 curadorias de exposições coletivas e individuais, 80 cursos e 250 apresentações em diversas instituições de arte no Brasil, tais como SONY-Europa; Museu de Arte Moderna da Bahia; Instituto Goethe; Museu de Arte do Espírito Santo; Parque Laje, do Rio de Janeiro; SESC, de São Paulo; entre outras instituições e galerias. Possui mais de 70 textos, críticas de arte e artigos publicados. É professor de “Estética” e “História da Arte” de Cursos Técnicos do Dragão do Mar e da Pós-Graduação em Artes Visuais, e Arteterapia e Arte-Educação da UNIFOR. Graduação, Mestrado e Doutorado em Artes. Especialização em Arte: Crítica e Curadoria; Especialização em História da Arte; MBA em Curadoria, Museologia e Gestão de Exposições; também possui Graduação (Licenciatura e Bacharelado), Especialização e Mestrado em Filosofia, com ênfase em Estética e Filosofia da Arte, com distinção Summa Cum Laude, pela UFC.
Serviço: Panapaná em cartaz até 29 de dezembro de 2025, FUNESC – Rua Abdias Gomes de Almeida, 800 – Tambauzinho, João Pessoa – PB, 58042-100. Horário de funcionamento: Terça à sábado – 6h às 22h, Domingo e feriados – 8h às 22h.
FICHA TÉCNICA Curadoria: Lucas Dilacerda. Artistas: Aídyne Martins, Felipe Tomaz de Morais, Inara Marchi, Kal Yoga, Luiza Ribeiro. Artista Homenageada: Alice Vinagre. Arte Educação: Lucas Alves e Mariana Lira. Projeto Gráfico: Luyse Costa. Coordenação: Maurise Quaresma e Cris Peres.