Charles Lessa investiga o realismo fantástico em exposição individual na Cave. Com curadoria de Lucas Dilacerda, “Paraíso relembrado” parte de memórias do Cariri nordestino para construir um universo pictórico entre o sagrado, o profano e a ficção.
A memória como matéria de invenção. É a partir desse movimento que o artista visual Charles Lessa apresenta sua nova pesquisa em “Paraíso relembrado”, exposição individual que inaugura no próximo dia 26 de setembro, na Cave. Com curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra reúne pinturas que atravessam lembranças da infância, referências religiosas e elementos da cultura popular do Cariri nordestino para construir um universo ficcional próprio, marcado pelo realismo fantástico brasileiro.
Natural do Crato, no Ceará, Charles Lessa integra uma geração de artistas que têm ampliado a presença da produção contemporânea nordestina no circuito nacional. Em sua pesquisa, a pintura funciona como espaço de encontro entre experiências pessoais, imaginários coletivos e referências que vão da cultura popular à internet, da cultura pop aos cenários futuristas. O resultado são composições nas quais anjos, cães, monstros, santos, demônios e corpos queercoexistem sem estabelecer fronteiras rígidas entre o sagrado e o profano, o belo e o estranho, o sonho e o pesadelo.

Em “Paraíso relembrado”, essa mitologia particular ganha novos contornos. Se em trabalhos anteriores a pesquisa do artista se concentrava especialmente na criação de personagens e habitantes de seu imaginário, agora casas, cidades, corredores e labirintos passam a ocupar um lugar central. A arquitetura emerge como extensão da memória e do inconsciente, ampliando o campo narrativo de suas pinturas e criando espaços para que as figuras de seu universo ficcional possam habitar.
O Cariri e o sertão permanecem como referências fundamentais, mas deixam de aparecer como paisagens a serem reproduzidas fielmente. São territórios reelaborados pela experiência subjetiva do artista, transformados em geografias imaginárias nas quais uma casa, uma chapada ou mesmo um vulcão podem assumir sentidos que ultrapassam sua materialidade. A paisagem, nesse contexto, não é apenas cenário: torna-se parte ativa da construção de uma realidade paralela.

Para o curador Lucas Dilacerda, esse processo envolve uma operação de desfamiliarização, pela qual o artista toma distância de elementos conhecidos para reconstruí-los por meio da ficção. O cotidiano é absorvido e devolvido sob novas formas, em uma dinâmica que se aproxima do funcionamento dos sonhos.
“Desfamiliar o mundo conhecido torna-se uma maneira de construir um universo familiar por outros meios.” —Lucas Dilacerda, membro da AICA – International Association of Art Critics.
A dimensão narrativa da pintura também ganha força na exposição. As imagens de Charles Lessa funcionam como pequenos dramas visuais, nos quais diferentes acontecimentos podem coexistir em um mesmo plano. Memória e ficção se entrelaçam, o tempo perde sua linearidade e os espaços arquitetônicos passam a operar tanto como lugares físicos quanto como representações de estados internos.

Ao transformar lembranças em ficção, Charles não busca reconstruir um passado estável, mas investigar como as experiências vividas continuam a produzir imagens, afetos e narrativas. O paraíso anunciado no título da mostra parece, assim, menos um lugar a ser recuperado do que uma realidade reinventada continuamente pela imaginação.
Com “Paraíso relembrado”, a Cave dá continuidade ao acompanhamento da pesquisa de Charles Lessa e ao trabalho de circulação de artistas e produções desenvolvidas a partir de diferentes territórios brasileiros, com atenção especial ao Nordeste. Dirigida por Pedro Diógenes, a plataforma vem ampliando sua atuação em exposições, instituições e feiras de arte no Brasil.

Charles Lessa (Crato, CE, 1993) é artista visual formado em Artes Visuais pela Universidade Regional do Cariri (URCA), onde também estabeleceu as bases de uma pesquisa profundamente vinculada ao território em que vive e trabalha. Sua produção tem a pintura como linguagem central, com desdobramentos em muralismo e escultura, articulando memória, cultura popular, imaginários nordestinos e ficção.
Indicado ao Prêmio PIPA em 2022 e 2026, participou de quatro edições consecutivas do Salão de Abril e integrou exposições em instituições como a Pinacoteca do Ceará, o Museu de Arte do Rio (MAR) e o Museu de Arte Contemporânea do Ceará. Sua trajetória inclui residências artísticas no Pivô, em Salvador, na Ilha do Ferro, em Alagoas, e na CasaAtelier, em Miami, em 2025. Entre suas exposições estão “Que na próxima existência se houver eu nasça girafa”, no CCBNB; “Uma dose de alegria pura e legítima”, em São Paulo; e “Até aqui o desenho me ajudou”, no Cariri.
Fundada em 2020 e dirigida por Pedro Diógenes, a Cave é uma plataforma de arte brasileira dedicada às poéticas contemporâneas, às experimentações de linguagem e à radicalização das visualidades. Seu casting reúne artistas de diferentes territórios, gerações e cosmovisões, cujas pesquisas propõem formas críticas de pensar o presente. Nos últimos anos, a plataforma vem desenvolvendo ações em contextos locais, nacionais e internacionais.
Serviço: Charles Lessa — Paraíso relembrado, com curadoria de Lucas Dilacerda, abertura dia 26 de setembro, das 16h às 21h na Cave, Rua Pereira Valente, 757.