“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”
João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

Natural de João Pessoa, o artista Pedro Delgado tem desenvolvido uma produção que revisita criticamente as imagens historicamente associadas ao Nordeste brasileiro, propondo narrativas que escapam dos clichês e das representações estereotipadas da região. Em suas telas, paisagens afetivas, personagens e atmosferas oníricas se articulam para construir um imaginário que parte da experiência pessoal, mas alcança questões coletivas e culturais mais amplas.

Um momento de mudança em sua trajetória aconteceu durante o período em que viveu no Rio de Janeiro. Atravessando paisagens simbólicas que alterariam profundamente sua forma de ver e produzir imagens. Mais do que uma mudança geográfica, a experiência representou uma transformação de perspectiva, permitindo que o artista observasse sua própria origem a partir de uma nova distância crítica. Entre museus, galerias, ateliês e encontros com artistas de diferentes gerações, abriu-se diante dele um horizonte de possibilidades que expandiu seu repertório e reposicionou sua compreensão sobre a arte contemporânea.

Pedro, sua trajetória passa por diferentes territórios e contextos culturais. De que maneira o deslocamento geográfico, simbólico ou afetivo, atravessa e transforma o seu processo artístico?

No ano de 2020 me mudei para o Rio de Janeiro e residi na cidade por cerca de um ano, acredito que essa mudança geográfica foi um ponto crucial de virada na minha carreira artística. Na época eu ainda trabalhava com atuação, tentava fazer as duas coisas simultaneamente, no dia-a-dia corria atrás de oportunidades como ator e quando em casa mantinha um ritmo de produção com pintura. Mas acredito que a grande questão do Rio em minha vida, foi ter acesso as instituições de nível nacional e o contato direto com trabalhos de artistas emergentes e consagrados no mundo inteiro. Era coisa do tipo, sair de manhã pra uma exposição no MAM, ali na Glória e dar de cara com obras da Varejão, Tarsila, Zerbini, e outros grandes artistas pendurados na parede da instituição e a noite ir para uma vernissage de artistas emergentes como o Miguel Afa, Pedro Neves, Maxwell Alexandre… Essa experiência de pode ver o que estava sendo produzido naquele momento e me colocar de frente para essas produções foi uma grande abertura de caminhos para minha cabeça. Gosto de dizer que foi uma experiencia de residência artística e vida para mim.

Entre as referências que atravessam sua formação, o teatro ocupa um lugar central. Antes de se dedicar integralmente às artes visuais, Pedro encontrou nas artes cênicas uma compreensão expandida da narrativa, da presença e da construção de personagens. Essa herança permanece visível em sua produção pictórica, marcada por forte gestualidade e por composições que frequentemente evocam a dramaturgia e a encenação como elementos estruturantes da imagem.

Obra de Pedro Delgado.

Como a experiência de viver e produzir em cidades distintas impacta sua relação com o tempo, o espaço e os materiais que você utiliza no trabalho?

Bom, como havia dito, o Rio foi uma experiência de contato direta com a produção de grandes artistas e acredito que a maior referência que eu tirei de lá, não veio das artes visuais e sim do teatro. Na época eu conheci e pude ter acesso a um grupo do Rio Grande do Norte que estava em apresentação na cidade, o Grupo Carmim de Teatro. O grupo estava apresentando dois espetáculos e um deles mudou totalmente a minha cabeça, o meu jeito de olhar e pensar o nordeste, que era o espetáculo “A Invenção do Nordeste”, baseado no livro do historiador Durval Muniz. A visão de nordeste apresentada e dialogada no espetáculo fizeram minha cabeça virar pelo avesso, então quando eu voltei pra João Pessoa a única coisa que eu pensava e queria era transformar toda aquela narrativa em pintura e foi a partir daí que tudo mudou no meu trabalho. Muita coisa do que tensiono hoje na minha narrativa vem dessa referência da Invenção do Nordeste. Acho que em resumo, foi aquela coisa, precisar sair da ilha para olhar a ilha.

Obra de Pedro Delgado.

Ao longo da sua carreira, você tem expandido sua produção para além da pintura. Quais experimentações e linguagens mais tensionaram seus próprios limites como artista?

Meu primeiro contato com a arte foi através do teatro, em um curso que fiz aqui em João Pessoa e foi a partir daí que eu percebi que poderia trabalhar como artista pelo resto da minha vida. O teatro é uma referência muito grande pra mim, por que foi a partir dessa linguagem que eu comecei a entender o que era ser um artista, aprender e conhecer um corpo que existe para além da forma civil, um órgão completo e que fala com uma verdade imensa nas entrelinhas da vida. Hoje nessas infinitas possibilidades de ser artista eu me reconheço e me considero um pintor, mas é impossível não atrelar tudo que aprendi e consumi no teatro ao meu corpo de produção, se você parar pra olhar, minha pintura é muito gestual, há um corpo presente o tempo inteiro na maneira prática de pintar, é como se eu estivesse atuando sobre a pintura. Eu também trago das artes cénicas a forma de pensar as cenas, introduzir personagens na composição da tela, é tudo muito teatral em todas as partes da produção.

A obra de Pedro Delgado nos diz sobre os deslocamentos que moldaram sua trajetória e a influência de obras fundamentais em sua pesquisa. Assim como a circulação internacional de seu trabalho e o papel da pintura na construção de outras leituras sobre o Nordeste contemporâneo. Ao abordar temas como identidade, pertencimento e representação cultural, o artista nos revela uma produção comprometida com a ampliação das narrativas sobre a arte brasileira dentro e fora do país.

Obra de Pedro Delgado.

Em um cenário em que a arte contemporânea dialoga cada vez mais com múltiplos meios, o que motiva suas escolhas quando decide abandonar ou reinventar a tela como suporte?

Acredito que a arte contemporânea é de uma imensa pluralidade, da pra se fazer arte com tudo hoje em dia, a gente não tem mais aquela doutrina que tínhamos a alguns anos atrás e gosto muito disso. Já tem um tempo que olho pra pintura e me aprofundo nesse meio, a cabeça também não para de pensar em como expandir esse formato e tentar fazer pintura por outros suportes, como por exemplo vídeos e instalações, mas isso são cenas dos próximos capítulos.

Seu trabalho tem alcançado novos circuitos e públicos fora do Brasil. Que leituras ou deslocamentos de sentido você percebe quando sua obra circula em outros contextos culturais?

Primeiramente, pra mim é uma grande realização poder ver meu trabalho ganhando asas e decolando para outros estados e países. Receber o convite para participar de exposições coletivas no circuito internacional de arte, acredito que pra todo artista que trabalha muito tempo na solidão do seu ateliê, além de ser uma visibilidade muito grande, não só em sentido de carreira, esses olhos também fazem com que a gente se sinta visto na prática e com isso vem uma sensação de acerto, que o que estamos fazendo tem algum tipo sentindo, como se estivéssemos caminhando na direção certa de algum caminho escuro e misterioso. Outro ponto curioso que também percebo é a aceitação do meu trabalho fora do circuito de João Pessoa, onde eu nunca fui convidado para participar de nenhuma coletiva e ao mesmo tempo eu vejo meu trabalho exposto em Miami, ao lado de artistas como Maria Lira Marques.

Obra de Pedro Delgado.

As lembranças da infância no litoral paraibano também são referências para a obra de Pedro, que transforma experiência vivida em linguagem visual. Mais do que retratar um território a partir de suas pinceladas diligentes, o artista busca reimaginá-lo, apresentando ao público múltiplas possibilidades de olhar para uma região cuja diversidade continua a desafiar estereótipos e simplificações.

Há, na sua produção, uma investigação que parece transitar entre o íntimo e o coletivo. Como você articula essas dimensões dentro do seu processo criativo?

No meu processo de criação existe muita referência da minha memória afetiva de infância, eu nasci e me criei em João Pessoa, capital da Paraíba e apesar de ser nordestino, diferente do que o preconceito pensa, eu não tive uma criação interiorana de ir para o sertão ou alguma região rural com certa frequência, muito pelo contrário, eu fui criado na praia, viajava quase todo fim de semana com minha família para alguma praia do litoral paraibano e esse cenário com uma geografia de falésias belíssimas foi o que me formou enquanto criança. Trazer esse ambiente de uma maneira onírica através da minha pintura hoje, pra mim é reescrever na história uma visão de nordeste que também existe e que por forma de preconceito só é consumida de uma maneira exótica pelo resto do país. Minha região marca o que fui e o que sou, então eu entendo que registrando o meu intimo através da pintura, a arte logo em seguida faz o papel de expandir isso para o coletivo.

Obra de Pedro Delgado.

Ao pensar na arte brasileira hoje, marcada por diversidade e tensões, de que forma seu trabalho contribui para revelar outras narrativas e múltiplas faces dessa produção no cenário internacional?

Eu acredito que contribuo de uma forma muito territorial, ajudando a reescrever sobre uma região, por que quando confabulo através da pintura outras formas de falar e consumir o Nordeste brasileiro, sem ser pelo olhar já preconceitualizado do que se espera da gente, eu meio que digo: “olha, também vivemos, existimos, consumimos e produzimos outras coisas, aqui não só tem seca, cangaço e miséria.” Então, mostrar outra das inúmeras faces que o nordeste carrega é um posicionamento cultural e político que trago no meu trabalho. A aceitação internacional dessa narrativa e dessa construção pictórica tem sido muito bem recebida pelas instituições de fora e isso me deixa muito feliz.

Obra de Pedro Delgado.

Como não poderia deixar de ser, somos uma revista de arte e literatura e gostaríamos de saber: Para você, quais os livros que não devemos deixar de ler?

Ultimamente tenho lido Rosa Montero e indico a todo mundo. Quando leio os livros dela, tenho a sensação de não ser tão estranho assim ou me ajuda aceitar melhor a minha loucura. É bom encontrar seus pares e ainda em literaturas maravilhosas como a dela. Gosto muito também da Clarisse Lispector, do Grande Sertões de Guimarães, da Bahia maravilhosa que Jorge Amado cria nos seus livros. Acho que ler deve ser a musculação do cérebro, não dá pra ficar sem.

Por fim, o que sua arte tem feito por você e pelo outro, Pedro?

Pra mim, minha arte é tudo que sou, minha vida. Não sei fazer e nem quero fazer outra coisa, é como artista que me sinto participativo da vida, é nessa profissão que consigo elaborar meus sentimentos, afetos, ideias e isso tudo faz com que eu me sinta vivo. Gosto de dizer que a arte me salva todos os dias e espero através dessa verdade alcançar o coração de um bocado de gente.

O artista Pedro Delgado.
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Publicado por:Philos

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