Elogiada por Isabel Teixeira, atriz e dramaturga, e por João Paulo Cuenca, escritor e cineasta, Flávia Braz responde às quatro perguntas do QuatroTantos desta semana. Ela é autora do romance O que resta a partir daqui, lançado pela editora Aboio e que foi considerado como um dos melhores livros de 2024 pela revista Quatro cinco um na categoria literatura brasileira. Os fios narrativos do seu livro não são convencionais. Intencionalmente, a protagonista não tem nome e os pontos finais são quase inexistentes, diferente dos fluxos de consciência, que são ferozes, não-lineares, constantes, irônicos e repletos de substantivos sonoros, como “mijo tijolo” e “serendipidade”. Flávia ainda é autora de Quem foi você na fila da quarentena?, sua obra de estreia, com comentários de orelha e de quarta capa pelas escritoras Silvana Tavano e Ivana Arruda Leite.
Idealizado por Alessandro Araujo, QuatroTantos é um espaço para alastrar e descentralizar a literatura contemporânea, buscando disseminar novas oralidades, linguagens e estéticas.
Flávia, a narradora da sua última obra, O que resta a partir daqui, não tem nome. Como foi esse processo de escolha?
Não sei se essa história poderia ser contada de outra forma e isso inclui o fato de a protagonista não revelar seu nome. Acho que se trata mais de uma incapacidade dela de nomear muitas coisas, inclusive a si mesma, do que propriamente de uma escolha narrativa. Um reflexo direto da falta. Uma ausência absoluta de pertencimento. A Rosa Montero diz que a verdadeira dor é indizível e que a primeira coisa que a angústia profunda tira da gente é a palavra. Acho que mesmo sem se nomear e atravessada por um sofrimento profundo, sobram palavras para essa personagem que ainda consegue falar da própria história, numa verborragia desenfreada.
“Acho que mesmo sem se nomear e atravessada por um sofrimento profundo, sobram palavras para essa personagem que ainda consegue falar da própria história, numa verborragia desenfreada.” —FLÁVIA BRAZ
Parágrafos extensos, poucos pontos finais, fluxo de consciência constante e camadas de sarcasmo. A ironia e esse formato de escrita são também personagens do seu livro?
“Mas talvez a linguagem atue mais como um dispositivo, uma ferramenta que permite que os leitores se aproximem, experimentem um pouco do que passa dentro da sua cabeça, respirando no mesmo compasso, partilhando da sua desordem e do seu processo de elaboração.” —FLÁVIA BRAZ
Acho que tudo ali está a serviço de alguma coisa que essa protagonista quer dizer e, a depender da chave de leitura, por que não como personagens? Mas talvez a linguagem atue mais como um dispositivo, uma ferramenta que permite que os leitores se aproximem, experimentem um pouco do que passa dentro da sua cabeça, respirando no mesmo compasso, partilhando da sua desordem e do seu processo de elaboração. Também vejo o sarcasmo e a ironia como componentes da sua fabulação e gosto de pensar que, mesmo não intencionalmente, atuando como instrumentos para escamotear algumas das suas fragilidades, acessando seus recônditos mais íntimos e doloridos. Me parece uma forma bonita de ela lidar, ainda que aos tropeços – quando não é assim, afinal? -, com sua subjetividade. Eu gosto da coragem dela.
“A verdade tem uma estrutura, se podemos dizer, de ficção.” Pela perspectiva da epígrafe de seu livro, excerto do psicanalista francês Jacques Lacan, a literatura pode revelar realidades?
“O real é um escape, um transbordamento e acho que O que resta a partir daqui fala exatamente sobre isso: das faltas, dos restos de que tanto somos constituídos.” —FLÁVIA BRAZ
Tenho um respeito profundo pela ficção e, por isso, não sei se consigo reduzir seu papel a uma perspectiva de se prestar à realidade, sabe? Para a psicanálise, a realidade é uma construção simbólica, que se dá por meio da linguagem. Pensando nisso, podemos dizer que é tudo real, verdadeiro e intrinsecamente ficcional. O real é um escape, um transbordamento e acho que O que resta a partir daqui fala exatamente sobre isso: das faltas, dos restos de que tanto somos constituídos. Do que sobra depois das perdas, das dores, dos traumas e de como essa protagonista dá conta de reunir tudo isso para continuar depois de toda quebradeira. No final, acho que é um pouco assim que acontece com as pessoas, pelo menos com as que me parecem mais interessantes.
Na sua lista, quais são as vozes mais promissoras da literatura contemporânea?
Tem muita gente boa produzindo literatura de alta qualidade. Alguns nomes mais do que consagrados. Costumo dizer que alguns autores me autorizaram a achar essa voz narrativa. Para falar das contemporâneas: a Andréa del Fuego, a Mariana Salomão Carrara, a Fernanda Melchor, a Silvana Tavano. E tem uma galera excelente que está chegando também: a Bruna Waitman, que acabou de publicar Malca, a Julia Santalucia, com seu Coreto de Histórias, a Isabela Moreira, autora de um infanto juvenil lindo que saiu em dezembro, o Gabriel Cruz Lima, que lançou um livraço de contos, a Branca Lescher, com o recém-publicado Notas de Anita, e por aí vai.
Flávia Braz nasceu em São Paulo, em 1984. É escritora e jornalista, com MBA em Marketing Digital pela ESPM e pós-graduada em Escrita de Ficção pelo Instituto Vera Cruz. É autora do livro de crônicas Quem foi você na fila da quarentena? (Reformatório, 2022) e da Newsletter Apagar Para Todos. Seu primeiro romance, O que resta a partir daqui, foi contemplado pelo Proac em 2023 e lançado em novembro do ano passado pela editora Aboio, figurando entre os melhores livros de 2024 pela revista Quatro cinco um.
Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024) e Longe de todas aquelas nuvens (2020). É colaborador dos jornais Rascunho e Le Monde Diplomatique Brasil, da revista Philos e da editora Selvageria. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.