A escritora baiana Luciany Aparecida, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura 2024 com o romance Mata Doce, construiu sua trajetória explorando diferentes assinaturas literárias e questionando os limites da autoria. “Aprendemos a ser-pessoa, em luta, contra um mundo moldado para o homem”, afirma a autora, que também publicou sob os nomes Ruth Ducaso, Margô Paraíso e Antônio Peixôtro.
Em Mata Doce, romance também finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Oceanos, Luciany propõe um cosmo afro-latino-americano, no qual personagens negras, lésbicas, trans e rurais rompem com estereótipos ainda comuns na representação literária. Suas histórias nascem do cruzamento entre memória pessoal, pesquisa histórica e experiências coletadas no Vale do Rio Jiquiriçá, região onde nasceu em 1982. “Eu sou toda a literatura que já li e, consequentemente, também não deixo de ser a que escrevo”, resume.
Com uma obra que une crítica social, experimentação estética e vozes diversas do Nordeste, Luciany consolida-se como uma das autoras mais relevantes da cena contemporânea.
Ruth Ducaso, Margô Paraíso e Antônio Peixôtro, qual a importância de cada assinatura em sua trajetória literária?
Essas assinaturas estéticas são imprescindíveis para o meu caminhar com esse trabalho tão exaustivo, que é esse remoer linguagens. Com cada uma dessas eu publiquei em um gênero literário diferente e tinha como objetivo discutir e ou questionar autoria (o conceito de autoria). Sabe, eu amo escrever, mas no começo censurava muito minha escrita. Penso que toda mulher talvez passe por isso. Aprendemos a ser-pessoa, em luta, contra um mundo, que de modo geral é integralmente moldado para o homem. É para ele as demarcações mais amplas sobre o que é ser alguém, pessoa, escritora. Ser em estado de liberdade. Bem, a partir dessas ideias e em diálogo com trabalho de autoras como bell hooks eu fui criando cada assinatura dessas. Elas têm diferentes significados. Com brevidade, o que posso dizer é que elas são caminhos que tenho elaborado nesse trabalhar a linguagem literária.
“Sabe, eu amo escrever, mas no começo censurava muito minha escrita. Penso que toda mulher talvez passe por isso. Aprendemos a ser-pessoa, em luta, contra um mundo, que de modo geral é integralmente moldado para o homem.” —LUCIANY APARECIDA

Mata doce é também um cosmo representativo latino-americano?
Mata Doce é um cosmo latino-americano e afro-latino-americano. Eu escrevo imaginando mundos de liberdade para pessoas que dentro da historiografia do continente americano estiveram representadas em modelos fixos e reduzidos. Por exemplo, em Mata Doce, propositalmente construí personagens que se movem por espaços que escapam a modelos clichês racistas e machistas de como se espera ver representada na literatura uma mulher negra, lésbica, trans e rural. Outro ponto do que podemos nomear como um cosmo representativo afro-latino-americano é a conexão de pontos da narrativa com a fé, o popular, o mistério, o fantástico.
“Em Mata Doce, propositalmente construí personagens que se movem por espaços que escapam a modelos clichês racistas e machistas de como se espera ver representada na literatura uma mulher negra, lésbica, trans e rural.” —LUCIANY APARECIDA
Em Mata Doce, o que tem de você e das mulheres com as quais você se depara em suas pesquisas retratadas em Filinha, Mariinha, Tuninha e outras personagens que compõem esse romance?
Um dia, eu conheci, no Vale do Rio Jiquiriçá, na cidade de Brejões, uma senhora de 85 anos, que havia sido matadora de bois em sua juventude. Por andanças pelo Vale, também conheci uma senhora de 92 anos, que cultivava rosas brancas no alto de um monte. Minha avó materna, Maria Ruth Vieira, é uma mulher viva de 100 anos, que foi professora alfabetizadora em nossa comunidade. Somado a isso faço muita pesquisa em arquivos históricos da Bahia. Assim, Mata Doce têm muito da Bahia, do Brasil e de mim, visto que, eu sou toda a literatura que já li e consequentemente, também não deixo de ser a que escrevo.
“Um dia, eu conheci, no Vale do Rio Jiquiriçá, na cidade de Brejões, uma senhora de 85 anos, que havia sido matadora de bois em sua juventude. Por andanças pelo Vale, também conheci uma senhora de 92 anos, que cultivava rosas brancas no alto de um monte.” —LUCIANY APARECIDA
Quais vozes literárias nordestinas, ainda não descobertas pelo grande público, você considera promissoras?
Falar do nordeste é imenso, são tantos estados com diferentes produções e com muitas pessoas incríveis publicando e pesquisando literatura em diversas categorias. Mas, se destaco a Bahia como referência, na poesia cito: Nega Fyah (Fyah: do ódio ao amor), Louise Queiroz (Girassol estendido na chuva) e Meg Heloise (Na Beira); na prosa Amanda Julieta (No rastro de Estela) e Aidil Araújo Lima (Mulheres sagradas) – esta última tem uma carreira estabelecida na Bahia, mas penso que ela poderia ser lida de modo mais amplo no Brasil.
“Mas, se destaco a Bahia como referência, na poesia cito: Nega Fyah (Fyah: do ódio ao amor), Louise Queiroz (Girassol estendido na chuva) e Meg Heloise (Na Beira); na prosa Amanda Julieta (No rastro de Estela) e Aidil Araújo Lima (Mulheres sagradas).” —LUCIANY APARECIDA

Luciany Aparecida nasceu na Bahia, no Vale do Rio Jiquiriçá, em 1982. É autora de Mata Doce, romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2024, finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Prêmio Oceanos 2024. Escreveu ainda, Macala, poema escrito a partir de uma fotografia do século XIX. Joanna Mina (dramaturgia que resultou do edital Dramaturgias em Processos, do Teatro da USP). Com a assinatura Ruth Ducaso publicou: Contos ordinários de melancolia e Florim, ambos pelo selo editorial paralelo13S. É professora do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP.
Alessandro Araujo colabora para os jornais Rascunho, Le Monde Diplomatique Brasil e para a revista Philos. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
favor retirar meu nome dessa lista.