A primeira vez que eu comi rã eu tinha seis anos de idade e a Natinha, minha irmã, tinha quatro. Morávamos no Eldorado, que de Eldorado não tinha quase nada a não ser a vista da rua de casa que dava para um pequeno vale.
Do vale sobrará apenas o coaxar dos sapos na subida do escadão, desova de corpo morto em 88 na cidade com o maior índice de homicídios do Brasil: Diadema.
Outro dia eu entendi que aquilo preto no chão, no caminho da escola, era gente morta coberta com plástico preto do IML.
Morávamos eu, a natinha, a dona Wal (minha mãe) e o urso, nosso cachorro. Tínhamos muitos vizinhos, inclusive minha tia Lucia e seus 4 filhos: o Luciano, o Otávio, a Erica e a Natalia. Todos primos. O Luciano, aos 17 anos, foi assassinado na rua de casa e desovado no mesmo escadão dos sapos.

Nessa época eu amava dormir com o barulho da chuva, eu achava que os bandidos não vinham, afinal ninguém gosta de se molhar.
Outro vizinho presente era o Neném Preto. Um preto casado com a Margareth e pai de dois filhos. Ele era muito amigo da minha mãe, acho que ele era apaixonado por ela.
Ele passava algumas tardes no quintal de casa fumando um cigarro com um cheiro bem forte e uma fumaça bem branca. O cheiro do cigarro dele era bem diferente do cheiro do cigarro que minha mãe fumava. Era legal ver um homem tão preto fumar um cigarro com uma fumaça tão branca e ir ficando engraçado e doce.
Depois eu descobri que o Neném Preto tinha um mercadinho que vendia muita farinha no bairro.
A comida lá em casa era sempre a mesma nos dias normais: arroz, feijão e mistura. Que podia ser salsicha com molho, pele de frango frita ou músculo com batata. O que fosse mais barato.
Tudo feito na hora entre uma tragada de LM algum Tim Maia que tocava na vitrola e o choro seco e baixo da minha mãe recém-separada e morta de saudades do meu pai, a única pessoa que podia mudar o menu.
Toda vez que ele prometia voltar pra casa ela cozinhava sua comida preferida: frango com quiabo.
O que não mudava mesmo era a Natinha, minha irmã, parada no muro, olhando lá fora e esperando o pai voltar pra casa.
Às vezes, depois de um conhaque com limão, ele voltava carregando seus pertences em três ou quatro sacolinhas de plástico. Era tudo o que ele tinha. Eu lembro pouco dele, de sua fisionomia e não esqueço as sacolinhas. Ele comia a comida, comia minha mãe e nossa paz porque dali três ou quatro dias ele voltava pra casa da Rosa. Sempre achei difícil detestar uma mulher que se chama Rosa. Estão juntos há trinta anos.
Até que um dia, dia não, noite. Alguém chamou lá fora. Minha mãe saiu perguntou quem era. Era o Neném Preto mais preto do que nunca. Ele pediu pra entrar, estava nervoso, nem aquele cigarro forte dele acalmaram as coisas.
Ele falava rápido e gesticulava muito. Ela fumou vários cigarros, fumou até aquele forte dele. Depois de muita conversa que mais parecia briga o maior caminhão que eu já vi na vida parou com tudo em frente de casa.

Aquela piscina de plástico que a gente tinha ganhado da patroa da minha mãe e que nunca tinha sido usada porque a água era cara e rara finalmente teve serventia.
O Neném Preto e seus funcionários do mercadinho encheram a piscina inteira com alguma coisa que minha mãe não deixou a gente ver. Na manhã seguinte ela inventou alguma greve da creche pra mesma patroa da piscina. A gente não podia sair de dentro de casa.
Minha mãe chamou minha tia que chamou outras vizinhas. As mulheres do bairro vinham aos montes com baldes, sacolas e bacias, saiam carregadas de casa com uma cara de não saberem o que fazer com aquilo que tinham acabado de ganhar.
Perguntei o que tinha na piscina. Ela levantou um plástico preto que cobria tudo e tirou de lá uma coisa branca e fria, era uma rã morta.
—Olha filha, que linda! parece o corpo de uma mulher.
Ela me deu aquele bicho gelado pra segurar e entrou. Eu levantei o plástico preto e vi a piscina ainda cheia. Parecia a desova de corpos do escadão só que mais bonito.
Todo mundo comeu e dançou com as rãs no ar por vários dias.


ANA FLAVIA CAVALCANTI é uma multi artista que transita entre atuação, direção e performance. Formada em Artes Cênicas pelo INDAC e pelo CPT, estagiou no Théâtre du Soleil e na École Lecoq. Dentre diversos trabalhos como atriz, fez parte do elenco do espetáculo “Corpo Elétrico”, das séries “Sob Pressão” (4ª temporada) e “O Santo”, para além de protagonizar o longa inédito “Fim de Semana no Paraíso Selvagem”. Como diretora, estreou seu primeiro curta-metragem “Rã” na 70ª Berlinale e recentemente estreou “Bocaina”, primeiro longa em co-direção, no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo.

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