Eleita pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como a Melhor Retrospectiva de 2022, a mostra “Rubem Valentim (1922-1991) – Sagrada Geometria” está sendo apresentada na Pinakotheke Cultural, em Botafogo, no Rio de Janeiro, com entrada gratuita.

Rubem Valentim é considerado um dos mais importantes artistas do século 20, e além de seus trabalhos em pinturas e desenhos –e seus “objetos”, com pintura sobre madeira– a exposição terá um ensaio fotográfico de Christian Cravo, dedicado à celebrada obra “Templo de Oxalá”, conjunto com 20 esculturas e 10 relevos feitos em 1974 por Rubem, pertencente ao Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador, e que ocupa lugar de destaque na 35ª Bienal de São Paulo. A exposição é acompanhada do livro “Rubem Valentim (1922-1991) – Sagrada Geometria”, de Bené Fonteles, amigo próximo do artista. Com sua primeira edição esgotada, o livro foi reimpresso para a exposição no Rio.
A curadoria é de Max Perlingeiro, e consultoria de Bené Fonteles, artista plástico, poeta e amigo mais próximo de Rubem Valentim, e que o acompanhou por duas décadas, até sua morte. A exposição celebra este extraordinário artista, nascido em Salvador, em 9 de novembro de 1922, e falecido em São Paulo, em 30 de janeiro de 1991,que fez do sagrado sua vida e obra, “representante genuíno da arte afro-descendente no país, e dono de um dom único em mesclar arte, religião e todo o sincretismo que vive a nossa cultura”, afirma Max Perlingeiro.
“É necessário compreender a obra de Rubem Valentim por sua seminal importância na história da arte no país, e para aprendermos com um artista extraordinário que decodificou, durante cinco décadas, a herança mestiça na busca obsessiva de um fazer sempre leal a sua riscadura e sentir brasileiros, atravessado por propósitos de uma rigorosa e radical artesania”, afirma Bené Fonteles, que a pedido do artista tornou-se o ogã do terreiro de Valentim, que passou a cuidar também de sua obra. E continua:
“Rubem Valentim desenvolvia seu projeto inspirado por sua vocação construtiva vindada tradição milenar de nossa arte ameríndia, assim como dos povos que atravessaram o Atlântico em meio a toda dor, e a redimiram num raro projeto cultural e espiritual sem paralelo no mundo. Valentim é produto vital desse ser mestiço que nos tornamos, e, talvez, seja o artista que fez melhor e mais intensamente a síntese sincrética em todas as Américas afetadas por uma colonização brutal, que ainda atormenta a consciência no século XXI.”
Acompanha a exposição o livro “Rubem Valentim (1922-1991) – Sagrada Geometria”, com patrocínio do Itaú Cultural, a partir da Lei de Incentivo (Secretaria de Cultura/Ministério do Turismo) e organização de Bené Fonteles, com textos críticos sobre o artista escritos por personalidades da arte como Ferreira Gullar, Giulio Carlo Argan, TheonSpanudis, Roberto Pontual, Clarival do Prado Valladares e Emanoel Araújo. A apresentação é de Max Perlingeiro.
PERCURSO DA EXPOSIÇÃO

A primeira sala da exposição apresenta as obras produzidas por Rubem Valentim dos anos 1950 até sua chamada “fase de Roma”, nos anos 1960, considerada muito importante em sua produção. “Nos anos 1950, Rubem Valentim começa a esboçar sua semiótica do sagrado– partindo das ferramentas dos orixás do culto afro-brasileiro – que inaugurava uma nova estética na arte no país dentro do que ele chamou de uma ‘riscadura brasileira’ e universal, defendida no ‘Manifesto Ainda que Tardio’, de 1976”, escreve Bené Fonteles no texto que está na parede desta sala. Sobre a “fase de Roma”, assinala Cristiane Araújo Vieira, historiadora e pesquisadora da obra de Valentim:
“Esses trabalhos podem ser entendidos como um verdadeiro ato descolonizador, por exaltar no conteúdo e na forma da obra a memória de um povo negro sustentado por sua realeza, pela imponência de seus deuses, pelo sentido mitológico originário da grandeza de uma civilização oprimida historicamente pelo processo da escravidão”.

A segunda sala percorre a produção de Rubem Valentim dos anos 1960 aos 1980. Em uma parede, ganha destaque um painel formado por 16 de seus “emblemas”, os “logotipos poéticos”, em acrílica sobre tela, com tamanhos variados, criados pelo artista nos anos 1970 e 1980. “Nos anos 1970 ele já havia definido claramente os quinze signos-símbolos, chamados Logotipos poéticos da cultura afro-brasileira, com os quais compôs o Alfabeto Kitônico (energia do centro da Terra)”, escreve Bené Fonteles. “Estes ‘signos-símbolos’ sempre estiveram presentes nas pinturas, desenhos, relevos, painéis, esculturas e serigrafias que o fizeram um dos mais importantes e seminais artistas contemporâneos”. E observa:
“São estas transcriações da simbologia afro-brasileira que vão povoar suas obras e torná-las ainda mais abstratas, no sentido de buscar a essência e o essencial. Tudo isso sem perder a magia que lhe era desejosa pela atração religiosa, já que sua pesquisa de síntese não era somente pela estética do moderno, mas também de uma busca espiritual no processo libertador que permeava todo o seu fazer artístico.”

Junto à pintura “Emblema-Logotipo Poético” (1975) –um ponto riscado de Exu, “que guardava a casa de Valentim em Brasília, mais tarde em São Paulo, posta em lugar estratégico e reservado”, conta Bené Fonteles – estará uma vitrine com ferramentas dos orixás, pertencentes a Valentim, entre elas a escultura “Ferramenta de Exu”, em fundição de ferro e madeira, concebida por Valentim para proteger outra parte de sua casa em Brasília. “Exu para o candomblé não é o demônio, mas o mensageiro que leva os pedidos dos humanos aos deuses-orixás”, explica Fonteles.
Na terceira sala estará o ensaio fotográfico que Christian Cravo (1974, Salvador) fez da obra “Templo de Oxalá” (1974), em 2021, no MAM da Bahia. “Vejo essas esculturascomo convites à exploração. Elas chamam: ‘Estou aqui, decifra-me’. Há em cada pedaço um sentimento inseparáveldoartista,efotografar este conjunto de obras me remeteu a este lugar”, conta Cravo. Ele dedicou um dia inteiro para “admirar e buscar os melhores ângulos”, de modo a registrar depois “aquele conjunto de rara beleza que tanto fala sobre a ancestralidade baiana”. “E vi ali que o propósito da fotografia é sempreeste:dar mais vida ao que já é vivo. Vivo e eterno como as obras de Rubem Valentim”.

Na última sala, em frente a um largo banco de madeira, é exibido, em looping, o vídeo “Rubem Valentim (1922-1991) – Sagrada Geometria”, feito especialmente para a ocasião, com 28’15 de duração, direção de Max Perlingeiro, edição de Fabricio Marques, narração de Bené Fonteles e fotografia de Andre Caliento Barone.
OBRAS DE RUBEM VALENTIM EM COLEÇÕES E LOCAIS PÚBLICOS

Em 1963, estava sendo criado o Museu de Arte Moderna de Roma, que adquiriu três obras de Rubem Valentim. Em Roma, a Galleria Nazionalle d’Arte Moderna e o Palácio Doria Pamphili também têm obras do artista. Outras instituições na Europa com trabalhos de Rubem Valentim são o Museu de Arte Moderna de Paris, e o Museu de Arte e História de Genebra, na Suíça. O Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), nos EUA, e Museu de Arte de Ontário, no Canadá, têm obras do artista. Na África, há obras de Rubem Valentim no Museu de Arte de Lagos, na Nigéria, e no Museu de Arte de Marrakech, no Marrocos.
No Brasil, coleções e locais públicos onde podem ser vistas obras de Rubem Valentim: em São Paulo – Biblioteca Municipal Mário de Andrade, Centro Cultural São Paulo, Museu Afro-Brasil, Museu de Arte Contemporânea da USP, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Museu de Arte de São Paulo, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Praça da Sé, e Coleção Itaú-Unibanco. Em Brasília: Coleção de Arte do Banco do Brasil, no Centro Cultural Banco do Brasil, Palácio do Itamaraty, Palácio do Buriti, Ministério da Educação, e Secretaria da Fazenda do Distrito Federal. Em Salvador: Museu de Arte Moderna da Bahia. No Rio de Janeiro: Museu de Arte Moderna.
Serviço: Exposição “Rubem Valentim (1922-1991) – Sagrada Geometria” na Pinakotheke Cultural, Rio de Janeiro até 16 de dezembro de 2023, na Rua São Clemente 300, Botafogo, Rio de Janeiro. Entrada gratuita.