Sheila Hicks, uma das mais importantes artistas contemporâneas internacionais, é celebrada na mostra “Autobiografia de um fio”, na Nara Roesler São Paulo
Sheila Hicks — autobiografia de um fio, por Luis Pérez-Oramas
Sheila Hicks (Hastings, Nebraska, 1934) é uma das mais importantes artistas do modernismo da segunda metade do século XX no Ocidente. Pioneira no uso de técnicas têxteis e da tecelagem na produção de arte moderna, é presença de destaque na arte contemporânea desde a década de 1960. Sua produção teve início no final dos anos 1950, logo após concluir seus estudos em Yale, sob a orientação de Josef Albers. Artista global avant la lettre, Hicks realizou inúmeras viagens ao redor do mundo, dedicando-se ao estudo das culturas e práticas locais de cada lugar, com especial atenção às tradições da tecelagem e da produção têxtil em países como México, Marrocos, Arabia Saudita, Japão, África do Sul, Peru, Israel, Suécia, Guatemala, Colômbia, entre outros.
Seu trabalho caracteriza-se pela investigação da escala, variando do mínimo ao monumental e frequentemente ocupando um espaço limiar entre arte, design, artesanato e arquitetura. Em meio à multiplicidade de sua produção, Hicks confere sempre à cor um papel central, evocando suas incursões iniciais na pintura.
Essa diversidade de escalas, formas e procedimentos encontra, contudo, uma constante. Na produção artística de Sheila Hicks, o material, o suporte e a obra se unem sob um único nome: o fio. A obra de Hicks é literalmente uma obra de fios: é o que os fios operam em sua obra e o que ela opera com os fios; mas é também, no esplendor de sua aparência, em seu volume e em sua superfície, apenas fio: cordas, cipós, arames, novelos.
O fio, como figura, tem, pois, a virtude de abarcar uma temporalidade multissecular. É um tema contemporâneo, mas também antiquíssimo, atávico, e é, além disso, um tema do futuro: Sheila Hicks produz seus objetos com a forma mais primordial do fio como fibra natural, mas também com os fios mais sofisticados, resultado de tecnologias de ponta e de inteligência artificial.
O fio é fio condutor de anacronismos. A obra de Sheila Hicks joga — isto é, opera e articula — com esse impulso anacrônico do fio. Mas não deveria haver dúvidas: a genealogia de Hicks é definitivamente moderna. Tem nome e sobrenome: do casal Josef e Anni Albers ao casal Claude e Monique Lévi-Strauss (os primeiros, mestres e guias; os outros, amigos e confidentes), de Félix Candela e Luis Barragán a Kevin Roche e Ricardo Legorreta. Essa genealogia encarna plenamente um dos grandes legados da modernidade: o de suspender a cronologia acadêmica da história da arte para nos oferecer a liberdade e a aventura de outras temporalidades, de geografias antropológicas incomensuráveis que aquela cronologia disciplinada havia obliterado em sua ilusão de progresso. O fio na obra de Sheila Hicks é uma força emancipadora para sair desse labirinto, e a autobiografia (do fio) é a narrativa incessante dessa aventura criativa.

A Nara Roesler São Paulo apresenta a exposição “Autobiografia de um fio”, com trabalhos inéditos e recentes de Sheila Hicks (1934), um dos grandes nomes da arte contemporânea internacional, expoente e pioneira da arte têxtil. A curadoria é de Luis Pérez-Oramas, diretor artístico da Nara Roesler, que mantém contato com a artista desde 2011, quando a convidou entre os artistas da 30ª Bienal de São Paulo. Na ocasião, primeira mostra de Hicks no Brasil, a artista ocupou uma área de aproximadamente 400 metros quadrados com um extenso conjunto de obras de diferentes períodos, documentos pessoais e uma intervenção site specific.
Luis Pérez-Oramas selecionou mais de vinte obras recentes e inéditas de Sheila Hicks, produzidas desde 2017, além da obra histórica “Zapallar Domingo II” (1957), que mostram ao público as diferentes tipologias de sua produção. A exposição individual de Sheila Hicks na Nara Roesler São Paulo estava inicialmente prevista para 2020, mas o projeto foi interrompido pela pandemia.

O Instituto Tomie Ohtake apresenta, simultaneamente, a mostra monumental “O que que é isso?” em torno da obra de Sheila Hicks, com um recorte histórico sobre a trajetória da artista e suas relações com a arte pré-colombiana e com a América Latina.A curadoria é de Ana Roman, Luis Pérez-Oramas e Paulo Miyada. As exposições serão acompanhadas por uma publicação conjunta do Instituto Tomie Ohtake e da Nara Roesler Books.
Em 2025, ao mesmo tempo em que Nara Roesler retomava a ideia de uma individual de Sheila Hicks, Paulo Miyada – então diretor artístico do Instituto Tomie Ohtake – e Ana Roman decidiram convidar a artista para uma exposição. A coincidência dos calendários, a brecha na supersolicitada agenda da artista e a relação histórica entre as duas instituições –marcada também pela amizade entre Tomie Ohtake e Nara Roesler – tornaram o momento especialmente propício para articular as duas mostras. Assim, foi possível reunir esforços em torno de dois projetos autônomos, cada um concebido a partir de um recorte curatorial próprio, ao mesmo tempo em que se oferece ao público dimensões complementares da produção de Sheila Hicks.
As duas mostras consagradas a Hicks no Brasil fecham um circuito de exposições na América Latina iniciado no Museo Amparo (Puebla, México, 2017) e continuado no Museo Precolombino (Santiago do Chile, 2019), representando com sua presença em São Paulo um grande retorno às fontes históricas do seu trabalho como artista têxtil.
“A América Latina está inscrita no DNA originário da obra de Sheila Hicks” —Pérez-Oramas
Desde sua formação em Yale, Hicks foi profundamente marcada pelos ensinamentos do historiador da arte pré-colombiana George Kubler (1912–1996) e a leitura do clássico livro de Raoul d’Harcourt sobre a arte têxtil do Peru ancestral, que a introduziu às culturas do fio e da tecelagem na América Latina. Hicks recebe em Yale o legado moderno da Bauhaus através do seu professor Josef Albers (1888-1976) – quem a enviou ao Chile, em 1957, para ministrar aulas em seu lugar, ocasião da primeira viagem iniciática da artista pela Venezuela, Colômbia, Peru e Chile.
Foi no Chile, em parceria com o grande fotógrafo Sergio Larrain (1931-2012) que Sheila Hicks realizou sua primeira exposição institucional, como pintora, no Museu Nacional de Belas Artes, em Santiago.
“Em Caracas, ela se vinculou a republicanos espanhóis que conspiravam para derrubar a ditadura de Marcos Pérez Jiménez, mas também com artistas venezuelanos fundamentais, como Alejandro Otero e Gego. Ela visitou as obras em andamento da Cidade Universitária de Caracas junto ao arquiteto Carlos Raúl Villanueva, o Niemeyer da Venezuela.” —Pérez-Oramas

“Depois, Sheila viveu no México, onde trabalhou como fotógrafa e compartilhou amizade e cumplicidade com figuras fundamentais da arte e arquitetura hispano-americana: Félix Candela, Luis Barragán, Ricardo Legorreta, Mathias Goeritz, Manuel Álvarez Bravo, Leonora Carrington, entre outros.” —Pérez-Oramas
Com obras presentes nos acervos dos principais museus do mundo, Sheila Hicks há mais de seis décadas é expoente da arte têxtil. Sua prática expande as possibilidades do fio e da fibra, articulando abstração, cor, escultura, pintura e arquitetura. Nascida em 1934, em Hastings (Nebraska, Estados Unidos) e residente em Paris desde 1964, Sheila Hicks tem produzido sua obra em diálogo permanente com diversas culturas, abraçando a dimensão global das tradições da arte têxtil no mundo, com estadas significativas na Ásia, África e América Latina desde os anos 1950.
“Sheila Hicks foi a primeira artista têxtil inteiramente global, antes mesmo da criação deste termo. É a primeira artista que pesquisou tecidos nos cinco continentes, tendo consciência de todas as linguagens, ancestrais e contemporâneas, da arte têxtil. Isso não é pouca coisa, é algo enorme.” —Pérez-Oramas

SHEILA HICKS E NARA ROESLER
Nara Roesler trabalha com obras de Sheila Hicks desde 2017. Em 2024, obras da artista integraram a mostra coletiva “Co/respondências”, e estiveram em diversas feiras internacionais, como Art Basel Miami Beach, Armory, TEFAF, entre outras. “Para Sheila esta presença no Brasil é muito significativa enquanto marca a oportunidade de voltar à América Latina, onde sua vida como artista começou”, diz Pérez-Oramas sobre as duas exposições que serão abertas no Brasil, as primeiras desde a 30ª Bienal de São Paulo.
Em “Autobiografia de um fio” estarão obras da série de “monocromos” têxteis, “quadrados modernos, que sem dúvida ressoam com o fato de [Josef] Albers e o legado da Bauhaus ser uma presença inspiradora para Hicks”, diz Luis Pérez-Oramas.
“Mas me interessa tentar desenvolver a instalação como uma germinação, do mínimo ao monumental, como uma autobiografia dos fios”, adianta o curador. Os “Minimes” de Sheila Hicks, que também serão expostos na Nara Roesler São Paulo, “são mínimas cartografias para avançar rumo ao espaço teatral, dramático dos espectadores, para deixar cair os fios entrelaçados como cataratas de água, para saturar os espaços com cometas e planetas de cor tecidos”, assinala.

Estarão também na exposição as obras da série “Boules”, que se assemelham a grandes novelos, e são confeccionados com tecidos e fios de diversos materiais, incluindo fibras sintéticas manualmente tingidas e então moldadas a partir do acréscimo de algodão, linho, nylon e seda, entre outros. Muitas vezes, Hicks incorpora objetos pessoais dentro de suas obras têxteis, criando compartimentos ocultos que o público não consegue ver. O gesto dialoga com a herança do artista Marcel Duchamp (1887-1968) ao transformar objetos cotidianos em parte da obra e sugerir que ela também guarda memórias, histórias e significados invisíveis.

INTERESSE GLOBAL POR SUA OBRA
Luis Pérez-Oramas destaca que a participação de Sheila Hicks nas bienais de São Paulo (2012), Whitney, em Nova York (2014), e deVeneza (2013 e 2017) marcou uma “renovação global do interesse por sua obra”. As grandes aquisições e mostras institucionais em museus como Centre Pompidou, em Paris; MoMA, Metropolitane Cooper Hewitt, em Nova York, Art Institute of Chicago, National Gallery of Art, em Washington, Museu de Arte Moderna de São Franciso, Minneapolis Institute of Art, nos EUA; Tatee Victoria and Albert Museum, em Londres; West Bund Museum, em Xangai, China, “implicaram, junto ao reconhecimento cada vez mais significativo, uma carga de compromissos e comissões de obras que havia tornado difícil definir, até agora, uma data para uma individual da artista no Brasil”.
A presença das obras de Sheila Hicks no Brasil “vem fechar um circuito de retorno às fontes de seu trabalho, que se inicia no México com sua mostra no Museo Amparo, em 2017, continua no Chile, no Museo Precolombino, em 2019, e culmina no Brasil em 2026, na Nara RoeslerSão Paulo e no Instituto Tomie Ohtake”, afirma.

SOBRE SHEILA HICKS
Sheila Hicks (1934, Hastings, EUA; vive em Paris desde 1964) é um dosnomes mais importantes no panorama da arte contemporânea internacional desde a década de 1960. Seu trabalho em arte têxtil iniciou-se nos anos 1950, logo após ter finalizado seus estudos na Yale Art School, em que esteve em contato com os professores Josef Albers, George Kubler, Rico Lebrun e Bernard Chaet. Sheila Hicks viajou para a América do Sul, África, Ásia, Europa, pesquisando a cultura e as práticas têxteis de cada local, considerando as tradições ancestrais encontradas. Principalmente, viajou para o Peru, Chile, México, Marrocos, Índia, Coreia, Japão, Suécia e África do Sul.

Seu trabalho se caracteriza pela investigação da escala, variando do mínimo ao monumental, e dentro da multiplicidade de sua produção, Sheila Hicks sempre confere à cor papel de destaque, de modo a evocar suas incursões iniciais na pintura. A artista utiliza sua prática na tecelagem como uma extensão da pintura – “uma pintora perdida na selva de fibras buscando encontrar uma saída”, brinca a artista ao comentar sua relação com a técnica têxtil. Hicks também se tornou conhecida por utilizar uma vasta gama de materiais, desde pedaços de ardósia e fios até uniformes de enfermeiros e militares. Recentemente, Hicks começou a realizar experimentos com materiais biodegradáveis, que, embora estejam fadados a se desintegrar fisicamente, não chegam propriamente a desaparecer, uma vez que a artista procura despertar – ou construir – experiências memoráveis e perenes.
SOBRE NARA ROESLER
Nara Roesler, ao longo de sua trajetória – iniciada em 1976, em Recife – tornou-se uma das principais galeristas do Brasil, reconhecida por desempenhar um papel fundamental na promoção, no fortalecimento institucional e internacionalização da arte brasileira. Nara Roesler tem contribuído significativamente para o desenvolvimento das carreiras de seus artistas, oferecendo suporte contínuo e plataformas de destaque para a apresentação de seus trabalhos, incluindo-os em importantes instituições, bem como em relevantes coleções privadas, tanto no Brasil quanto no exterior. Nara Roesler representa hoje mais de 50 artistas, estruturada como uma das principais plataformas para a arte brasileira no circuito global. Seu programa reúne nomes históricos e fundamentais da arte brasileira e internacional, como Abraham Palatnik, Amelia Toledo, Antonio Dias, Artur Lescher, Daniel Buren, Heinz Mack, Jac Leirner, Julio Le Parc, Sheila Hicks, Tomie Ohtake e Vik Muniz, e uma nova geração de artistas consolidados, como Alberto Pitta, André Griffo, Berna Reale, Bruno Dunley, Jonathas de Andrade, JR, Lucia Koch, e nomes mais recentes como Asuka Anastacia Ogawa, Elian Almeida, Flávia Ventura, Jaime Lauriano, Manoela Medeiros, Mônica Ventura e Thiago Barbalho.
Sua primeira exposição de arte contemporânea, “O desenho em Pernambuco”, foi feita em 1976, no Recife. Em 1986, Nara Roesler se mudou para São Paulo, onde firmou a galeria sob seu nome no final dos anos 1980. Com sede em São Paulo, onde duplicou seu espaço no Jardim Europa, a galeria expandiu seu programa para o Rio de Janeiro, em 2014, e inaugurou um espaço em Nova York em 2016, tornando-se a primeira galeria brasileira a estabelecer um endereço fora do país e reforçando seu compromisso com a circulação global da produção artística brasileira e latino-americana, em uma atuação que combina acompanhamento de longo prazo, interlocução curatorial e inserção internacional.
Com o objetivo de fomentar de modo contínuo a prática curatorial e a pesquisa crítica, Nara Roesler criou, em 2004, o Roesler Hotel, programa voltado ao intercâmbio entre curadores, artistas estrangeiros e brasileiros. Em 2011, a galeria criou a Nara Roesler Books, sua editora dedicada à arte contemporânea, que já publicou mais de 30 títulos. Desde 2019, a direção artística da galeria é conduzida por Luis Pérez-Oramas, em diálogo com o departamento curatorial da Nara Roesler, fortalecendo uma programação que articula rigor curatorial, pensamento institucional e presença internacional.
Serviço: Exposição “Sheila Hicks – Autobiografia de um fio” na Nara Roesler São Paulo, em cartaz até 24 de outubro de 2026. Endereço: Avenida Europa, 655, de segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 15h. Entrada gratuita. Site oficial: nararoesler.art