Surrealismos: arte para além da razão

“O Surrealismo é um estado de espirito e nada mais, é um estado que não se pode explicar”. Leonora Carrington

O Surrealismo nasceu como ruptura estética e epistemológica ao reivindicar o inconsciente e o automatismo como dimensões constitutivas da experiência, sendo entendido como uma forma de pensamento que extrapola os limites da razão e afirma a imaginação como potência crítica. 

Nesse contexto, apresenta-se Surrealismos: arte para além da razão, com curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli. A exposição toma o centenário do Manifesto Surrealista de 1924 como ponto de partida para uma leitura contemporânea do movimento. Ao adotar o termo no plural, desloca o surrealismo de uma definição histórica e afirma sua condição de campo expandido, atravessado por diferentes geografias e temporalidades.

A exposição acontece em três núcleos: europeus, latino-americanos, norte-americanos e caribenhos, que funcionam como zonas de contato. O visitante é convidado a perceber os diferentes contextos sem perder a dimensão de um pensamento que opera por associação e invenção.

No percurso, torna-se evidente que o Surrealismo não se limita à representação do sonho. Como exemplifica a obra de Max Ernst, a imagem é o resultado de um processo em que associações inesperadas produzem novas realidades. A lógica da collage, frottage e decalcomania, cujas técnicas foram criadas dentro do movimento, estabelece uma lógica em que tudo pode tornar-se outra coisa.

Ao incorporar artistas brasileiros em diálogo com produções internacionais, os curadores ampliam ainda mais esse campo e reafirma o compromisso da Pinakotheke de conectar produções diversas em um mesmo horizonte crítico.

A mostra ainda incorpora revisões contemporâneas do movimento, incluindo a proeminência de mulheres artistas como Maria Martins (1894-1973) e Louise Bourgeois (1911-2010), e as relações entre Surrealismo, negritude e culturas não europeias. Reconfiguramos o entendimento do próprio movimento, evidenciando a sua capacidade de reinvenção.

Surrealismos propõe uma experiência de pensamento. Um convite a atravessar zonas de ambiguidade e a reconhecer, na arte, um espaço de liberdade. A imaginação, nesse contexto é uma forma de reconfigurar o real.

Camila Perlingeiro
Diretora criativa


A mostra inaugural do novo espaço da Pinakotheke em São Paulo tem curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli, e reunirá aproximadamente 100 obras de 60 artistas – europeus, latino-americanos, norte-americanos e caribenhos.

A Pinakotheke, prestigiosa instituição de arte fundada no Rio de Janeiro por Max Perlingeiro em 1979, reconhecida pela excelência de suas exposições e publicações, abriu para o público sua nova sede em São Paulo com a exposição “Surrealismos: arte para além da razão”, que oferecerá ao público uma vasta visão sobre as várias facetas desta vertente da arte iniciada na primeira década do século 20.

A nova sede da Pinakotheke é uma ampla casa na Rua Minas Gerais, esquina com a Praça Marechal Cordeiro de Farias, em Higienópolis, no centro de um terreno de 700 metros quadrados, dos quais 180 m2 são de área expositiva – quase o dobro do existente na casa que abrigou a instituição no Morumbipor 24 anos – e 370 m2 de área externa, que circunda a construção.

Com curadoria de Max Perlingeiro e Tadeu Chiarelli, as aproximadamente 100 obras de 60 artistas de “Surrealismos: arte para além da razão”, estarão dispostas em três núcleos principais:

  • Artistas latino-americanos – Diego Rivera (1886-1957), Leonora Carrington (1917-2011), Roberto Matta (1911-2002), Rufino Tamayo (1899-1991), WilfredoLam (1902-1982), Carlos Mérida (1891-1984), Antonio Berni (1905-1981) e Grete Stern (1904-1999) e, entre eles, os brasileiros modernistas e contemporâneos – Maria Martins (1894-1973), HeliosSeelinger (1888-1965), Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), Ismael Nery (1900-1934), Tarsila do Amaral (1886-1973), Flávio de Carvalho (1899-1973), Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976), Cícero Dias (1907-2003), Zina Aita (1900-1967), Oswaldo Goeldi (1895-1961), Farnese de Andrade (1926-1996), Flavio-Shiró (1928), Jorge de Lima (1893-1953), Otávio Araújo (1926-2015), Sergio Lima (1939), Walter Lewy (1905-1995), Athos Bulcão (1918-2008), Tunga (1952-2016), Erika Verzutti (1971), Alex Cerveny (1963) e Claudio Cretti (1964).
  • Artistas norte-americanos e do Caribe – Man Ray (1890-1976), Francesca Woodman (1958-1981), Imogen Cunningham (1883-1976) e Minnie Evans (1892-1987) e Préfète Duffaut (1923-2012).
  • Artistas europeus – Alberto Giacometti (1901-1966), André Masson (1896-1987), Fernand Léger (1881-1955), ÁrpadSzenes (1897-1955), Francis Picabia (1879-1953), Giorgio de Chirico (1888-1978), Hans Bellmer (1902-1975), Ferdinand Desnos (1901-1958), Henry Moore (1898-1986), Jean Arp (1886-1966), Joan Miró (1893-1983), Léon Tutundjan (1905-1968), Leonor Fini (1907-1996), Marc Chagall (1887-1985), Marcel Duchamp (1887-1968), Louise Bourgeois (1911-2010), M.C. Escher (1898-1972), Max Ernst (1891-1976), Pablo Picasso (1881-1973), René Magritte (1898-1967), Salvador Dalí (1904-1989) e Victor Brauner (1903-1966).

SALAS ESPECIAIS

Haverá salas especiais para Maria Martins [destaques acima], com uma coleção de esculturas e gravuras produzidas entre os anos 1940 e 1950, e Louise Bourgeois, com esculturas.

VÍDEOS

Serão exibidos vídeos das artistas contemporâneas Letícia Parente (1930-1991), Lenora de Barros (1953), Kátia Maciel (1963) e Lia Chaia (1978), além de trechos dos filmes clássicos “Le Sang d’unpoète” (1932) de Jean Cocteau (1889-1963), e “Unchienandalou” (1929), de Luis Buñuel (1900-1983) e Salvador Dalí.

Athos Bulcão (1918-2008)

PERCURSO DA EXPOSIÇÃO

No hall de entrada, o público será recebido pelos vídeos das artistas contemporâneas Letícia Parente, Lenora de Barros, Kátia Maciel e Lia Chaia. No demais espaços do térreo, estarão as obras dos artistas latino-americanos e a sala especial de Maria Martins. No segundo andar, ficarão os núcleos do Surrealismo europeu, do norte-americano e caribenho. Na área central, a sala especial de  Louise Bourgeois; e em destaque as obras de Magritte –“La magienoire” (1948), guache sobre papel, e “La findu monde” (1963), óleo sobre tela –; a escultura “Mujer de pie” (1945), de Picasso, em bronze patinado dourado; a escultura “Femmedebout” (c. 1963), de Giacometti, em bronze; a pintura “O enigma de um dia” (1914), de de Chirico, pertencente ao MAC USP; o óleo sobre cartão “Configuration” (1953), de Hans (Jean) Arp; e “St. Tropez” (1937-1939), óleo sobre tela, de Picabia. No corredor seguinte, a grande xilogravura “Metamorphose” (1939-1940), de M.C. Escher, com quatro metros de comprimento. Na última sala, outro trabalho de Escher – “Bond of Union” (1956), litografia sobre papel, além de dois óleos sobre tela de Ferdinand Desnos (1901-1958): “Le lapinblanc” e “Sem título”. Neste espaço, destaque também para as obras de Salvador Dalí: a escultura em bronze “Vénus spatiale” (1984), três trabalhos da série “La suitecatalane”, de 1954, em cerâmica esmaltada – “L’etoile de mer”, “Lesfleches”e “Lespigeons”– e “The Persistence of Memory II”, em lã e colagem. E ainda a pintura “Sem título” (1956), em óleo sobre tela, de Victor Brauner.

OS VÁRIOS SURREALISMOS

Há dez anos Max Perlingeiro vem acalentando a ideia de fazer uma exposição dedicada ao Surrealismo. Em outubro de 2016, ele foi mais de uma vez à mostra “Magritte: latrahisondesimages” (Magritte: a traição das imagens),no Centro Pompidou (Beaubourg), em Paris, que abordava a relação entre a pintura de René Magritte e a filosofia.

“Isso foi determinante para iniciar uma pesquisa interminável, quase obsessiva, sobre o Surrealismo. Da leitura de dezenas de livros e artigos em revistas de arte e psicanálise à vista de filmes e vídeos. Nunca o Surrealismo foi tão discutido, pensado, repensado: a participação feminina, o encontro de Breton com a revista antilhana ‘Tropiques’em 1941, a negritude e o Surrealismo”. Max Perlingeiro

O curador ressalta ainda que é importante refletir sobre o contexto da arte de alguns artistas que se manifestaram antes de o Surrealismo ser oficialmente nomeado ou categorizado como um movimento, “os ‘surrealistas avant lalettre’, criadores que exploraram o onírico, o absurdo e o subconsciente, séculos antes do manifesto de Breton em 1924, como Hieronymus Bosch (c. 1450-1516), Giuseppe Arcimboldo (1526-1593),e os Yokai, arte especialmente popular no período Edo (1603-1868)”.

Minnie Evans (1892-1987) Sem título [Untitled], década de 1970

“A opção por usar o termo Surrealismo no plural traduz a diversidade de práticas e teorizações acerca do movimento. Como será visto, existe um conjunto de obras e ações ligadas à arte que pode ser entendido como voltado para o inconsciente e para o fantástico, para o maravilhoso e para o onírico, utilizado por aqueles que desejaram se manifestar suas percepções do mundo, tanto na arte quanto na política”, observa Chiarelli. “Assim, usar o termo no plural, se por um lado retira-o dos limites impostos pelo Surrealismo ‘histórico’, circunscrito ao que, cronologicamente, foi considerado o movimento surrealista (entre os anos 1920 até final dos anos 1940), por outro o expande para antes e para depois daquelas duas décadas”. –Tadeu Chiarelli

Flávio de Carvalho (1899-1973) Retrato ancestral [Ancestral portrait], 1932

MANIFESTO SURREALISTA

“Historicamente, o Surrealismo surgiu entre o fim da década de 1910 e o início da década de 1920 como um movimento literário que experimentava um novo modo de expressão chamado escrita automática. Segundo André Breton (1896-1966), signatário do Manifesto surrealista, de 1924, poeta, crítico, médico e psiquiatra de formação. Inicialmente, os poetas surrealistas franceses, ligados a Breton – Louis Aragon (1897-1982), Paul Éluard (1895-1952) e Philippe Soupault (1897-1990) – relutavam em se associar aos artistas visuais, pois acreditavam que os processos criativos eram incompatíveis com a espontaneidade da expressão desinibida. No entanto, Breton e seus seguidores não ignoraram completamente as artes visuais, porque tinham amizade com os artistas e os admiravam”. –Max Perlingeiro

Jorge de Lima (1893-1953) Paródia da “Ressurreição de Lázaro”, [Parody of “The Resurrection of Lazarus”] 1939

MUDANÇA DE ENDEREÇO E REORGANIZAÇÃO INSTITUCIONAL

“Surrealismos: arte para além da razão” marca não apenas a mudança de endereço da Pinakotheke em São Paulo, como toda uma reorganização institucional e nova identidade visual. Consolidada como uma das mais prestigiosas instituições de arte do país, reconhecida pela excelência de suas exposições e publicações, a Pinakotheke foi fundada no Rio de Janeiro em 1979 por Max Perlingeiro – conceituado marchand que administra quinze das maiores coleções do país. Outra sede foi inaugurada em 1987, em Fortaleza, com o nome Multiarte. E em 2002, foi aberta no Morumbi a Pinakotheke em São Paulo. Em sua antiga sede em São Paulo, a Pinakotheke realizou muitas exposições, como “Frans Krajcberg” (2023), “Rubem Valentim” (2022) e “Lygia Clark (1920-1988)”, escolhida como a melhor retrospectiva do ano pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), em 2021. Em março do ano passado, a Pinakotheke realizou a mostra “Encontro/Confronto – Hélio Oiticica e Waldemar Cordeiro”, dando continuidade a um dos interesses de Max Perlingeiro, o de destacar a relação pessoal entre dois artistas.

Jorge de Lima (1893-1953) Sala de reuniões [Meeting room], 1939

O novo espaço em Higienópolis é acompanhado também de uma reestruturação da Pinakotheke, e no novo organograma, Max Perlingeiro é o diretor-geral, e seus filhos assumem a diretoria-executiva de cada espaço – Max Morales Perlingeiro, em São Paulo; Mariana Perlingeiro Mattos, no Rio de Janeiro; e Victor Perlingeiro, em Fortaleza – e Camila Perlingeiro, que já é a responsável pelas edições dos livros de arte, passa a responder como diretora criativa. Ivan Perlingeiro, irmão de Max, será o diretor de operações. O novo espaço em Higienópolis, extremamente bem localizado, com a casa em centro de terreno, esquina com a Praça Marechal Cordeiro de Farias, é próximo ao Instituto Moreira Salles e a diversas outras galerias de arte.

“Esta reestruturação tem como principal objetivo consolidar e adequar a Pinakotheke a uma expansão nacional e internacional.” –Camila Perlingeiro, estratégia e rebranding.

LIVRO “SURREALISMOS: ARTE PARA ALÉM DA RAZÃO”

Ao longo da exposição, será lançado pela Pinakotheke Editora um livro bilíngue (port/ingl), com mais de 300 páginas, e capa dura, sobre o tema “Surrealismos: arte para além da razão”. Fartamente ilustrada, a publicação terá textos de Max Perlingeiro, Tadeu Chiarelli, Dawn Adès, João Frayze-Pereira e Thiago Gil Virava.

Louise Bourgeois (1911-2010) Femme, 2004

Serviço: Exposição “Surrealismos: arte para além da razão”, em cartaz até 15 de agosto de 2026 na Pinakotheke  São Paulo. Endereço: Rua Minas Gerais 246, Higienópolis, SP. Entrada gratuita.

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Publicado por:Philos

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