I Concurso Petrobras CasaBloco de Artes Carnavalescas 2025
Vi de longe. A noite veio de trovão. Não. Mais de uma vez. Perto dos Quatro Cantos. Encruzilhada de escolha. Acenei. Lindo em alma. Ainda estou. Olinda inteira já desceu ladeira. Caí no passo em laço de boca. Pode acabar o mundo. Ela ali. Eu vi. Sé. Você sabe como é difícil subir até lá e aparecer tudo do mundo. Dançou quase nua. Dizem que o seu coração voa mais perto da noite. Alto da Sé em Olinda. Viro descanso na quarta-feira. Se preciso for vou até Casa Amarela. Vou. É destino dela. Para de falar isso toda hora. Você é testemunha. É o Carnaval. Princípio de tudo. Deu meia-noite. Lua cheia é. Passar e descer a ladeira. Gingo e sorrio para todo mundo ver. Exibido. De fraque e colete. Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Deu meia-noite.
Doze em ponto.
Dizem que o coração de quem já morreu anda em lua cheia que é quando dá o ponteiro no doze. Ponto de laço que se desfaz das correntes da vida. E ia-se para todo canto. As quatro pontas daquelas esquinas. Ela estava por aqui. Pare de pensar que eu não sei mais. Lembro. Não esqueço do que você conta na minha orelha feito reza e raminho. Dente de ouro no canto da boca. Viu como estou bonito de alma? Pode até ser uma pergunta depois dos passos em laço no piso de paralelepípedo. Na escola a gente soletrava essa palavra. Dividia as sílabas. Até o mar. O destino de todos os mortos. Carnaval. Sentidos todos. Não faz o sinal da cruz sem rezar o raminho. O cheiro das ruas ficou diferente. Ela botou a cabeça da La Ursa e correu. Viu? Sorriso na multidão.
Lá onde gira. A troça está descendo de novo. As suas preces vão atravessar a multidão. Encontra-se em outro lugar com flores. O relógio tá quase passando. Pare de repetir na minha orelha. Ela dançou. Tive certeza. Ninguém sabe de todos os segredos quando eu desfilo. Só. Eu posso contar. Você entende os amores que temos como trovoada no centro da terra. Trançando as pernas feito história. Perguntou para você? Não. O cheiro das ruas está diferente. Sinto ela. Poros enrolados no corpo. Até meu chapéu cair e sacudir. Estou perto. Não atrapalhe. Virados de calunga.
E não solte meu corpo. Lembra da gente no quintal e a Mãe cortava melancia? Depois que a gente comia e sujava o peito do corpo. Queixo. Quase colar. Pintava com caneta. Olho, nariz e sorriso. Braços abertos pro alto. De sol. Ela também sabe das coisas e eu e você temos que confiar nos tambores descendo. Flor na boca. O rosto dela só eu sei. Se vê como a noite de lua lá. Em cima da gente e só precisamos ir. Que circula e pulsa. A luz bate no meu dente de ouro. Aba do meu chapéu preto é proteção. Chegue cá. Pertinho. Não solte o meu corpo outra vez. A troça tá vindo. Fácil e a vida escorre nos Quatro Cantos de chão. Das portas que abriram. Olhe. Uma a uma abrindo pra gente. Ela tá aqui. Tá fazendo isso. Sente? Som bate no chão, na parede, que depois volta. A flor na boca. Reza raminho. Não deixe o relógio girar.
Deu meia-noite.
Para de brincar. Agora você ri de mim? Os bonecos de Mãe eram lindos. Claro que eu gostei. Deixei debaixo do meu travesseiro até dormir. Respirei o descanso. Até feder de gosto ou desgosto. Mãe disse que a felicidade e a tristeza moram no mesmo lugar. Ela tá ali. Espie. Deixa que eu fale antes de você. Só fale dentro de mim. Na altura da coroa preta dela. Tirou a La Ursa. Corre. Mais rápido. Não sei muito do gosto da felicidade. Mas tem cheiro de Carnaval. Ela pegou a minha mão agora. Eu sinto. Mentira é coisa que você conta. Labareda. Vou atrás dela. Você não tem nada mais importante para fazer. Sequer colocou a roupa para secar quando a Mãe pediu. Os prendedores dentro do balde. Quando chove nas tardes de verão eu não vi você ajudar a Mãe. Ela jogou as panelas no chão. Brigou com a gente, disse que pai é Mãe, mãe é Mãe, pai é quem some, quem não corta melancia. A gente lá. Perto dela. Atazanou sim. Certeza do que estou dizendo. Ela fazendo comida. Desenhando na melancia e você queria pai. O mundo é pai. Por isso é assim. Patifaria é a sua. Menina raspando na minha mão de novo. É maré. Dente de ouro, chapéu, bigode feito e você aí resmunguento.
Desceu a troça.
Veio Menina. Ele me segue e tem medo. Deixe ele. Passou pano no chão e varreu casa. Banho de arruda. E agora tenho você. Seus olhos. Miséria minha. A sua vida agora é junto. Ruas iguais em destino. É outro. Casinha de porta aberta. Qual a porta? Azul. Boca de laço boa. Vai embora. Disse isso pra ele antes. Na cozinha. Lá mesmo. Que é lugar de criação. Espera ele sair que a gente tira a roupa. Mãe já se foi morta, Menina. Fico melhor sem chapéu. Soube, Menina. Meu pênis está para o céu. Você ri? Que linda seus. Seus. Não sei dizer mais o quê. Eu tinha certeza. Lambe eu inteiro. Onde você quiser. Meu corpo é só corpo. Meu irmão ficará bem sozinho. Sabe as rezas da Mãe. Não anda só. Tá de encantamento. De novo vai correr? Não canse. Suado é melhor. Feche a janela. Melhor aberta. Olinda desceu mas volta pela rua do Amparo.
Foi a primeira vez que viu Mãe chorar.
Se essa terra não me comer. Tambor. Se essa terra não me matar. Você. Não digo que hoje é a última da primeira vez que estamos. Atados. E que o mundo todo espera que a gente permaneça. Iguais. Juntos. Doze em ponto. Um esguicho de pinga no ar e chame ele nos Quatro Cantos. O encanto bebe da gente quando fazemos. Isso você já sabe. Eu sei. Nos levantou para o sempre. Está de ronda. A gente se pega e se laça e ele parado. Corre que eu vou. Abre e clareia os caminhos. É preciso andar. Correr. Saltar. Pular até existir. Brincamos com os nossos poros. Os sabores do nosso gozo em infinita vontade do que procuramos ontem. Deu meia-noite. E posso sim transcender numa fala que te disse de quatro. Por nós. Pelo mundo. Você toda colorida.
Lá onde gira.
E ela foi. Deixou a cabeça de La Ursa. Olinda partiu para os doze até o depois. O cheiro é outro. Meu irmão rindo e contando da troça, que eu perdi tudo. Perdição. As ruas paradas ordenadas. As casas coloridas e a lua parecia um teto espelhado de pensamentos sensuais abrasivos e corroía tudo que o mundo fez de ruim pra ele. Para nós. Mãe viu. Pai não existe mesmo. Disseram que as palavras e os prazeres do carnaval é um orgasmo de Deus, ela quem deixou a gente vir e aprender lição. Gozo intenso. Verdade. Sétimo dia é Carnaval. Terras começaram em Olinda quente.
Menina foi para o mar se coroar.
Correu. A praia. Tua mão. Jangada saiu. Minha cabeça. Eu vou levar. Vou levar flores para o mar. Prometeu que a fome do mundo será de desejo. Ofertei meu corpo inteiro e eterno. Minha cabeça. Os chinelos. Libertem o desejo.
Mãe chorou pela segunda vez.
Paulistano, filho de pernambucanos, ALESSANDRO ARAUJO é autor de Rabada (Ed. Patuá, 2024) e Longe de Todas Aquelas Nuvens (Ed. Folhas de Relva, 2020). Pela Universidade Presbiteriana Mackenzie é graduado em Marketing, graduando em Letras e especialista em Língua Portuguesa e Literatura. Seus textos já foram publicados nas revistas Cult, Caros Amigos, no jornal Rascunho, Relevo, Diário de S.Paulo e em coletâneas, como a Realidades Estilhaçadas (Ed. Mondru, 2023). Foi finalista do Prêmio Off Flip de Literatura 2024.
A fotografia Pernalta que ilustra o conto é de autoria de VLA FREIRE, gaúcho de nascimento, carioca de residência, tradutor, batuqueiro de blocos, fotógrafo amador.