Foi arrastando os chinelos no asfalto que Íris chegou nas barracas que ocupavam a avenida. Ali, várias tribos, gerações, vendedores, baladeiros, pedintes, sacoleiros, patricinhas, maconheiros, crianças, idosos e artistas caminhavam distraídos, seduzidos por sapatos, acessórios, artesanatos e iguarias mineiras. No topo da cabeça, o boné vermelho segurava o sol que coroava os pedestres da feira hippie de Belo Horizonte.
Ela comprou uma cerveja, desfrutou do barulho que antecede o gole e seguiu o curso das barracas intuitivamente, tal qual os goles no latão gelado. Levou um colar com o pingente da paz, comprou dois saquinhos de praliné e um kit de panos de prato. Íris cedeu à vontade tirânica do paladar e pediu um churrasquinho de almôndegas na barraca da Morena. Ao seu lado, um homem alto junto da esposa e duas crianças estavam sentados nos bancos. De blusa do Atlético Mineiro, o cara iniciou uma sondagem, levantando do banco:
– Você é do MST?
Ele indagou olhando para o boné no topo da cabeça dela.
– Eu apoio o MST.
A tensão pairou no ar. Sentiu na pele o que sua madrinha vivia nos almoços em família ao tentar explicar seu trabalho no assentamento do MST.
– Financeiramente?
A curiosidade cresceu com os olhos, enquanto as crianças comiam espetos de coração.
– Eu apoio a ideia.
Íris respondeu, mordeu uma das almôndegas e se prontificou a conversar com a boca cheia sobre um assunto que costumava acabar em barraco nos almoços de domingo.
– E como é isso?
Ele e a mulher se aproximaram dela, que nem pensou duas vezes ao priorizar a fome e a vontade de comer.
As almôndegas aguçaram o paladar. Matar a fome era vital, urgente e prioritário. Entre uma mordida e outra, Íris lembrava dos perdigotos que saíam da boca do avô quando ele gritava “balbúrdia” na cara da madrinha Eliz.
– Ó, ali no Parque Municipal, tá rolando uma feira do MST. Os produtores estão lá vendendo café, queijo, cachaça, salame, doces, livros, artesanato, bebidas e verduras sem veneno por um preço camarada, tem até espaço para os imigrantes africanos exporem roupas e artes…
Com os dentes sujos de carne, ela limpou a boca com a mão esquerda e prosseguiu:
– Tem roda de conversa sobre agroecologia, soberania alimentar e feminismo negro, tem show aberto com música nacional e tenda da saúde com atendimento médico e terapêutico gratuito.
A surpresa inaugurou um novo semblante na cara do casal. Como é que pode? E ela continuou:
– Vai rolar uma apresentação do congado logo mais, e acho que tem oficinas para crianças. Eu vim aqui pra comprar comida porque a fila lá tá enorme.
– A gente vai sim!
A mulher do atleticano verbalizou os impulsos antes de saber dos humores do marido.
– Vai lá, é só chegar!
E tomou um gole do latão aliviada com o grau da conversa. Lembrou mais uma vez da balbúrdia na boca do vô: palavra sonora, parecia deliciosa e redonda em suas consoantes plosivas e vogais fechadas.
O casal agradeceu.
O pouco que Íris sabia não era pouco. Era o que ela presenciava toda vez que flanava por feiras abertas de produtores locais de BH. Era essa a essência das feiras: a liberdade de chegar e ser bem-vinda, quista e considerada. E isso já era motivo de sobra pra comprar mais dois latão por dez real e mandar um áudio longo para a tia Elizete, a ovelha negra da família.


PAULA ASSIS tem formação em comunicação e deformação em literatura. É ciclista, gateira e redatora. Ama os sotaques do Brasil, com preferência duvidosa por aqueles cantados e cheios de interjeições. Mora em Campinas, no interior de São Paulo, e vive querendo uma casa com quintal e fogão a lenha, mas a paranoia não abandona a falsa segurança das câmeras e portões dos edifícios. Para conhecer sua prosa poética, visite o blog literário egosatira.com.br

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