Maria Osmarina da Silva Vaz de Lima, mais conhecida como Marina Silva, nasceu em 8 de fevereiro de 1958 na pequena comunidade de Breu Velho, no Seringal Bagaço, município de Rio Branco, no Acre. Filha de um seringueiro e de uma dona de casa, cresceu em condições precárias, com a falta de infraestrutura típica dos povoados localizados às margens da BR-317. Seus pais tiveram 11 filhos, dos quais três morreram. A mãe faleceu quando Marina tinha apenas 15 anos.
Durante a adolescência, ao lado das irmãs e de um único irmão homem, encarou um duro cotidiano de serviço nas trilhas de seringueiras, popularmente conhecidas como Estradas da Seringa. A comida na mesa da família dependia do látex que retiravam das árvores de forma artesanal, por meio do manejo sustentável da floresta.
Ainda na adolescência, Marina pensou em ser freira e descobriu que precisaria aprender a ler e escrever para tanto. Foi na época em que contraiu hepatite – a primeira das três que foi acometida – e chegou a Rio Branco em busca de tratamento. Na capital, foi acolhida na casa das irmãs Servas de Maria Reparadora, onde dedicou-se aos estudos religiosos e escolares sustentando-se como empregada doméstica. O progresso foi rápido. Entre o período de Mobral, no qual se alfabetizou, até a graduação em licenciatura em História pela Universidade Federal do Acre transcorreram apenas dez anos – sua formação foi complementada posteriormente com as pós-graduações em Teoria Psicanalítica (Universidade de Brasília) e em Psicopedagogia (Universidade Católica de Brasília).

Foi neste período que Marina conheceu as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), descobriu sua vocação para as causas sociais e se aproximou de uma das suas maiores referências de vida. Incentivada por um cartaz afixado na entrada da igreja, decidiu fazer um curso de liderança sindical rural, ministrado pelo teólogo Clodovis Boff e pelo então líder seringueiro Chico Mendes. Sua dedicação ao curso a aproximou de Chico, que passou a lhe enviar publicações de sindicatos dos trabalhadores rurais e a levar para os chamados “empates”, tática de resistência contra o desmatamento do qual participavam os seringueiros, suas mulheres, seus filhos, todos os que viviam nos seringais. De mãos dadas, eles entravam na mata e faziam uma corrente que impedia a destruição da floresta.
Um dia, incentivada por um cartaz afixado na igreja, decidiu fazer um curso de liderança sindical rural, ministrado pelo teólogo Clodovis Boff e pelo líder seringueiro Chico Mendes. Sua dedicação ao curso a aproximou de Chico Mendes, que passou a lhe enviar publicações de sindicatos de trabalhadores rurais. Chico chamava Marina carinhosamente de “Nega véia”.
Juntos, Marina Silva e Chico Mendes ajudaram a fundar a CUT (Central Única dos Trabalhadores) no Acre. Chico como o primeiro coordenador da entidade e Marina, a vice-coordenadora. Assim, o sonho de tornar-se freira havia dado lugar, definitivamente, à luta social.
A vida pública começou em 1986, aos 28 anos. Marina disputou sua primeira eleição concorrendo a uma vaga na Câmara dos Deputados. Fenômeno nas urnas, ficou entre os cinco candidatos mais votados do país, mas seu partido não conquistou o quociente eleitoral mínimo exigido. Em 1988, se elegeu vereadora de Rio Branco com uma votação expressiva. Em 1990, tornou-se deputada estadual e em 1994, chegou à Brasília eleita a senadora mais jovem da história da República. Tinha 35 anos. Foi reeleita em 2002, com votação quase três vezes superior à anterior, e em 2003 nomeada ministra do Meio Ambiente, cargo que ocupou com excelência até 2008, quando retornou ao senado para terminar de cumprir o mandato.
Candidata à Presidência da República em 2010, obteve 19,6 milhões de votos, cerca de 20% dos votos válidos, e terminou o pleito na terceira posição. Em 2014, depois da trágica morte do ex-governador Eduardo Campos, assumiu a frente da chapa em que era vice-presidente e novamente finalizou a votação em terceiro lugar, desta vez com 22 milhões de votos. Em 2018, pela Rede Sustentabilidade, concorreu pela terceira vez à Presidência da República. Foi eleita deputada federal por São Paulo e pelo Brasil com 237.521 mil votos, sendo a 12ª mais votada no Estado nas Eleições de 2022.
A expressão global e a representatividade de Marina Silva podem ser medidas pela lista de prêmios que conquistou. Em 1996, recebeu o prêmio Goldman, considerado o Nobel do Meio Ambiente. Em 2007, o jornal britânico The Guardian incluiu a então ministra entre as 50 pessoas que podem ajudar a salvar o planeta. No mesmo ano, conquistou o Champions of the Earth, o principal prêmio da ONU na área ambiental e, em 2008, recebeu das mãos do príncipe Philip da Inglaterra, no palácio de Saint James, em Londres, a medalha Duque de Edimburgo, em reconhecimento à sua trajetória e luta em defesa da Amazônia brasileira – a honraria mais importante concedida pela rede WWF (World Wide Fund for Nature).
Com mais de quatro décadas de militância e vida pública, Marina Silva, professora, ex-senadora pelo Acre e deputada federal eleita por São Paulo pela Rede Sustentabilidade, é referência para diferentes gerações e conquistou um lugar de destaque na história do Brasil. Mãe de quatro filhos, mulher, negra, de origem humilde, ex-seringueira, empregada doméstica e professora de história, é um exemplo de perseverança, de que o trabalho e o esforço, aliados ao comprometimento com as causas socioambientais mais importantes, pode mudar o rumo da vida das pessoas e salvar o planeta.
Abaixo, leia um relato emocionante de Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, sobre seus dias com o ambientalista Chico Mendes:
A LUTA DE CHICO MENDES PERMANECE VIVA!
É incrível como Chico Mendes, na sua simplicidade, teve a sabedoria e a visão pioneira para configurar grandes discussões da humanidade. Chico significou o conceito de socioambientalismo, ao integrar na prática proteção do meio ambiente com justiça social, e economia com ecologia. Chico era um defensor do diálogo, ouvia a todos, valorizava a informação e unia a ciência aos conhecimentos tradicionais das comunidades. Não se afastava dos companheiros da floresta, com quem mantinha uma relação não apenas de fraternidade mas também de respeito à democracia no debate e nas decisões. Mesmo sabendo das inúmeras ameaças de morte que sofria, negava os pedidos insistentes de pessoas próximas para se refugiar fora de Xapuri, nem que fosse apenas por um tempo. Sempre alegava que não poderia abandonar seus companheiros, seu compromisso era inarredável, sabia que sua causa se encontrava ali.
Lembro do empate – uma forma de resistência organizada e pacífica de homens, mulheres, idosos e crianças dos seringais contra os desmatamentos no Acre – que fizemos na Fazenda Bordon. Quando nos aproximamos do local, havia uma proteção da Polícia Militar para que os peões pudessem derrubar as árvores impunemente. Logo que chegamos, os policiais vieram em nossa direção para impedir nossa entrada. Chico teve a ideia de cantarmos o Hino Nacional. Nos demos as mãos e começamos a cantar. Os soldados no mesmo instante pararam e ficaram esperando. Quando terminou o Hino, os policiais começaram a caminhar de novo, então Chico falou para darmos as mãos de novo e rezarmos um Pai Nosso. Pegamos na mão dos PMs, que tiveram que parar novamente, e aí pronto, não tiveram mais o que fazer, nós já tínhamos entrado na área que estava sendo desmatada. Mesmo em situações acirradas de conflito, Chico não abria mão dos caminhos da luta política não-violenta.
Permanece viva em minha memória a imagem desse grande amigo, irmão, mentor e companheiro de luta, com projetos de desenvolvimento comunitário empunhados nas mãos, andando nos corredores das instituições, pedindo apoio de cientistas, ambientalistas, sindicatos, partidos políticos, órgãos de governo. Sua vida foi uma tradução viva do que o filósofo francês Jean-Paul Sartre disse: não somos o resultado daquilo que o passado fez conosco, mas do que fazemos com o nosso passado.
Os avanços que obtivemos na agenda ambiental no combate ao desmatamento, no aprimoramento da legislação e das estruturas de governança, na criação de unidades de conservação, no papel de destaque que o Brasil alcançou nas negociações multilaterais, na valorização dos povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais, assim como vários outros, são desdobramentos da luta que Chico Mendes iniciou.
Conheci o Chico quando tinha 17 anos, e esse encontro mudou a minha vida. Nessa época, eu sonhava em ser freira e vivia num convento em Rio Branco, no Acre. Um dia, incentivada por um cartaz afixado na igreja, decidi fazer um curso de liderança sindical rural, ministrado pelo Chico e pelo teólogo Clodovis Boff. Depois disso, comecei a compreender que a minha fé não era para ficar encerrada em quatro paredes. Os ensinamentos de Chico Mendes tem sido, desde aquele momento, lições de vida, que valem ainda mais agora, quando há uma negação sistemática do que está dizendo a ciência, um tratamento inadequado às populações tradicionais e uma perda da capacidade de diálogo entre diferentes.

Muitas das coisas que eu faço e como me comporto, acho que aprendi com ele, sem nem saber que estava aprendendo e ele talvez nem sabendo que estava ensinando. Essa é a melhor forma de aprender e ensinar, aquela que fica inconscientemente marcada na gente. Em que nós não sabemos se estamos agindo ou sendo agidos por essa influência.
É difícil lembrar de Chico sem a marca da saudade. A última vez que nos encontramos, ele disse repetidamente: “pois é, nega véia, dessa vez, eu acho que não tem mais jeito. Os cabras vão me pegar”. Eu só lembro de ter dito: “não tem jeito o quê, Chico?”. E ele reafirmava: “eu acho que eles vão me pegar”. Tentei insistir pra que ele fosse pra cidade pra denunciar. E ele respondeu: “não adianta, toda vez que eu faço isso, eles dizem que eu faço isso pra me promover, então quando eu morrer eles vão ver que não era pra me promover”. Caminhamos até o ônibus, nos abraçamos e nos despedimos. Passaram cinco dias, daquele último encontro, até pegarem Chico. Andei e trabalhei com ele até seu assassinato, de forma brutal e covarde, há mais de 30 anos. Mas é impossível rememorá-lo sem prosseguir na luta.
Marina Silva (Rio Branco, Acre, Brasil). Professora de História, Senadora pelo Acre (1995-2011), Ministra do Meio Ambiente e da Mudança do Clima.