Às vezes a memória se confunde entre a certeza do que aconteceu e as ramificações de cada história, que contadas muitas vezes, os fatos se confundem entre o que foi e o que era apenas impressão. A prosa dos dias de Berenice seguia a tantos anos improvisando seu destino, sem um roteiro pronto do que seria o amanhã, que sua aparência refletia seu cansaço.
O cabelo em que ela sempre gastava horas na frente do espelho dando forma com a escova redonda de madeira (a mesma que andava no porta luvas de seu carro), agora caiam brancos como dia de temporal forte, escorridos pela cabeça. Os olhos miúdos, quase não viam o tempo pela catarata que tomava conta deles, com os cantos avermelhados seus filhos já não sabiam dizer quando haviam lágrimas nos olhos ou não. A pele queimada de sol era adornada pelas rugas de sessenta e oito anos de risada, de raiva, de desespero, de rancor, de medo e pouquíssima tempestade feita em chuva sobre os olhos.
Nestes últimos dias andava calada. Ainda trabalhava muito, apesar de todos os anos que pesavam sobre os seus ombros com a rotina de toda uma vida. Ainda assim, nem uma mensagem mandava pra dizer como se sentia. Parecia aceitar – não de bom grado – o que o destino trouxe ao longo dos anos, inclusive sua solidão.Tantas histórias já havia contado, tantos caminhos percorridos, tantas noites mal dormidas que tinham fim logo que o sol se levantava… Tinha em si e no seu caminhar silencioso todos os enigmas do tempo e um milhão de perguntas não respondidas. Filhos e netos se perguntavam se a criança interior (aquela que vive em cada um de nós) e no caso de Berenice, a criança da estação de trem, ou a criança que brincando com a arma do pai estourou todo o telhado da casa de infância, ainda era viva dentro de Berê.
Teria sido preciso matar a criança para viver a vida que viveu? Para provar o gosto amargo da despedida e do mal tantas vezes? Nas últimas vezes que brincou na vida, o fez com o filho mais novo: Luiz. Esse a amava infinitamente. Ganhava horas em sua companhia, um servindo-se da doçura do outro, em uma admiração mútua que ninguém mais poderia construir no vácuo do silêncio, como fizeram, ao entender que nem tudo precisava ser dito, nem tudo manifestado… ainda assim, ainda que não dito, existiam dentro de um pequeno universo circular e bolhado de sentimento. Ao longo da vida teve seis filhos e seu parto mais difícil foi não ver nenhum crescer.
Será que em algum momento, em seu pior rompante de desespero, alguém tentou a acalmar dizendo como “a respiração que passa por trás da garganta tem som de mar”? Não que resolva, não que em algum momento ela tenha gostado do mar, mas será que ela se deu aos pequenos prazeres, aos momentos mais fortuitos e contemplativos que passaram por sua vida?
Sentia muito, pobre Berê. Sentada na sala de casa ouvindo o som dos carros que raramente passam pela rua tranquilamente, no pátio de um posto de beira de estrada entre caminhões, seu olhar vagava entre as memórias mais sórdidas do seu passado. Foi realmente sórdido escolher-se? Ver em si mesmo oportunidades infinitas de atender a todos os pecados que pode para saciar o desejo de controle, sufocar o medo de estar e ser só, para agora, com tantos anos vividos, provar a acidez do medo?
No último encontro disse a Luiz que estava cansada da vida. A frase repentina da mãe assombra o pensamento do filho, também cansado de seus repentinos fardos.
Sobre as costas de Berê pesava o mundo, até um dia decidir ir embora. Não mandou endereço, não disse em que condições sua casa atual tinha ou por quantas janelas poderiam entrar o sol… se a pequena mesa de madeira que carregava havia mesmo sido feita por ela, se a marcenaria a acompanhava agora de forma permanente, se haveria um forno para assar seu carneiro…
Quem é você Berenice, que faz as faces do que tantos homens poderiam fazer um dia, mas nunca lhe foi oportuno dizer que poderia fazer, nesse corpo que chamam de mulher e você nem sempre se reconhece?
Por onde anda Berenice?
MARIA TEREZA (1997) é nascida em Rolim de Moura – RO e residente em Vitória – ES. É formada em artes visuais pela UFES e professora estatutária da Prefeitura Municipal de Vitória. Sua pesquisa artística se desdobra da escrita para instalações de ambientes que recriam formas da cidade e espaços possíveis de morada no ambiente urbano, em confronto à sua origem interiorana.