Atlânticas – a arte pode servir como linguagem contracolonial e gramática de reparação aos corpos negros?
“Cada rua dessa cidade cinza
Sou eu
Olhares brancos me fitam
Há perigo nas esquinas
E eu falo mais de três línguasE a palavra amor, cadê?
E a palavra amor, cadê?Je suis ici, ainda que não queiram, não, ô
Je suis ici, ainda que eu não queira mais
Je suis ici, agoraJe suis ici, e a palavra amor, cadê?
Je suis ici, e a palavra amor, cadê?
Je suis ici, e a palavra amor, cadê?
Je suis ici, e a palavra amor, cadê?”Luedji Luna
Em meados de março um amigo ligado ao campo das artes me enviou uma publicação da “Art world” que trazia a informação de que a artista estadunidense Tschabalala Self, é uma das vencedoras da “Quarta Comissão do Plinto de Londres”, sua obra, uma escultura intitulada como “Lady in Blue” será instalada a partir de 2026, na famosa Trafalgar Square.
O trabalho da artista, uma escultura fundida em bronze, traz a imagem de uma mulher preta trajando um vestido azul, nos pés, sapatos de salto alto na mesma tonalidade do vestido e adornada com brincos e colar, cuja tonalidade é nominada de azul lápis-lazúli, pigmentação que tem significado histórico e que foi utilizada por diversos artistas como Ticiano e Vermeer, no texto (2024), a autora faz questão de pontuar essas referências:
“Fundida em bronze, a escultura será patinada com azul Lápis-Lazúli, um pigmento com significado histórico e ressonância simbólica que foi usado por artistas como Ticiano e Vermeer.”
Sobre a precedência da cor e dos artistas mencionados no artigo de Vivienne Chow, provoquie-me a entender o porquê da escolha tonal lápis lúzili e as referências a Ticiano e Vermeer, para tanto, três questões foram por mim levantadas:
Eis: a) qual a origem do lápis lazúli e seu valor? b) a escolha da referência aos artistas por ela mencionados e por fim, c) porque não se escolheu o azul de Klein?

Lapís lazúli – neste caso, não se trata de um lápis, mas, de um mineral, cujo significado é: pedra azul. O uso do lápis lazúli remonta há 7000 anos, segundo arqueólogos, o mineral já era utilizado pelos egípcios que o manipulava no campo das joias, amuletos, maquiagem, essa pigmentação tem um valor e significado nobre. Além dos keméticos, na Idade Média e na Renascença, o lápis lazúli foi muito utilizado no campo das artes. O mineral cunhado como lazurita era considerado mais caro que o ouro, daí porque, ser tão valorizado.
Ticiano e Vermmer – Ticiano Vecelli (+-1490-1576) foi um dos principais nomes da escola veneziana Renascentista, e um grande entusiasta do uso da lazurita nas suas obras.
Johannes Vermeer (1632-1675), pintor holandês, um grande expoente da escola Barroca, também fazia uso do lápis lazúli em suas obras, reza a lenda que o fascínio de Vemeer pelo azul ultramarino, o levou à falência ao utilizar a cor azul na obra “Moça com um brinco de pérola”.
Azul Klein – Yves Klein (1928-1962), o artista francês, na década de 60 do século XX, patenteou a cor azul, Klein, perseguido pelo desejo de sintetizar o azul do céu de Nice, cidade de seu nascimento, impulsionado pelo fascínio de obter a cor, chega em sua sintetização e passa a compor obras com ela, há muito mais histórias a ser contadas sobre esse processo, mas, não é o objeto dessa escrita.
Lady in Blue – volto à Self, cuja obra nos abre múltiplas chaves de leituras.
Primeiro, penso que não foi à toa a referência aos artistas Renascentista e Barroco, tendo em vista que nos séculos XVI e XVII, períodos que eles viveram, o mundo estava em franco processo de colonização e escravização de corpos racializados, embora o arco temporal se estendesse para séculos seguintes. O continente africano, foi o escolhido para sequestro de pessoas que foram espalhadas pelas Américas e Europa, essas pessoas passaram a ser a mão de obra não remunerada de diversos países desses continentes.
Os artistas mencionados por Self, não traziam como centralidade em suas obras corpos negros, o azul, lido como uma pigmentação “nobre” era utilizado para refletir ou enaltecer o lugar social do branco.
Sara Bartmaan – A Europa é uma invenção do terceiro mundo (Fanon), ela se funda no roubo das riquezas dos países que ela colonizou e, por conseguinte, degradando a população por ela colonizada. Para justificar e aplacar a responsabilidade e culpa, passou a criar representações do outro, Grada Kilomba vai nomear essa agência como outridade.
Os europeus, sempre buscaram construir representações de subalternidade ao entrar em contato com outros povos nesse processo de colonização ou mera espoliação, construindo um lócus binário entre superior e inferior, o branco como a materialização da superioridade e não branco como o exótico ou inferior.
Sara, foi a tradução do processo de desumanização dos corpos negros pela colonização/escravização. Nascida 1789, pertencia a etnia khoikhoi (África do Sul), foi levada inicialmente à Inglaterra para ser exibida como animal nas praças e circos, depois, levada à França, serviu como cobaia no campo da medicina que pretendia demostrar que ela era diferente das mulheres inglesas e francesas em razão das suas proporções corporais “avantajadas”, tais médicos, queriam provar com isso, que os africanos eram diferentes dos brancos, o que justificaria, sua desumanização, Bartmaan, foi a materialização do racismo cientifico. O cérebro, esqueleto e órgãos sexuais de Sara, continuaram sendo exibido no museu de Paris até 1974, em 2002, o então Presidente da África do Sul, Nelson Mandela, solicita à França a repatriação dos restos mortais de Sara, para que ela tivesse enfim, um enterro digno.

Lubi Prates, nos mostra de forma pungente esse lugar desumanizador dos corpos negros:
arrancaram meus olhos
e cada pelo do meu corpo,
cortaram minha língua.
Arrancaram unha a unha,
dos pés e das mãos.
cortaram meus seios e os clitóris,
cortaram minhas orelhas.
cortaram meu nariz.
encheram minha boca e os outros vácuos
de monstros:
eles devoraram tudo.
só restou o oco.
então, eles comeram estes restos.
limparam os beiços.
depois, vomitaram.
Volto à Lady in Blbue, o que chamou a minha atenção enquanto estudiosa das relações raciais e leitora de estudos coloniais e decolonias é a imagem da obra que será exibida no Plinto, explicito: são tantas camadas ali, a começar pelo tom da pele, uma mulher africana, a estética do cabelo cheio de símbolos, a trança trazendo a ancestralidade, demarcando origem e legado, ao mesmo tempo, o coque dando a mulher um ar moderno, contemporâneo e elegante – isso é muito simbólico, historicamente, a mulher negra é lida com “ar de desleixo, sujidade”, “falta de asseio”, esses estereótipos e repertórios, sempre foram tecnologias do racismo sendo utilizadas para desumanizar corpos negros, mesmo que o banho tenha sido uma invenção do continente africano. Ainda, na contemporaneidade, o nojo é um mecanismo de repulsa utilizado por pessoas brancas para afastar-se de pessoas negras, sobretudo, mulheres.
Portanto, ver essa mulher altiva, caminhando sem olhar para traz, com a mão esquerda estendida (como quem diz: vem junto? A mão direita, também aberta, no mesmo diálogo, vem, ninguém fica para traz) em que pese um corpo rijo, torneado, “forte”, há um contraste trazendo uma leveza, uma suavidade nas linhas do vestido, há delicadeza e doçura, opondo-se à construção do imaginário de que mulheres negras são “fortes”, “bravas”, “grosseiras”.
Outro ponto a destacar, o corpo negro não está ali para servir e nem para ser consumido ou ser exibido em praça pública para deleite ou escárnio de uma turba bestificada, mas, para ocupar um lugar de nobreza e destaque.
Os sapatos, têm um valor muito simbólico, pessoas negras quando da travessia atlântica forçada, não traziam quase nada, sapatos eram objetos de luxo, quando vemos fotos históricas de pessoas que foram escravizadas, elas estão descalças, despi-las e mantê-las nessa condição, era exercício de poder dos colonizadores.
A obra de Self, carrega uma narrativa contracolonial, restitui a humanidade às pessoas negras e não só, demarca o lugar de alteridade e insere corpos racilizados dentro do tecido social Europeu, e vai além, coloca a mulher negra como a matriz central de construção daquela sociedade. Em tempos de deslocamentos forçados e que corpos negros ainda estão lutando por humanidade, esta obra é um convite à reflexão.
Retomo a gramática do azul ultramarino utilizado pela artista em tom eloquente e que pontua que o corpo negro tem valor e é digno de beleza, infiro que a escolha do azul manejados por Ticiano e Vermeer e escolhido por ela em detrimento do azul de Klein, está implicado diretamente à colonização e a falta naquele momento de representação positiva de pessoas racializadas.
Outros vieses, que especulo em face de “Lady in Blue, é que a obra soa como uma carta de desculpas e de amor à Sara Baartman, e metaforicamente, implica na retomada do lápis lazúli que no Egito antigo/Kemet/Norte da África já era manejado por pessoas negras, ou seja, um reapropriar-se dos seus bens, aos moldes que vem ocorrendo através dos pedidos de alguns países africanos aos museus europeus da devolução dos bens que foram roubados na época das invasões coloniais.
Ocupação do Quarto Plinto – por fim, importante pontuar que esta ocupação é um marco disruptivo, uma artista negra ocupando um dos espaços mais disputado no campo da arte londrina, a Trafalgar Square, que congrega quatro Plinto, sendo que três deles são ocupados desde o século XIX por “heróis” do passado, o quarto, ficou vago por mais de 150 anos, desde o final da década de 90, vendo sendo ocupado de fora itinerante, a obra de Self, reforça toda simbologia de rejeição à estrutura colonial e um apelo pela emancipação dos corpos politicamente minorizados.
Sara Araújo (Salvador, Bahia) tem 46 anos, é bacharel em Direito, licenciada em Ciências Sociais, pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica, Analista Jurídica da Defensoria Pública do Estado do Paraná. É palestrante, sommelière de cervejas, ganhadora do Prêmio Zumbi dos Palmares (2017) pela Câmara de Vereadores de Bauru (SP), integrante da Comissão Étnico Racial Lélia Gonzáles da Associação dos servidores/as da Defensoria Pública do Estado do Paraná, colaboradora do NUDEM – Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, do GT de Racialidae da Defensoria Pública do Paraná, do GT de Diversidade da ABRACERVA e integrante do coletivo Expressão Poética desde 1999. Coautora das seguintes obras: Poetas Virtuais (2000) Poêmico – Poesia em tempos pandêmicos (2021) Mãe Pretas – Maternidade Solo e Dororidade (2021) Expressinho Poético (2022) e Quando o Racismo bate à porta (2023). É colunista da Revista Philos e você pode encontrar-la nos perfis @araujojsara e @literaturanobar no instagram!