“Poemas para antes do banho, durante o café e depois do abandono”, segundo livro da médica e escritora paulistana Mila Nascimento, aborda, sob a ótica do cotidiano, o processo de (re)construção da subjetividade de um eu-lírico feminino violentado. A poeta expõe, a partir da primeira pessoa, angústias, experiências, dores e desejos de uma subjetividade violada pelo machismo e pela misoginia. E, ao fazer isso, vai muito além da catarse da retomada da própria voz, alcançando um tom coletivo e político que aproxima o “eu” de um “nós” composto por mulheres que vivem, viveram ou sabem de alguém que  viveu experiências parecidas com as da autora, uma sobrevivente de violência doméstica grave.

Mila acredita que as pessoas querem ler o que elas são e sentem. Segundo ela, “nessa partilha a gente vai construindo uma roda imensa de afetos” e sua escrita, especialmente neste livro, vai ao encontro disso. Sua motivação para ser escritora veio do efeito das palavras no processo de reencontro com si mesma e em como o que ela cria reverbera: “O meu avesso de dor veio à tona em forma de poesia que tocou o coração de amigos, pacientes e tantas mulheres que dizem ser representadas pelo que eu escrevia.” E completa: “Escrevo sobre o que me dói, pois quando entrego ao mundo, compartilho a dor e isso transforma tanto a mim, quanto ao outro.”

vi um post bonitinho e escrevi

eu, na tempestade
escrevo com mais vontade

diante das ruínas
pego as dores e faço rimas

em meio à confusão
escrevo com mais T

e me refaço
danço em outro
compasso viro gente

outra vez
volto a sorrir
sem medo ou timidez

pego toda a destruição
e da alma, faço móvel
novo lindo e chic
de madeira de demolição

POESIA SALVA VIDAS

levanta defunto
transforma em caviar
o que era presunto

e deixa a gente feliz
reconstituído pra valer
nem parece que no outro
dia a gente só sabia sofrer

desjejum

acordei com desejo
vontade de tocar meu corpo
de ganhar um beijo

acordei com vontade
não acredito mais em amor para a
eternidade melhor viver sozinha do que
junto, pela metade

acordei com saudade
de foder com força
gemer bem alto
gozar gostoso
e sair por aí, plena pela cidade

acordei assim
gostosa e farta
fotógrafa do corpo
poeta da alma
um tanto exausta, mas Dona de Mim

no luto da morte do meu útero eu escrevi

duas semanas
que perdi
a casa que me habitava
duas semanas
que fiquei sem
a morada primeira dos filhos que pari e de
Joaquim que perdi

só sobrou essa daqui
que tem minha cama
luz elétrica
internet
comida e água
mas essa daqui não é própria!
é alugada
a pensão não dá pra nada

sabe como é
filho é feito em quatro pernas
4 paredes
às vezes 4 minutos se a gozada for
rápida e tudo bem se a mina não
sentir nada
orgasmo é coisa rara
a gente já está acostumada

filho é feito em 4 pernas
mas depois
duas saem andando apressadas
só duas ficam
embalam
cuidam da crise de asma na madrugada

só duas pernas cuidam da ferida no rosto
depois do tombo de bicicleta na lombada
só duas pernas cuidam da tristeza sem fim
que quase levou embora uma cria para o
nada

duas pernas
sigo sem útero
coluna já calcificada
duas pernas
uma cabeça cheia
um coração dado nó
duas pernas sem útero
c a n s a d a

poema para antes do banho

nua
toalha
no corpo
C O R P O
Bonito
E X A U S T O
solto
cabelo
sinto meu pelo
depilo
pra quê? pra quem?
quem foi que disse que mulher tem que ser lisa,
menina? menina tem que ser o que quiser
peluda
sem pelo
peituda
sem peito
coisa chata isso…
M U L H E R sou eu
desejo na carne
medo de outro começo
tempo
—— pausa
—————— R E S P I RA

————————— PENSA

melhor esperar
cicatrizar
tanta coisa pra curar
ferida aberta dói e apodrece
a gente adoece
finge que esquece
B O B A G E M
a gente não esquece

A gente lembra
Chora
G R I T A blasfema
O D E I A
odeia nada
não sei odiar

só sei amar
o que não sei
mas preciso saber
é aprender a me respeitar

vou me trocar
o caçula vai dormir sem jantar
mãe não pode descansar
MÃE queria GOZAR

deixa eu me vestir
levantar
vou na cozinha
preparar o jantar.

minha amiga Sarah, a poeta, escreveu sobre a
violências que, só por sermos mulheres, vivemos.

eu que tive minha coluna quebrada
minha mente violentada
minha carne espancada
minha verdade desacreditada
sei bem do que tu fala, Sarah

é tudo verdade!
a gente vira fruta podre
vizinho é mesmo omisso canalha

sobre as pernas: as minhas não mexiam
não sentia nada
sucumbi à gravidade
em uma espécie de desmaio visceral
catarse diante à realidade

casamento
planos
lealdade?
tudo loucura social
“A senhora sabe que essa história toda não é real? E
que pode acabar com a vida do Doutor fulano de
tal?”

a vida dele importava mais
imagina! coitado do nobre rapaz!
a nossa vida vale menos
mulher, louca, descontrolada
se for preta ainda, infelizmente pode ser mais prejudicada

e a gente segue sendo forte
do jeito que aprendemos
vida sangrando, quase morte
esperando e lutando por dias melhores

resgate

faço isso desde sempre
de pequena, adolescente
quando adulta, parei

muito filho, correria
para ser eu mesma, tempo eu não tinha
e dos livros me afastei

sentia uma falta danada
saudades de ler no cemitério da
Consolação ou na igreja da Voluntários
da Pátria

comprei estante
biblioteca agora, estava na sala
mas a leitura continuava abandonada

e foi só quando o casório acabou
e a minha coluna quebrou que eu pude me ver outra
vez e desafiei: VOU LER UM LIVRO POR MÊS!

foi tão bom me encontrar
me ver, me libertar
e para os meus livros, voltar

a gente precisa
perder um bocado de coisas
para entender que não precisa de metade
delas tantas inutilidades tolas
que escolheram por mim, por nós, por elas

poesia da noite depois da asfixia do dia

o beco para as minas é assim:
sem saída
mas com ECO
dos gritos

excessos de NÃO
e faltas de sim


Mila Nascimento é escritora, médica endocrinologista, sexóloga e emergencista, além de dedicar parte do seu tempo para cuidar voluntariamente de pessoas em situação de vulnerabilidade social. É autora dos livros “Poemas Paridos de Cócoras – porque assim dói menos” (Minimalismos, 2023) e o recém-lançado “Poemas para antes do banho, durante o café e depois do abandono” (Patuá, 2024).

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