No lago do peito
Secreta solidão
Eu vejo lugares
Pessoas que frequentei
Cenas que vi
Filmes que já filmei—Xingu, NoPorn
PARTE 1
Mundialmente o dia 2 de novembro abriga o feriado de Finados, dia de lembrar dos mortos. Logo ele, um feriado do signo de Escorpião. Na nossa América Latina católica, dentro de igrejas e funerárias, rumina-se no peito uma certa melancolia, sente-se a presença da ausência por todos os poros, chora-se, debulha-se, rasga-se, corta-se o fio da vida – a ligação com o corpo terrestre – com uma tesoura afiada digna das Moiras. Nossa tradição colonizada prende nosso luto em cemitérios e em caixas de madeira em tamanho humano. Seja tradição da colônia, seja do colonizador.
É assim na Jamaica, em Nova Iorque, Londres e Pequim. Paris, Tóquio, Antuérpia, Viena, Benicassin. É também em Bogotá, Cidade do Cabo, Peru, Bagdá e Berlim. Até no Xingu. Mas não no México. Como disse Octavio Paz, mexicano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, “nosso culto à morte é um culto à vida”. A relação do México com seus mortos sobe num palco de interesse, curiosidade e fascinação em relação ao resto do mundo. Enquanto o globo parece se amedrontar com a morte, o México celebra o morto.
O Dia de Los Muertos tem a receita completa de uma festa: música, comida, bebida e um brilho nos olhos indescritível ao recordar daqueles que fizeram sua paragem. Em “Coco – A vida é uma festa” (2018), de Adrian Molina e Lee Ukrich, o jovem Miguel viaja ao Mundo do Mortos para resgatar a memória de seu avô e reconectar-se com sua ancestralidade musical. Enquanto as mitologias narram grandes heróis descendo e retornando do reino de Hades, a Disney escolheu uma criança, um menino, para representar a jornada hereditária que os mexicanos embarcam para honrar e celebrar seus antepassados.
Com muita música, muitas cores, oferendas, declarações, preces e bastante bebida, Miguel descobre que a memória de seu avô – e consequentemente sua pós-vida no Mundo dos Mortos – está intrinsecamente relacionada à sua lembrança no Mundo dos Vivos. No filme de animação, a manutenção da permanência dos Mortos no pós-vida, assim como a condição dessa permanência, é feito pelos vivos, durante os festejos do Dia de Los Muertos. Ao falar seus nomes, ofertar-lhes suas comidas preferidas, as bebidas que mais gelavam suas gargantas e tocar suas músicas preferidas. Principalmente ao falar seus nomes. Liana Padilha.
PARTE 2
Conheci Liana Padilha nos baixos dos meus dezesseis anos, em volta da piscina do Copacabana Palace, poucas horas antes de uma performance de seu duo NoPorn. Apresentado por Mirella Penteado, jornalista que fez sua paragem em 2014, eu, um moleque ainda no Ensino Médio, ouvi da boca de Liana sua epopeia para transformar seu amor e seu luto na morte do primeiro marido em festa. Naquele fim de tarde, logo antes do sol se pôr, eu, já fã do álbum de 2006, ouvi na voz doce da poetisa sobre seu processo de ressignificação da morte e como sua cura aconteceu na pista de dança.
“Tudo de novo no front” é, antes de ser sobre uma cena abstrata, é sobre seus agentes. Liana era a agente. Este projeto existe, em partes, porque a poesia de Liana e a música do NoPorn existem. Não éramos amigos mas, de tempos em tempos, quando cruzamos em pistas afora nos últimos catorze anos, ela me dizia com sua voz doce: “nossa, como você cresceu”. E eu ganhava um beijo no rosto com suas mãos delicadas em volta do meu pescoço.
Liana é hipnotizante. Digo “é” porque, assim como em “Coco”, é de responsabilidade coletiva manter sua paixão acesa, vibrando, ecoando pelos palcos que o NoPorn ocupou, em todos os inferninhos que Liana se divertiu, em todos os paraísos que Liana criou. Com pose de rockstar, Liana é uma das poucas unanimidades. Nelson Rodrigues disse que “toda unanimidade é burra” mas a unanimidade de Liana, não. Com suas palavras afiadas como quem escreve com a ponta de um canivete, a poesia cantada do NoPorn abriu ao meio caixas torácicas dos que vieram antes e dos que estão chegando na pista agora. E que pista, hein, Liana. Me programaram pra você brincar comigo.
“Tudo de novo no front” é uma declaração ambígua: de revolta com São Paulo, de amor aos DJs. Liana e o NoPorn começaram como DJs – veja só! – no finado (e até hoje comentado) clube Xingu. De lá pra cá, foram quatro álbuns de originais e um ótimo de remixes, lançado no ano passado, que reúne as duas gerações impactadas, bombardeadas e descabeladas com suas performances, de Las Bibas From Vizcaya e Andrea Gram, à Badsista, Bassan, Alírio e Guza.
É um legado muito bonito. Poucos podem dizer que fizeram o que Liana e o NoPorn distribuíram nos vinte e dois anos de carreira. Fizeram rir, fizeram chorar, no front do NoPorn tudo podia acontecer. Na verdade, tudo aconteceia. E ainda pode. Nada é simples e nada é pouco quando “Xingu” começa a tocar. Que assim seja. Meu amor é seu, Liana.
São Paulo é digna de muitas reclamações, ódio mesmo. Essa aquariana às vezes apaga a luz dentro da gente. (Hoje, quinta-feira, 21 de março de 2024, metade do centro da cidade está em penumbra, graças ao descaso da italiana Enel e do prefeito Ricardo Nunes. Você sabe onde ele está?). Uma coisa que me hipnotiza e me mantém aqui é a oportunidade de dividir a cidade com músicos, pintores, poetas, cineastas, DJs, produtores e performers que admiro e o privilégio de acompanhar a evolução de seus trabalhos.
Aos que estão aqui de corpo e arte, aos meus contemporâneos, que vivem essa cidade para além de toda essa angústia homogeneizante, que insistem nas suas artes como quem precisa disso para viver: é um prazer dividir este tempo com vocês. Digo seus nomes sempre que posso. Hoje, infelizmente, digo o dela. Liana Padilha.
Alexandre Mortagua é carioca, Escorpião com ascendente em Touro e gosta de dançar. “Tudo de novo no front” é seu terceiro projeto de longa-metragem. Também é uma extensa pesquisa sobre a noite queer do centro de São Paulo. Escritor, diretor, roteirista e produtor executivo, Alexandre realizou os filmes “Todos nós cinco milhões” (2019), “Ritual na Bahia” (2021) e “Quando o manto fala e o que o manto diz” (2023). Pela Philos, publicou sua estréia na literatura, “Aqui, agora, todo mundo” (2022) e prepara seu novo romance “Anuário” (2025).