Tão sinistro quanto a violência que marca as vidas e as mortes de 4,9 milhões de negros escravizados trazidos ao Brasil é o silêncio da história ante toda a herança racista e patriarcal que permanece até os dias de hoje”. Mauro Trindade, curador

“Vendo a imagem das folhas voando em volta da minha figura pictórica, penso que sou o sonho de meus ancestrais.   Sou uma mulher preta que realizou, estudou, que é remunerada e reconhecida pelo meu trabalho, me locomovo, tenho a liberdade de ir e vir com altivez. O estudo te dá isso.  Gerações após gerações de gente corajosa e resiliente me trouxeram até aqui.Luana W. Cotrin Negreiros, personagem retratada em três telas na exposição

O Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), oficializado recentemente Patrimônio Cultural da cidade do Rio de Janeiro, celebra seus 19 anos com uma exposição imperdível da artista visual Fátima Farkas, “Será o Benedito?”, com curadoria de Mauro Trindade.

Com cerca de 32 telas impactantes, a mostra traz à tona personagens marcantes das lutas raciais, muitos dos quais foram esquecidos devido à herança racista e patriarcal. Farkas utiliza sua pintura expressiva para reconstruir a memória, utilizando-se de retratos fotográficos de negros. Um exemplo é Benedito Caravelas (1805-1885), também conhecido como Benedito Meia-Légua, líder de grupos quilombolas que libertavam escravos no Nordeste e no Espírito Santo. A artista se inspira em fotografias antigas, como a de Alberto Henschel, para dar vida a esses personagens históricos.

Outros retratos notáveis incluem figuras como João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, Luiz Gama, Nzinga, rainha de Ndongo e de Matamba, e o premiado arquiteto burquinês Diébédo Francis Kéré.  Farkas também denuncia o apagamento histórico ao substituir rostos por vegetação ou por um vazio branco, representando o sumiço de corpos e vidas. Para Mauro Trindade, curador da exposição:

Fátima Farkas revela esse processo de apagamento e, numa ação estética e política, propõe uma reelaboração da memória através da apropriação de retratos fotográficos de negros que recria, com beleza e dignidade, grandes personagens do passado e do presente. Esta exposição, que aborda temas tão relevantes como o esquecimento e a memória, oferece uma oportunidade única para se emocionar e refletir sobre essa parte crucial da história brasileira. O público é ainda recebido com uma fragrância no ar, evocativa de elementos como café, ouro, fumo e cana, que constituíam a rotina da maioria dos escravizados.

João Cândido Felisberto, obra de Fatima Farkas.

“Será o Benedito” estará em cartaz no Instituto Pretos Novos até 20 julho de 2024.  Além de celebrizar os 19 anos do IPN, a mostra também marca os 250 anos do sítio do Cemitério dos Pretos Novos, um dos mais importantes vestígios da chegada dos africanos escravizados no Brasil, que funcionou entre 1774 e 1830.

Fatima Farkas tem sua origem profissional ligada ao design, migrando depois para as artes visuais. Seu trabalho tem forte ligação a questões brasileiras étnicas e culturais, especialmente do Recôncavo Bahiano. Com formação entre o Rio e São Paulo, frequentou a escola do Parque Lage e integra o grupo Contraponto, reunido no ateliê de Sérgio Fingerman.

Serviço: Exposição “Será o Benedito”, de Fátima Farkas, em cartaz até 20 julho de 2024, no Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, Rua Pedro Ernesto, 32-34, Gamboa, Rio de Janeiro.

Avatar de Desconhecido
Publicado por:

Um comentário sobre ldquo;Fátima Farkas —Será o Benedito?

  1. Muito lindo e interessante este entrelaçar da arte com a história de um jeito tão belo e sensível!

Deixe uma resposta