Retrato de artista quando
1. Na revista
Escrever numa revista, principalmente on line, é colocar-se em diálogo. Também é apresentar e apresentar-se a um coletivo aberto e em processo de pensares, fazeres, olhares, leituras, escrituras. A Philos, latina, neolatina, tece uma espécie de Q’eswachaka, ponte de cordas construída pelos incas que é constantemente re-tecida. Em revista: o perecível e o que permanece: arte, acontecimento, pensamento, criação, cultura. Muito além da informação. A Philos é uma ponte entre línguas, linguagens, produções, autorias, passados e futuros. Um presente que não se esgota ao ser aberto, mas se multiplica, como um espetáculo de variedades. Muito bom estar aqui.
Algum dia pensei que o paraíso, mais que uma biblioteca, seria uma banca de jornais e revistas. O mundo inteiro parecia estar ali, e podíamos recriá-lo segundo uma ordem própria. O jornal e a revista foram fundamentais para a literatura contemporânea. Jogo de armar, atualidade, proposta que, reapropriada, serve de modelo para as publicações na internet. Outro jeito de ler e de escrever: em rede. Tudo se transpassa, se recompõe: ideias, ficções, informações, criação visual, gráfica, sonora. O virtual, neste caso digital, é espaço onde estamos, vivemos, resistimos.

Ainda. Afinal muitos passaram de uma visão otimista, derivada de certa euforia liberal do final do século XX, a um pessimismo expressado na ideia de que já chegamos ao futuro, de que tudo já foi dito e que os meios digitais são uma ferramenta de controle totalitário. No entanto, continuamos. Estar aqui é também desafiar os poderes e as perspectivas simplistas. Há vários anos, escrevemos um artigo sobre temas afins, evocando Umberto Eco. Parte desta reflexão continua atual.
2. Em primeira pessoa
A primeira pessoa literal, ou literária, aquela que tudo vê, tudo sabe, idealmente no centro da história e capaz de narrar de forma neutra e objetiva, ou dar esta impressão, é uma criação da modernidade, modo de vida e produção social que se expandiu a partir da Europa nos séculos XVI-XVII por meio de estratégias bélicas, econômicas e culturais. Daí o “homem” centro, a mente centro, o burguês e o ocidental centro. E a separação entre sujeito e objeto. O romance normal, ou mesmo “normativo”, é um poderoso produto desse contexto.

No último século, também como consequência da mundialização, passamos a perceber que há muitas primeiras pessoas, muitos “centros” narrativos possíveis, muitas histórias (da vida cotidiana, das mulheres, dos ricos, a deles, a nossa, a minha etc). Que sujeito e objeto não estão separados. Que o “sujeito” é apenas um entre muitos possíveis. E que a modernidade não é a única forma válida de pensar e conhecer.
Estamos conectados, em cada um de nós há várias primeiras pessoas, passadas, em processo, futuras, outras. Por isso fazem sentido as histórias, a literatura, a arte, com todas as modificações que possam ser agregadas a estes termos pelos processos de apropriação. Porque nos reconectam. Virtualidade: aquilo que dá corpo a um outro em nós.
Aqui e agora há muitas literaturas. A cada uma corresponde uma lógica. Falar de literatura não se restringe a uma lista de obras e autores, mercado, tendências, discursos. Mas pensar corpos e palavras em processo, vivos, modificáveis, vulneráveis.
3. Nas literaturas

Delírio comum: imaginar que os outros são como figurantes, ou hologramas, que fazem parte de um ambiente, personagens fixos de uma trama da qual somos narradores ou protagonistas. Esta ideologia da representação está na raiz da literatura normal e normativa que vê os outros como parte do objeto, da natureza e da contingência a ser dominada pela história, pelas histórias.
Outra percepção delirante: obras coletivas em que todos se tornam autores em algum momento. Na contramão da noção de autoria individual como propriedade privada das ideias: processos.
4. No tempo
Sou velha. Há tempo suficiente para ter sido discriminada por isso. A ânsia do novo, de ser jovem, de estar na moda, no caso do meio acadêmico e literário de ser o produto cultural do momento, às vezes impede perceber que nada envelhece mais rápido do que as “tendências”.
A cultura dominante tende a desprezar o velho em nome do novo, como se estas duas palavras carregassem uma acepção moral.
Tomar o tempo somente como linear leva a idealizar o passado e à sensação de que o mundo que fazia sentido, aquele em que nos reconhecíamos e projetávamos futuros, não existe mais. Ou ao equívoco de que o “velho” precisa ser substituído pelo “novo”, supostamente melhor.
Nem sempre e nem em todas as culturas foi assim.
O substantivo modernitas, com os adjetivos contrapostos moderni/antiqui, vem sendo utilizado nas línguas europeias desde a Antiguidade tardia em um sentido cronológico. Já o adjetivo moderno substantivou-se bem mais tarde, em meados do século XIX, utilizado no terreno das belas-artes. Até hoje, o núcleo semântico de tipo estético, cunhado para a autocompreensão da arte vanguardista, acompanha a expressão “moderno”.
[Jürgen Habermas, O discurso filosófico da modernidade. Não textual].
Sou velha. O suficiente para perceber o tempo de muitas maneiras, não apenas como linearidade e progressão. Há infinitos tempos no tempo. Para citar alguns: o tempo que está começando e terminando segundo o ponto de vista, o tempo da criação, o tempo da experiência, o tempo de cada um, que também não é “só um número”.
O “velho” Cortázar diz;
“Siempre seré como un niño para tantas cosas, pero uno de esos niños que desde el comienzo llevan consigo al adulto, de manera que cuando el monstruito llega verdaderamente a adulto ocurre que a su vez este lleva consigo al niño, y nel mezzo del camin se da una coexistencia pocas veces pacífica de por lo menos dos aperturas al mundo. Esto puede entenderse metafóricamente, pero indica en todo caso a un temperamento que no ha renunciado a la visión pueril como precio de la visión adulta, y esta yuxtaposición que hace al poeta y tal vez al criminal, y también al cronopio y al humorista (cuestión de dosis diferentes, de acentuación aguda o esdrújula, de elecciones: ahora juego, ahora mato), se manifiesta en el sentimiento de no estar de todo en ninguna de las estructuras, de las telas que arma la vida arma y en las que somos al mismo tiempo araña y mosca’”. —Julio Cortázar, La vuelta al día em ochenta mundos
5. Nos seus sapatos
Estes dias, eu e um amigo, em cidades diferentes, encontramos sapatos jogados na rua. Várias vezes. Fotografamos alguns, refletimos sobre a presença dos sapatos no cotidiano, na arte e suas múltiplas representações. Sapatos que perderam seus pés, de cristal, vermelhos, de ferro, de Cinderela. Os escolares, os de andar em casa e os de sair. Os de fetiche, os de Van Gogh, os de Dalí, os de Magritte, os de Wharrol, os de Luís XV. Os da arte contemporânea e os de marca falsificados, encontráveis em toda parte. Os que o meu pai não teve na infância. As sandálias brancas que outro amigo abomina, antifetiche. As do pescador, do pecador e as de um egípcio antigo conservadas no museu. As asas nos pés de Mercúrio. Os pares que sobram no meu armário. Os que não têm par. Um sapato velho para um pé cansado. Metonímia. Andamos estes dias com os pés na cabeça.
Assim o começo da criação. E vocês? Têm histórias com sapatos?
6. Outro
Manhã de domingo num hipermercado. Dois homens, um idoso em cadeira de rodas, o outro jovem. Este está irritado. Grita com o senhor da cadeira: “Pô, ir ao banheiro? Não consegue segurar até chegar em casa? Por isso não dá para sair com você.” A expressão do velho.
Esta coluna anda na rua, muito mais do que nos espaços fechados, exclusivos. Aqui estarão vozes, caras, ideias, obras, linguagens, falas de outros que encontramos no caminho. Que seja proveitosa a viagem. Nos vemos em junho.
Maria Alzira Brum Lemos é escritora bilingüe, com obras em português e espanhol. É Doutora em Comunicação e Semiótica e tem formação em História e Filosofia da Ciência. Criadora e coordenadora da Oficina-laboratório de criação e desenvolvimento de textos. É tradutora e professora. Realiza obras e performances coletivas com diferentes grupos, materiais e propostas. Publicou, além de diversas obras coletivas, A ordem secreta dos ornitorrincos (Brasil, Amauta, 2008, Peru, Borrador, 2009, México, Aldus, 2014), Novela souvenir (México, Fonca-Santa Muerte Cartoera, 2009 e 2013 Editorial, 2014 e Peru, Punto de Narrativa, 2010) y No hacerlo (México, Librosampleados, 2014). Foi curadora, entre outros, do projeto “Américas transitivas” (Zoona), realizado em Curitiba e Foz do Iguaçu em 2017. Mora entre Cidade do México e Curitiba.