Tesãozinho Inicial & Sangra Muta
27 de abril 2024

PARTE 1

O centro da cidade de São Paulo é palco de contrastes cada vez mais acentuados entre o horário útil e o horário agradável desde a ditadura civil-militar. A contar da construção do Minhocão, em 1971, pelo ex-prefeito Paulo Maluf, indicado ao cargo pelo ditador Costa e Silva; o centro da cidade parece seguir um plano de limpeza social que atravessa gestões e ideologias políticas.

Mesmo após o período de supressão de direitos, a prefeitura da cidade de São Paulo parece se dedicar a seguir os planos de grandes corporações, seja por ações do Executivo ou na constituição de seguidos Planos Diretor(es). Em 1987, por exemplo, o delegado José Wilson Richetti vomitou o ódio à população trans para a institucionalidade do Executivo por meio da Operação Tarântula. Promovendo “rondões” que perseguiram, encarceram e assassinaram aos corpos dissidentes que ocupavam a cidade, como foco “especial” no quadrilátero da prosituição do bairro da República, a Operação perseguiu os corpos que desafiavam o número 2 da identidade e expressão de gênero que ocupavam as ruas do Arouche, Bento Freitas, Major Sertório e Amaral Gurgel.

29 anos depois, João Dória Jr. (atentar-se ao Júnior) foi eleito depois de dizer que o centro da cidade de São Paulo era um “lixo vivo” com “16 mil pessoas na rua”. A virada para o ano de 2017 foi marcado pelo publicitário-palhaço vestido de uniforme de gari cercado de fotógrafos, com uma vassoura em punho, e a apresentação do programa Cidade Linda, que previa uma série de atividades de “limpeza” e “zeladoria”. A briga do prefeito Júnior com os corpos vulneráveis da cidade começou na Praça 14 Bis, na região central, que abriga(va) população em situação de rua. Para a Revista Galileu, a antropóloga Gabriela Leal afirma que “As cidades são marcadas por uma diversidade de visões, o que gera conflitos mas também provoca inventividades. Quando se busca impor uma única visão, está se declarando guerra à diversidade de formas de viver e experienciar essas cidades”.

Quem lembra da “gente diferenciada” do bairro Higienópolis que, em 2011, protestou contra a construção de uma estação de metrô no bairro? Ou dos “rolêzinhos”, em 2013, em parques e shopping centers? Não podemos esquecer do Cidade Limpa, de Gilberto Kassab, em 2006, para entender a linha do tempo do pensamento econômico – e nada além disso – que rege a cidade desde então. Sérgio Magalhães, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), disse em entrevista à Galileu que “o espaço público é o espaço das diferenças, onde é possível o encontro com o que não é igual a nós. À medida que se rejeita a diferença, estamos rejeitando o próprio conceito de cidade”. Quais as possibilidades apresentadas a se defender o conceito de cidade desde então?

Atravessando o oceano Atlântico, a cidade de Londres e sua suposta civilidade colonizadora, instalou mais de 3 mil aparelhos conhecidos como “mosquitos”. O dispositivo eletrônico emitia sons em uma frequência que só podia ser ouvida por pessoas com menos de 25 anos. O propósito era impedir que os “garotos” se reunissem em determinados locais. Com uma revolta contra-viralatista na cabeça, o que estão pensando, por todo o globo, os chefes do Executivo para integrar suas juventudes e os corpos dissidentes à Cidade? Com C maiusculo mesmo.

A ativista e teórica americana Jane Jacobs, em seu livro Morte e Vida das Grandes Cidades, analisou as metrópoles americanas e concluiu que os subúrbios “morrem” durante a noite e os centros “morrem” durante o dia. Trabalhadores que atravessam a cidade para dedicar seu dia ao Deus do Dinheiro veem o êxodo diário com maior nitidez. Enquanto os estabelecimentos comerciais do centro criam uma concentração demográfica de pessoas, as periferias são esvaziadas de seus trabalhadores, num movimento sanfona, em 2024, facilitado por mecanismos como os corredores exclusivos de ônibus.

Os subúrbios? Aqueles de muros altos e sistemas de segurança hiper tecnológicos? Fecham-se cada vez mais em suas academias privadas, seus mercados privados, suas milícias de segurança privadas, enquanto toda a socialização com o resto dos mortais também vai privada abaixo. Para a Revista Galileu, a professora das faculdades de arquitetura da USP e da Unicamp diz que “nós precisamos proteger essas pessoas que vivem em condomínios fechados delas mesmas”. Jura? Conta mais! “É preciso saudar a diversidade e os conflitos que aprofundam a democracia”, conclui ela.

Nos últimos 35 anos, enquanto representantes de diferentes ideologias políticas sentavam no conforto de seus assentos no Palácio do Anhangabaú, o padre Júlio Lancellotti alimenta, acolhe e, dentro das realidades possíveis de uma instituição arcaica como a igreja católica, emancipa uma parte da população empurrada às margens. Contra a fome e a arquitetura hostil, padre Júlio é o megafone que resiste em vocalizar a necessidade de não se abandonar os famintos, os desabrigados, os neuro divergentes e os corpos marginalizados por suas identidades de gênero. Sim, a ideologia do padre também inclui o acolhimento à nós LGBTQIAPN+. Não é o caso de defender a igreja católica não, viu? Isso é posição individual do religioso, embora seja o mínimo que se espera dos defensores do cristianismo. Deus veio para todes.

Territorialidade queer é formada pela relação entre o lugar e as manifestações nele presentes. São Paulo, dita civilizada e industrializada, incorpora as contradições do sistema e traz as desigualdades sociais que corroboram a segregação espacial. Para além da segregação econômica, a cidade linda de São Paulo impõe aos corpos que desafiam a heteronormatividade um berço esplêndido nos bairros centrais. O controle dos corpos LGBTQIAPN+ é de esquerda, de direita, centro, em cima, em baixo, puxa e vai. Em teu seio, ó liberdade, São Paulo.

Os usos e atividades dos centros das cidades são permitidos ou proibidos pelo poder público. A territorialidade queer do centro de São Paulo, nesse contexto, carrega as mortes da Operação Tarântula e as tecnologias de aquilombamento das travestis que resistiram às ações do delegado José Wilson Richetti em 1987. Ação e reação. Enquanto nos cobrem daqui, nos descobrimos dali. O de cima continua subindo e o de baixo continua descendo em 2024.

Embebidos de suas revoltas, coletivos e agentes de cultura e arte LGBTQIAPN+ configuram os espaços do Centro Antigo do jeito que querem e como conseguem para produzir espaços de afirmação de suas identidades e negação das identidades que, diretamente, os suprimem. A chamada “Região Moral”, essa zona delimitada que estamos falando aqui, são as zonas onde os prazeres próximos à ilegalidade encontram espaço para respirar. E de prazeres a Tesãozinho Inicial entende bastante.

PARTE 2

O palacete do Carmo, construído no início dos anos 1920, descansa suas ruínas entre as ruas Venceslau Brás e Roberto Simonsen, na Sé. Ruínas que foram coloridas de brilho, purpurina e bunda de fora na última edição da Tesãozinho Inicial, em colaboração com a Sangra Muta. Foi lá que a Namoradinha da Libido colocou mais um de seus pontos de interrogação para perguntar: O QUE É BOM PARA A MORAL? Um grande beijo para a eterna Rita Cadillac.

Pedro Athie, um dos produtores do tesão, abriu a pista de seu aniversário do jeitinho que sua Tesãozinho gosta: misturando funk, Gonzaguinha, altos e baixos batimentos por minuto, para um público que chegava aos poucos na pista dos fundos do palacete.

Kaim, abrindo os trabalhos da pista à céu aberto, fez os pés mexerem com hits em versões aceleradas como “Hey Hey”, do americano Dennis Ferrer, “Shambaralai”, das donas do (meu) mundo Irmãs de Pau e “Satisfaction”, de Benny Benasi, e “Wannabe”, das Spice Girls. Bem no estilo Tesãozinho.

Nair seguiu o embalo na pista dos fundos abrindo seu set com um sample de “Triumph of a Heart”, da Bjork. Sabe o clipe que a cantora islandesa dança com seu gatinho? Então, essa mesma. Para além dos ecos e gritos (alguns vindo de mim), Nair encheu o salão e os recém-chegados da Novo Affair encontraram uma extensão da pista que tinham acabado de sair.

Trazendo sua “sauna masculina” diretamente de Berlim, DJ Saliva e CEM fizeram da Tesãozinho Inicial sua própria Herrensauna. Com um dedo no cue e o outro no gato, os BPMs acelerados dos moços deram um bom match com as expectativas do público. Além do bom som – foram duas horas de um ótimo back 2 back -, os DJs criaram um clima de mamação no fumódromo descoberto dos fundos. Isso é bom para o moral.

Prado recebeu as CDJS de Kaim com o hit atemporal “Say my name”, de Destiny’s Child, ainda tocando. Foi quando a pistinha ficou mais abarrotada e ficou assim até o DJ ejetar seu pendrive. Seu selo Subliminar reúne muitas das características de seu set na festa. Vai atrás que vale a pena.

Fotos de @eduardfilh para a coluna Tudo de Novo no Front!

Encerrando a festa e a pista dos fundos, ERAM estava feroz, decidida a romper o aparelho psíquico dos pés cansados e ouvidos abertos que agora dançavam com algum conforto numa pista que se encaminhava para o fim. Foi de “Something”, dos belgas Lasgo, à “Beautiful girls”, de Sean Kingston. Atitude de rockstar.

A Tesãozinho se constitui na mistura e na exaltação dela. É difícil juntar pagode e techno num mesmo line up e a parada libidinosa faz isso com maestria. Seja no Vale do Anhangabaú, onde ocupa com frequência com seu formato na rua, seja em palacetes decadentes, o tesão inicial se mantém até o final junto de uma vontade revigorante de produzir territórios e se esbanjar de prazer. Com bastante calor na virilha, a Tesãozinho faz uma linha no chão com a ponta dos dedos do pé e esbanja sua volúpia, caminhando com seu grupo recorrente de colaboradores.

Foi bom pra mim, foi bom pra você. Acenda um cigarro e espere comigo o anúncio de mais uma zona temporal autônoma do tesão.

P.S.: a Sangra Muta merece um texto só para ela. Em breve a gente se vê, Sandrinha.

Fotos de @eduardfilh para a coluna Tudo de Novo no Front!

Alexandre Mortagua é carioca, Escorpião com ascendente em Touro e gosta de dançar. “Tudo de novo no front” é seu terceiro projeto de longa-metragem. Também é uma extensa pesquisa sobre a noite queer do centro de São Paulo. Escritor, diretor, roteirista e produtor executivo, Alexandre realizou os filmes “Todos nós cinco milhões” (2019), “Ritual na Bahia” (2021) e “Quando o manto fala e o que o manto diz” (2023). Pela Philos, publicou sua estréia na literatura, “Aqui, agora, todo mundo” (2022) e prepara seu novo romance “Anuário” (2025).

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