Para Fabíola Farias, Cleide Fernandes, Daniela Chaves Figueiredo e Samuel Medina
Uma cidade pode ser pura trama de amigas e amigos. Afetos e enredos em Havana, Bogotá, São Paulo, Belo Horizonte fazem de mim uma pessoa de raízes nômades, árvore em busca de iguais, mapa engenhoso sob a terra. Meus engenhos são letra e papel, em fiel persistência de propósito. Mínima parte de uma boa trama, na qual indivíduos persistentes e visionários têm lutado por políticas públicas que garantam o direito de todas as crianças ao domínio da tecnologia da leitura e da escrita e da consequente fruição literária que tal competência propicia, vejo esse mapa em crescente expansão.
Tomando a trama de Belo Horizonte, começo por lembrar a criação, nos anos de 1990, do CEALE, Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita, órgão da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, que tem possibilitado uma atenção singular à alfabetização e à literatura que crianças e jovens leem. Graça Paulino e Magda Soares, pensadoras admiráveis, advogaram a causa que hoje é contemplada com farto reconhecimento. Outras antes delas terão aplainado o caminho para o que, na visão de Antonio Candido, é um dos direitos humanos.
Três nomes, e de muitos mais é feita a rede que tem transformado, de forma revolucionária, uma realidade brasileira pautada na mentira política e na desigualdade social. A biblioteca pública é, ao lado da escola, espaço indispensável nesse processo e boa testemunha dele. Pois estava em Beagá (como os amantes chamam esta cidade) e uma amiga me convidou para uma ação na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, que partilha espaço com o Centro de Referência das Juventudes, na história Praça da Estação. Sábado de manhã ensolarada e o punhado de pessoas, crianças e os adultos que as levam, na biblioteca para ouvir Paulo Fernandes, um bom narrador de histórias, e Gelson Luiz, o músico a acompanhá-lo. Atenção máxima do público, apesar das atividades (ruidosas) em curso no espaço ao lado.
Não só as crianças desfrutavam do que a biblioteca oferecia a elas. Também os adultos, as fisionomias entregues ao poder narrativo e à afetividade musical, mostravam a fruição, sem pudor ou cuidado. A amiga me chamou a atenção para o avô junto à neta, habitante embevecido da pequena aldeia em que o griô era o senhor do tempo. Próximo a nós, o homem em situação de rua, inquieto, mas capaz de emprestar a atenção por uns bons trinta minutos à história do ogro que tinha medo de escuro e por isso roubou as estrelas para alumiar sua caverna, do menino chinês que levou a verdade num pote vazio para o imperador e o mito de origem do peixe-boi. Sorria, movia a cabeça, mais dançando que concordando. Inevitável perguntar: o que mais foi tirado dele, além de tudo que se sabe?
Essa é uma questão recorrente nos caminhos da Latinoamérica. A amiga que me convidou para a fruição daquela manhã, me falou de dona Marília, também uma pessoa em situação de rua, que surpreendera-a, um dia, ao dizer: “Graciliano Ramos é o dono da literatura”. Que potência nessa frase, que forte história de leitura pressentida na vida de dona Marília.
Tomadas por tudo isso e pela força da experiência de que participávamos, apesar de muito vivenciada por nós, a conversa em voz muito baixa se fez inevitável. “Não custa muito manter uma biblioteca. Menos que um show desses que fazem toda hora.” “Custa muito, minha amiga, muito. A longo prazo, muda a ordem desnatural das coisas. O poder sabe disso.”
O poder sabe e, quando quer, investe. El Tunal, Medellín, Virgilio Barco; Biblioteca de São Paulo, Biblioteca Parque Manguinhos, a biblioteca mesma em que estávamos, são algumas citações obrigatórias e, sem alusão ao óbvio, com muitas histórias para contar. Fico com a biblioteca de São Paulo, ressignificação de um espaço marcado pela tragédia da injustiça social, o antigo presídio Carandiru. Faz alguns anos, havia chegado bem cedo para participar de um evento e vi a fila de pessoas em situação de rua esperando a biblioteca abrir. O que esperavam, em verdade? O acesso a um painel com avisos de empregos, a possibilidade de receber orientação para elaborar um currículo e poder concorrer a algum dos anúncios, o acesso à Internet para se comunicar com a família distante.
Isso leva à conversa com outra amiga, falando da visita à Biblioteca Gabriel García Márquez, em Barcelona. Eleita Biblioteca Pública do Ano pela Federação Internacional de Associações e Instituições de Bibliotecas em 2023, destaca-se nela a condição de ser um “terceiro espaço”, ou seja, ir além de uma coleção de livros à disposição do usuário, e mostrar-se “um lugar em que as pessoas possam estudar, trabalhar e interagir socialmente” [1]. Impõe-se então o conceito de serviço, na mira das bibliotecas contemporâneas. Serviço, por estarem ao dispor das comunidades, contemplando suas demandas, tornando-se, como diz a diretora Neus Castellano, “uma biblioteca muito desejada”.
Ser uma biblioteca desejada. Borges diria ser isso o pleno do paraíso.
Nossa conversa furtiva terminava, entre pausas da história narrada. “Tudo feito à unha”, diz a amiga. Respondo: “E que coisa, na história da humanidade, que tenha relevo para a humanidade, não é feita à unha?”
Feita à unha, a América Latina. Contra a colonização, com as mãos, sem armas, como diz o dicionário. E sem perder seus belos horizontes.
Nilma Lacerda é doutora em Letras, com pós-doutorado em História Cultural. Presente na publicação da Casa Philos, 37 escritoras neolatinas contemporâneas, escreve ficção que adultos leem, ficção que crianças e jovens também podem ler, ensaios e obras de cunho acadêmico. Foi professora da Universidade Federal Fluminense e, em sua carreira literária, tem recebido vários prêmios e distinções, dentre os quais o Prêmio Jabuti, o prêmio Rio e o selo White Ravens. Com obras publicadas na América Latina, é também tradutora e colaboradora de periódicos literários. Acesse o site oficial nilmalacerda.com.br e siga a colunista no instagram e facebook.