Pardais, Edna, não estão bons, estão? Algo errado neles, não encaixa. Alguém que pronuncie meu nome hoje já está morto ou no limiar do esquecimento. Perseu trouxe esse destino, lâmina e espelho que revelou minha imagem, traição inevitável. Ele, otário, acreditava em prestígio, heroísmo, trajetória. Heróis iguais humanos, buscando vitória para justificar caminho. Não compreendem, Edna, hierarquia das mortes transforma homens fracos em pedra. Concreto, eternidade vazia. Você pergunta se não estou satisfeita com pardal? Não como serpente que é você, Edna, que na discórdia encontra gesto sincero. Meus olhos não blasfêmia, reflexo da minha condição – Medusa que nada esconde, revela medo.

Nessa altura da vida, aprendi a ler ecos dos berros jogados na caverna. Marcha, passos desajeitados, tempo falso, eco da larva. Larva transforma tudo em pó, devolve matéria ao início. Edna, verdade, lembro ser menina, lembro escamas caindo dos cabelos, rosto seco, lembrança recusa morrer. Medo da luz, inevitável. Monstruosidade encontra forma. Dizem que deus qualquer – desses de segunda linha – defecou no crucifixo e, desde então, cristão beija metal, deus goza. Honestamente, Edna, bobagem conversa de salvação. Salvar do quê? Vi séculos, senti dureza, crueldade dos olhares humanos, entendi que nada há para salvar. Pedrinhas, estátuas que deixei no mundo, contam histórias mais verdadeiras que Ilíada ou Odisseia do velho Homero. Homero virou pedra, capturado no instante que capturei o mortal nele.

História de Homero virar pedra vale contar. Alimentava meninas, Edna, Joyce, Agna, Marta, cada uma com apetite próprio. Homem bateu na porta, não hesitei. Sabia o que queria e continuei com pardais, você, Edna, alimentava-se deles, sem dor, homens gostam de piedade por criaturas frágeis. Veio buscar minha cabeça, como todos. Veio vendando olhos com dedos trêmulos, humanos não suportam impotência. Querem história que justifique, relato que conceda sentido, nota de rodapé em teses que deixo às traças. Agna e Joyce fizeram pazes, enroladas uma na outra.

Fim, Edna, tudo resignação. Mundo lá fora, barulhento, mundo dentro, única constância que vale explorar. Homero falava de epopeias, viagens, heróis condenados. Prefiro pequenas jornadas – poucos passos ou nenhum. Ficar aqui, entre estátuas, entre iguais. Elas, diferentes dos humanos, não perguntam sobre redenção, não buscam sentido. Aceitam imobilidade. Edna, pergunta do pardal. Digo, Edna, pardal é reflexo do que fui obrigada a me tornar. Serpente – que se enrosca na própria existência, que provoca, destila veneno – não interessa pássaros. Serpente, Edna, sabe que gesto brusco encontra sinceridade. Eu, que fui tantas coisas, sou resto do que não puderam destruir.


Victor Grizzo

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.

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