Naquele dia
a magia desencarnou
A purpurina da vida
virou ruído
a amedrontar meus ouvidos
A blusa branca do uniforme
encharcada das águas
que escorriam de mim
Meus olhos borrados
não viam futuro
nem fim
Um pavor subiu meu corpo
Invadiu minhas fronteiras
virei oceano
Não que me sentisse
gigante
Sentia-me
engolida
à deriva
Delirante
vi minhas ondas serem contidas num copo
Um pequeno copo
nas mãos da Dona Morte
Eu era menina-mulher
e naquele instante
tive certeza que jamais
teria sua permissão de ser
Mulher-menina
Lembro-me de um vazio escuro
cheio de memórias difíceis de serem visitadas
Levantei-me e caminhei em cima do meu vômito
como se ele fosse passagem para o esquecimento
e permissão para eu desmaiar
“Mil facas a te perfurar”
escutei uma promessa concretizando-se dentro de mim
Como se houvesse um homem adormecido em meu ventre
e doze anos e seis meses depois
despertara
Trazia consigo sangue
berros
dor
dor
dor
e mais dor
A morte não havia esmagado o copo o suficiente
para que eu morresse
apenas o bastante para eu viver sempre em cacos
As deusas esqueceram-se de mim quando nasci
abandonaram-me à sorte
sabendo que a sorte costuma esquecer-se de mulheres
Permaneci esquecida por décadas
Como se todos os meus pedidos de socorro fossem
ficção absurda aos ouvidos de quem escuta
“Algumas garotas são apenas sensíveis demais
para essas coisas de mulheres”
dizia um médico sabichão de úteros e vaginas
“É só tomar uma taça de vinho e relaxar”
falava um outro doutor
especialista nessas coisas de quem nasceu sem pênis
A vida dos homens nunca coube em mim
inventei alguma que fosse possível sobreviver
mas esqueci o prazer na fúria das ondas do mar
LUÍZA SALMON é jornalista, escritora, educadora e terapeuta sexual. Mergulha nos estudos da saúde da mulher, sexualidade feminina, gestação, parto e puerpério há 16 anos. Mulheres são o âmago da sua escrita. Já cruzou oceanos e fincou raízes na Indonésia, EUA, México, Europa, Turquia e Marrocos. Cria conteúdo no Instagram @luizasalmon e publica uma newsletter no Substack.