“Definitivamente haverá sempre muita alegria nas coisas que eu faço e penso”, diz a influencer enquanto nos comprova que sim: ela é nossa it girl! E dispara: “As pessoas não têm noção do quanto é valoroso e grandioso plantar algo e ver aquilo crescer!”
“Literalmente isso é um trem! Tem até um trilho aqui dentro!” É assim que Ana Luiza inicia a entrevista me dirigindo a palavra antes de um abraço apertado. Ela se refere à obra do ganense Ibrahim Mahama, que resgata umas das principais estruturas de poder dos impérios modernos: os trilhos de trem das locomotivas coloniais que rasgam territórios, para refletir sobre o passado e dar a ele novos significados. Sobre a obra, Ibrahim nos indaga:
“Como podemos, mais de um século depois, transformar os resíduos desta história num presente que escava memórias, constrói novas almas em objetos mortos e apresenta às gerações vindouras memórias esquecidas cheias de potenciais infinitos por vir?”
E por isso pensamos num diálogo com uma das maiores representantes dessa geração vindoura. A nossa Rainha do Camp, que sabe algumas coisas sobre entretenimento. E estivemos com ela em sua primeira viagem para fora das “suas terras” diretamente para o centro explosivo da capital paulista para mais uma ruidosa edição da Bienal de Artes de São Paulo. As fotos são da nossa fotógrafa Bruna Monique.

E decidimos lhe encontrar na mais plural e democrática das edições das Bienais, passeando por entre os pavilhões e percebendo as obras que “estão escondidinhas, mas revelam seus segredos para quem souber olhar…”, como nos destaca Ana Luiza com seu olhar bem distante daqueles excludentes dos críticos de arte que aquecem a economia artística do país e, principalmente, estabelecem os seus cânones. Ou como ela mesmo nos diz: “Você precisa comer muito feijão pra tá aqui, minha filha!”
A nossa conversa segue repleta de “nostalgias” em que ela rememora suas vivências cotidianas e reflete sobre a presença de elementos comuns, frescos e divertidos na arte enquanto dá vida a uma história relacionável de saberes e amor próprio em “um mundo extravagante”, como ela mesma o é!

Vestida elegantemente para sua primeira exposição de arte, Ana é uma espécie de jovem tão sonhadora quanto criativa, uma máquina de carisma e pensamento rápido, eu diria. Quando a Philos a encontrou em outubro, estávamos em um momento de grandes mudanças editoriais para esse verão e senti que era o momento de fazermos algo “feroz para mim e divertido para outras pessoas”, como ela mesma nos diz. Ela gosta de celebrar a própria espontaneidade: “minhas ideias nunca vão morrer”.
Parece que ela sempre tem planejado todos os detalhes das coisas, especialmente quando se tratam de temas importantes para serem debatidos de forma engraçada e cheia de sátiras. A Bienal nos apresenta diversos aspectos que nos fazem pensar as realidades e centralidades periféricas de um Brasil pouco explorado e conhecido. A relação de campo e cidade, das comunidades e do que se produz ali….
“Eu realmente adoro tratar todos como uma família e estar junto. Acho que viver é mesmo essa experiência. Eu faço muitas brincadeiras, sempre é diferente. Eu não digo a mesma coisa todos os dias. Então estar aqui e falar com uma revista… Nossa eu estou em uma revista! Que trem é esse, meu Deus! Ninguém vai acreditar!”, nos fala sorrindo, muito espontânea.
É a primeira vez que nossa Menina Veneno vai à uma exposição e a 35ª Bienal de São Paulo – coreografias do impossível, curada por Diane Lima, Grada Kilomba, Hélio Menezes e Manuel Borja-Villel despertou grande interesse: “Isso aqui é grande demais! Isso aqui é a Bienal? O que eles estão falando? Eu gosto mesmo de São Paulo! Em São Paulo é tudo muito grande! Aurélio, ocê devolve o meu carregador, quero fazer um stories aqui agora!” [Aurélio, o melhor amigo de Ana, havia tomado emprestado o carregador dela minutos antes da entrevista e Veneno chegou para conversar conosco sem bateria suficiente]. Quando de repente nos pára para indagar sobre a obra de Denilson Baniwa:
“O que é esse ovão? [Risos]. Está falando sobre os povos originários? São desenhos, né? Eu mesmo se fosse desse povo ia desenhar bastante. Adoro o desenho e a fala. É uma comunicação nas pedras, o desenho nas pedras. Nossa amor, se eu tivesse vivendo nessa época – se bem que eu nem sei se isso é tão antigo assim -, eu ia desenhar demais. Eu ia falar tanto nessas pedras.”
Como é a tua relação com o desenho?
“Eu amo desenho. Eu fiz inclusive curso de designer de moda. E aí, eu tinha que desenhar bastante. Eu nunca fui boa pra desenhar, para ser sincera. Mas eu aprendi a fazer croquis legais, eu tenho vários, inclusive. Eu acho o desenho interessantíssimo. E ao mesmo tempo, retrata muito o tipo de linguagem que é próxima a você. É uma linguagem. No final das contas, é um espaço super natural de se expressar, a moda também fala muito, ela conversa muito com a gente. É uma linguagem expressiva, né? Então é um negócio individual que a gente pode se expressar de inúmeras formas. E falar também. Falar calado, no caso, só existindo. É muito bom falar calado.”
Ana Luiza, ou melhor, nossa Menina Veneno diz que sua vida agora está cheia de equilíbrio. Ela é uma das pessoas mais impactantes do TikTok e do Instagram, seus vídeos repercutem milhares de views e comentários nos quais ela reflexiona suas vivências simples e divertidas do campo. Mas nem por isso ela deixa de ser cosmopolita…
“As periferias são diferentes, eu tenho um olhar também de fora dos centros, um pouco mais do campo… Tudo se separa e se distingue muito. Mas no geral o que a gente vê é um único cenário: as coisas são desiguais. E é o que separa muito a gente. Mas tenho que lhe dizer que eu tive muito incentivo à artes. A escola no interior incentiva e muito a arte, a música, a escrita… A gente tem tudo em períodos, cada período tem temas pra gente estudar e discutir na escola. Eu sou uma pessoa muito adaptável e o ensino, para mim, sempre foi algo de, literalmente, se ensinar e aprender. Eu consigo me chuchar em muitas coisas. [Talvez ela queira dizer: me inserir.] Eu sou igual aquele bicho que troca de cor…”
O camaleão?
“Isso, o camaleão! Eu sou igual ao camaleão, mas acho que é um camaleão que sempre gosta de ver o lado bom daquilo ali. E quando eu cheguei para estudar nessa escola que é muito pequena, eu fiquei assustada porque esse programa é um negócio bem desenvolvido! [Risos]. Não é porque você não sabe ler e nem escrever que você não é ninguém. Não! Muito pelo contrário: você tem uma grande importância, e essas pessoas têm outros saberes para ensinar. Dentro da minha cidade tem uma campanha que é muito legal. Lá onde eu moro só tem uma escola grande, que é Estadual. Eles a dividem em turmas entre A, B, C e D. Quem está na turma A e B, por exemplo, fica responsável por cuidar das pessoas que estão nas turmas C e D nos finais de semana. A gente vai para a escola no sábado e no domingo e lá a gente ensina aquelas pessoas que não sabem ler e escrever, a ler e a escrever. E é muito bacana! Eu já ensinei uma pessoa de 25 anos a ler!”
Como foi isso?
“Foi surreal, Jorge! Com menos de um ano, o menino aprendeu a ler! Eles são bem da roça, do interior mesmo… E aí eu fui responsável por ele. A gente escolhe o nível de dificuldade. Às vezes, tem gente que sabe ler, mas não entende tantas palavras. No caso, ele não entendia absolutamente nada. Ele não conseguia escrever nada, nada mesmo. E daí eu fiquei responsável por ele, para ajudar ele a aprender e hoje ele sabe ler e escrever. E é muito bacana isso! Todo mundo da escola faz questão de participar desse projeto.”
Qual o impacto da leitura pra você?
“Nossa, é a nossa vida! Ler é muito importante! A gente depende disso. Tudo se conquista sabendo ler e escrever. E eu aprendi muito cedo sobre isso… minha mãe ficava em cima. Então eu aprendi dos três para os quatro anos, eu já sabia escrever meu nome… que é a grande maioria das coisas! Saber seu nome, quem é você! Se identificar [ou não] com você… Depois aprendi a ler e escrever normalmente. Foi muito legal quando eu percebi que sabia ler placas. Eu achava muito legal quando a gente saía na minha cidade e eu sabia o que as placas estavam falando: —lá, lá, lá, lá! A leitura é uma das coisas mais brilhantes da nossa vida, né? A gente pode construir muita coisa sabendo ler e escrever. E é muito triste viver em um país que tem milhões de pessoas que não têm acesso a isso. É triste. [Nota do editor: Segundo a UNFPA, o Brasil tem hoje 10 milhões de analfabetos]. E eu acho incrível isso da minha cidade, eles se preocupam, sabe? Eu estudei em Belo Horizonte, estudei no Espírito Santo, e nesses lugares onde eu estudei, eu nunca tinha visto uma campanha assim nas escolas. E sempre tem aquela pessoa que tem dificuldade, né? Aprendizado é diferente para as pessoas, e tá tudo bem! Esse projeto é algo que eu valorizo e faço questão de falar aonde eu for, porque é muito legal a gente ensinar as pessoas. É muito bonito.”
Em um determinado momento, Ana pára para vislumbrar as obras do Movimento de Artistas Huni Kuin (Mahku) e nos faz refletir sobre o seu lugar em contato com a natureza, a floresta, os rios, os peixes, os alimentos ao natural…
“Eu posso falar à vontade, porque eu vivo isso, né? Eu fui criada pela minha avó, e a minha avó é a pessoa que eu mais amo e ela é tipo… muito planta! [risos]. Tudo dela é planta! Eu tenho descendentes indígenas, e a minha avó foi criada pela mãe dela, que era indígena. E lá em casa tudo é planta, tudo é chá… Eu vivo uma vida, graças a Deus, muito natural. Tá com dor de cabeça? Vou fazer o chá de transagem [ou tanchagem, nome popular da espécie Plantago major]. Sempre que eu tô passando mal, ela vai lá e diz: tomar um chá disso…. Então eu fui criada sempre com tudo muito natural, mesmo quando eu morei em cidade grande. E para mim tudo é vivo. Literalmente tudo é vivo na minha vida, acontece ali. Vamos pescar? -Vamos! É essa coisa. [Risos]. E é muito gostoso para mim viver assim, ter esse contato direto com a natureza, que é o que esses artistas estão representando aqui nesses trabalhos todos. A gente aprende muito olhando a natureza, a gente aprende, principalmente, a respeitar tudo e todos, e o meio ambiente, né? Que a gente tá assim… acabando com tudo…”
Você acha que a gente tem está perdendo a noção real da nossa vida no mundo?
“As pessoas não têm noção do quanto é valoroso e grandioso plantar algo e ver aquilo crescer. Eu tenho uma bananeira, eu tenho um coqueiro que foram plantados por mim e ver eles crescendo até dar frutos é inexplicável. É uma criança, é seu filho nascendo. É uma coisa que, graças a Deus, eu posso viver. Eu sempre vivi essa vida no campo e tento admirar cada vez essa vida, que é o que quero para mim e pelo resto da minha vida, enquanto eu puder viver. É um contato muito forte, a natureza é realmente muito viva, a gente acha que ela não, mas a natureza é humana. E ela está ali todos os dias vivendo no mesmo mundo que a gente. Ela vive de seus momentos também: a planta morre, ela cresce depois de nascer, ela tem pragas, ela tem doenças e também nos dá a cura. Então ter contato com isso, com essa magia da vida é sempre muito lindo. Eu aprendi a respeitar tudo que a natureza pode trazer para mim. É a floresta que me alimenta, é a natureza que me dá o que comer, é a planta que se planta, que vive no chão da Terra. São as plantas que me dão o ar super natural que eu respiro, as algas… Eu já estou aqui passando mal, Jorge! [Me diz sorrindo enquanto fala da má qualidade do ar da capital paulista]. Então assim: a natureza é uma coisa muito incrível, é linda, linda!”

A natureza e seus ciclos te ensinam a viver?
“Sim. Eu aprendi a viver olhando a natureza. Eu vou ser reflexiva agora: eu perdi a minha mãe. E eu precisei me apoiar na vida que me servia de exemplo e também na comunicação. E foi como virar uma chave. Quando eu perdi a minha mãe em 2011, eu falei: A mãe era uma pessoa muito alegre, muito divertida, eu posso dizer que minha mãe morreu sendo uma pessoa muito feliz. Então assim, eu queria dar continuidade a isso, continuar à sua alegria, para que eu mesma não afundasse em coisas e pensamentos ruins. E eu aprendi a deixar a vida passar, eu era muito jovem, eu tinha 12 anos e fiquei sem a minha mãe. Então eu precisava buscar dentro de mim uma luz, algo que me deixasse bem, e eu queria transmitir essa sensação para as pessoas. Porque não foi só eu que perdi pessoas, todos nós vamos perder pessoas na vida. É sobre o ciclo da natureza que estávamos falando. Muitas pessoas já perderam outras que foram incríveis em suas vidas.”
E daí que vem o diálogo com as redes sociais?
“Então, eu comecei a fazer algo, meio que uma distração. Em 2011, eu comecei a gravar no Vine, a aprofundar e estudar mais sobre redes sociais, sobre comunicar… E você sabe: eu tenho um lado humorístico. Então eu fui para esse lado mais confortável para mim, que eu gosto e que tenho uma dinâmica de fala. E eu percebia que as pessoas se aproximavam cada vez mais, elas tinham um toque mais delicado comigo porque eu transmitia algo bom, mesmo que eu estivesse passando por algo ruim, eu acho que a vida é mesmo tudo isso. A gente tem que procurar viver bem com a gente e com o outro. E para mim, naquele tempo, era necessário amenizar um pouco a dor e ajudar outras pessoas também. Eu acho que é muito importante a gente conseguir não somente se curar, mas também ajudar no processo de cura de outras pessoas.”

As pessoas estão tristes demais hoje?
“Muito! E isso é péssimo. As pessoas estão muito tristes, elas estão e muito! A depressão e outras doenças psicológicas tomam conta da cabeça da gente porque a gente se imagina em realidades que não são reais, por exemplo. E muita gente no nosso país passa por isso, eu mesmo tive. E também tive que ter forças para poder seguir em frente e ajudar outras pessoas. E tudo isso foi sobre diálogo e comunicação. Então, enquanto eu puder, eu vou tentar ajudar as pessoas que precisam de ajuda de alguma forma. E é como estávamos falando: a natureza nos faz reflorescer a todos os momentos. E é exatamente assim, nós somos como a natureza, como as plantas. Elas também têm momentos difíceis, as secas, a falta de nutrientes, o sol… as plantas também morrem. E depois disso elas nascem de volta, elas produziram sementes. Por isso as minhas ideias nunca vão morrer. A gente é um ciclo, fazemos parte de um ciclo. E devemos estar muito envolvidos com a natureza. —Agora vamos dar um rolê! [Risos].”
A FUGA DAS GALINHAS
E você tem falado muito calada?
“Podemos começar do zero?” [Risos]
A gente sorri e Ana Luiza parece estar reflexiva sobre a pergunta enquanto estamos na sala de Levi Fanan, uma espécie de instalação catártica e sustentável. Que parece lhe fazer refletir sobre uma paz interior a ponto de retomar o seu pensamento sobre a vida no campo:
“Para mim é um privilégio morar no interior, longe de barulhos, da criminalidade e também de ter acesso a esse conhecimento tradicional das coisas. O interior é um lugar de grande acolhimento para mim, e eu transmito isso pelas minhas redes. As pessoas do outro lado da telinha estão querendo um abraço de alguma forma, sabe? Elas estão distantes e pertinho de mim ao mesmo tempo. E por isso eu quero transmitir algo de mais paz e alegria com meus vídeos. Eu gosto de dar risada, e é uma risada inteligente.” [Risos].

Eu chamo o carro para deixar Ana e o Guilherme [seu assessor] de volta para casa. E quando o carro se aproxima digo que tenho mais duas perguntas para fazer. Ela prontamente diz com tom de risada:
“Ah! Tá de brincadeira! Chega, Jorge! Por favor! [Risos]. Eu não quero mais refletir! Ah, tá de brincadeira, Philos! [Risos]. Chega, por favor! Eu não quero mais! Por favor, tira ele daqui… Alguém tira o Jorge daqui. Eram só 10 minutos de fala pra gente, meu povo! Ele me chamou e já quer me chuchar no negócio!”
—Não tem ninguém aqui pra te ajudar.
—Segurança!, diz ela já entrando no carro!
Eu sorrio dizendo: —Já diria a Pabllo Vittar!
E ela rebate: —Beijos, amei!
Por aqui estamos todos ansiosos para saber os próximos passos da nossa Menina Veneno.
