Sempre que eu não queria que alguém lesse o que eu havia escrito, afogava as minhas palavras. Arrancava as folhas dos cadernos, rabiscava por cima das linhas, ligava a torneira e amassava o papel dentro da pia, formando uma massa parecida com reciclagem mas que tinha a intenção oposta: não serviria para nada, nunca mais. Pronto o monstro, eu o despedaçava em pedaços minúsculos, entupia a pia com ele, pegava os pedaços maiores e fazia bolinhas que iam parar no lixo. Imaginava historiadores das eras futuras encontrando meus escritos e me desesperava. A maioria das coisas que eu havia escrito para que ninguém lesse tinham sido frutos de um afogamento. Eram palavras molhadas, escritas por uma adolescente virgem que só tinha lido a respeito de sexo, escrevendo contos eróticos elaborados com a lascívia que só alguém que nunca havia sido tocada podia ter. A perda do fôlego, o corpo febril, a pele esquentando macia e se tornando líquida sob o desejo — nada disso podia ser visto por ninguém. Destruí meus desejos na pia do banheiro. Depois, nunca mais afoguei palavras.

Talvez por algum tipo de vingança, elas que passaram a me afogar. Mas de uma maneira agradável e singela, como se guardassem carinhos por aqueles passeios libidinosos, elas entravam em mim por algum tipo de êxtase inconsciente, muito apegadas aos sonhos, e faziam barulho de concha nos meus ouvidos de um jeito tão ansioso que passei a anotá-las, contar suas histórias, e por 30 anos venho contando os relatos da água, dos afogados, dos naufrágios e monstros marinhos, dos maremotos e das profundezas abissais. As águas e os seus mistérios ocuparam tanto de mim que precisei transbordar bem cedo, aos 21 anos, num livro que se passava nos dias antes de um maremoto. A protagonista, indiferente aos alertas e perigos, permanecia junto do mar porque  esperava alguém voltar, porque acreditava no seu lugar, porque não tinha medo do afogamento. Hoje em dia, não sei se seria tão corajosa quanto ela, porque publicar tão cedo me deixou medrosa. Sofri o golpe do maremoto, perdi a capacidade de escrever por algum tempo e, como a Pequena Sereia, não tive voz para falar do assédio que sofri do homem que pegou minhas palavras salgadas e as destruiu. Com a mesma — ainda que infinitamente diferente — lascívia com que eu despedacei os meus próprios escritos.

A água e as palavras se confundem neste texto, e isso acontece por um motivo óbvio — somos feitos de água, nós todos, e alguns de nós, mais que outros, são feitos de palavras. Depois do meu primeiro naufrágio, continuei escrevendo as histórias das sereias, que são ainda mais estranhas que as dos pescadores, mas não publiquei de novo nenhum livro até o que virá agora. Alice, a protagonista da minha História Quebrada da Completude, é uma adolescente que vive de arrumar palavras e nadar em piscinas, lagos, até no escuro, talvez porque, como o título já diz, ela busca alguma coisa que falta no fundo. Apesar de ser muito mais nova e de se tratar de um coming of age, nessa nova história, que já não é tão nova assim (foi escrita antes da pandemia), Alice e a minha antiga heroína guardam lutos que as inundam dos pés à cabeça. Uma estava à beira da aniquilação. A outra ainda não sabe quem é. Ambas são, em seus próprios contextos, órfãs. Isso é importante porque todos nós, uma hora ou outra, seremos.

Uma vez comentei com um professor que as minhas histórias só engrenavam quando havia água. Se o enredo se passasse numa floresta, era necessário que houvesse um lago. Se fosse na cidade, o mar ou uma piscina. Discorri sobre como a minha terra, a ficcional e a astrológica, precisavam de água para dar frutos. Achei que a lógica era essa.

Recentemente, no entanto, percebi que se trata mesmo de um coming of age. É que para nascer é preciso que um dia você já tenha sido afogado; para andar, é preciso que você já tenha sido aquático. Da mesma forma, dizemos que mergulhamos numa leitura e saímos transformados. O ciclo de submergir e voltar renascido é um processo sem fim. Mas, porque os últimos anos me trouxeram mais para perto de mim, de quem eu sou como adulta e mulher, por isso talvez as minhas novas histórias não precisem de tanta água. Até que, eu sei, precisem de novo.

Mas, como estou falando das que precisaram, é importante reconhecer que, dessa maneira, com a disposição do mergulho, elas talvez tenham o mérito de permitir gerações e renascimentos completos. É o que eu espero: que as minhas palavras feitas de água sejam, de alguma forma, como o líquido amniótico que nutre as criaturas que se criam.

E que, além de mim mesma, alguém possa se tornar um pouquinho mais de si mesmo com elas.


Maria Luiza Artese

Maria Luiza Artese nasceu em 1992 no Rio de Janeiro, mas saiu da cidade tão cedo que não ousa se chamar carioca. Viveu em Salvador antes de morar em Fortaleza, tendo o oceano como único ponto fixo. Decidiu ser escritora aos 12 anos, vencendo diversos concursos de conto e poesia na escola, e escreveu um pequeno livro de poemas épicos aos 16, mas prefere que estes permaneçam aventurando-se na gaveta. Foi colaboradora do portal Homo Literatus, publicou o romance Olhos de Oceano (2014) e participou de diversas coletâneas de contos e poesia, como O Corvo (Empíreo, 2015), Farol: Contos do Ateliê de Narrativas de Socorro Acioli (Moinhos, 2019), Um Fragmento Chamado Vida (Editora Modo, 2019) e Antologia Poética Literatura Br (2021). Colaborou para jornais e revistas literários como o RelevO e a Para Mamíferos, e aguarda até hoje pelo seu diploma honorário de graduanda em Psicologia, Moda e Letras, que cursou até concluir, finalmente, seu bacharelado em Jornalismo. É autora do romance A História Quebrada da Completude (Casa Philos, 2023) e participou da programação da Casa Philos na Flip 2023, como autora convidada na mesa A Fantástica Fábrica de Literatura.

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