A Cave Galeria inaugura no sábado, 22 de março, a nova exposição “Memória elementar”, de Gi Monteiro, Júlio Jardim e Navegante Tremembé. Com a curadoria de Lucas Dilacerda, a exposição apresenta pinturas, desenhos e esculturas que abordam temas como ecologia e ancestralidade.
A exposição discute a transmutação como memória elementar da Natureza, ou seja, compreende que tudo que existe é feito de uma mesma matéria em movimento que está em constante transformação e que, por isso, assume diferentes formas de existência. Desse modo, a exposição questiona a separação moderna entre natureza e cultura, e a histórica divisão da vida entre reinos separados. Humano, animal, vegetal e mineral são todos constituídos de uma mesma energia vital que percorre e atravessa tudo que existe. As obras, a partir de suas diferentes materialidades, apresentam seres híbridos em estado de germinação, criando composições ora figurativas, ora abstratas, que reúnem aquilo que a modernidade colonial separou.

Além disso, ao discutir o conceito de “memória elementar”, a exposição amplia a concepção convencional de ancestralidade. Os artistas investigam a sua ancestralidade para além da memória humana oriunda da família e do parentesco humano, e buscam uma memória elementar que também é a ancestralidade da pedra, dos rios, da floresta, do céu, da paisagem, da Terra etc. A memória elementar é a memória da transmutação que cria e transforma tudo que existe. Essa memória nos permite se reconectar com a natureza e enxergá-la como nossa ancestral. Desse modo, a exposição contribui para uma maior conscientização e sensibilização das pessoas para as questões ecológicas que enfrentamos no contemporâneo.
Abaixo, leia o texto curatorial de Lucas Dilacerda:
O sopro do esplendor
Alguns povos indígenas acreditam que o mundo nasceu de um sopro primordial que fez surgir tudo que existe. Esse sopro seria a própria força da Natureza na sua capacidade infinita de criação e transformação da realidade. Nesta exposição, cada obra é um rastro desse sopro, é um registro da transmutação como memória elementar de toda a Natureza. Cada artista, à sua maneira, aciona esse repertório da Terra por meio de suas próprias materialidades: seja o toá, o barro ou o escuro.
Gi Monteiro investiga o escuro como um espaço onde infinitas possibilidades imprevisíveis podem acontecer. Sobre a superfície escura do indeterminado, a artista desenha os movimentos indecifráveis da energia vital que imprime diferentes marcas abstratas na matéria. Assim, vemos brotar pequenos seres em estado de germinação, em composições plásticas de microrganismos que integram uma complexa ecologia de trocas de energia e cargas vitais. Por isso, os seus desenhos se tornam memórias da liberdade, porque são escritas em linhas que nos possibilitam contar outras histórias sobre a matéria que nos constitui.
Júlio Jardim experimenta o barro como uma matéria espiritual. Em suas cerâmicas, nascem seres híbridos entre o humano, o animal, a planta, o mineral e os encantados, que se fundem para formar entidades imaginárias com referência às cosmovisões africanas e indígenas. No seu processo, a terra, a água, o fogo e o ar são elementos que transformam o estado da matéria e colaboram, junto com a mão do artista, para dar forma ao barro através de uma geometria sagrada: o círculo, o quadrado e o triângulo. Dessa forma, as esculturas de Júlio acionam práticas ancestrais milenares e performam a transmutação como condição inevitável da vida, realizando assim uma ligação sagrada entre o céu e a terra.
Navegante Tremembé, há quase 40 anos, retrata a sua cultura indígena por meio de pinturas com o toá, que é um pigmento natural extraído do solo do mangue, com cores produzidas por camadas geológicas formadas há milhões de anos na Terra. Esses pigmentos carregam consigo não apenas a materialidade da terra, mas também a conexão espiritual com o território e a memória do povo Tremembé. Em suas pinturas, vemos paisagens ancestrais onde diferentes seres vivos co-habitam o plano em um forte estado de harmonia, fazendo com que seus trabalhos se tornem arquivos e patrimônios da Terra.
Portanto, “Memória elementar” é um convite para lembrarmos daquilo que é mais essencial para a vida: a conexão com a Natureza e o seu interminável movimento de transmutação. Afinal, o movimento da vida é o movimento da criação.
Na curadoria de Lucas Dilacerda, cada obra é concebida como um registro da transmutação, isto é, como memória elementar da Natureza. Cada artista, à sua maneira, aciona esse repertório da Terra por meio de suas próprias materialidades: seja o toá, o barro ou o escuro.
Gi Monteiro (ela/dela; travesti negra) investiga o escuro como um espaço onde infinitas possibilidades imprevisíveis podem acontecer. Sobre a superfície escura do indeterminado, a artista desenha os movimentos indecifráveis da energia vital que imprime diferentes marcas abstratas na matéria. Assim, vemos brotar pequenos seres em estado de germinação, em composições plásticas de microrganismos que integram uma complexa ecologia de trocas de energia e cargas vitais. Por isso, os seus desenhos se tornam memórias da liberdade, porque são escritas em linhas que nos possibilitam contar outras histórias sobre a matéria que nos constitui.
“A prática do desenho evoca o movimento das águas. As linhas, ora transbordantes, ora confluentes, criam um diálogo dinâmico entre as cores. A água, em sua essência, recorda à Terra seu poder transformador, enquanto a vida negra travesti resgata nos corpos a capacidade de transmutação. Os desenhos “Em fluxo de mutirão” e “Barro, pedra e flor” são frutos das memórias do lugar onde nasci: o loteamento Parque Santana, erguido em regime de mutirão. A palavra “mutyrõ”, em Tupi-Guarani, refere-se a processos coletivos que possibilitam a realização de um trabalho em comum, refletindo a experiência da construção das casas em que vive. Viver e promover a vida em mutirão destaca a coletividade como uma estratégia ética para habitar o mundo em que vivemos. Os quadradinhos em tons terrosos, presentes em ambos os desenhos, simbolizam a necessidade contínua de estabelecer vínculos entre as diversas formas de vida, especialmente diante da crescente crise climática. Esses elementos também evocam as paredes de tijolos em constante levante, lembrando-nos da resiliência e da força da comunidade.” —Gi Monteiro
Júlio Jardim (ele/dele; homem negro 60+) experimenta o barro como uma matéria espiritual. Em suas cerâmicas, nascem seres híbridos entre o humano, o animal, a planta, o mineral e os encantados, que se fundem para formar entidades imaginárias com referência às cosmovisões africanas e indígenas. No seu processo, a terra, a água, o fogo e o ar são elementos que transformam o estado da matéria e colaboram, junto com a mão do artista, para dar forma ao barro através de uma geometria sagrada: o círculo, o quadrado e o triângulo. Dessa forma, as esculturas de Júlio acionam práticas ancestrais milenares e performam a transmutação como condição inevitável da vida, realizando assim uma ligação sagrada entre o céu e a terra.
“Sou escultor e ceramista. Nasci no bairro do Pirambu. Inspirado no movimento artístico em torno do pintor Chico da Silva, quando criança, morava em frente da casa do pintor no bairro do Pirambu, foi quando eu tive um despertar para a arte. Na década de 80, iniciei as atividades no Ateliê do artista plástico Raimundo Pereira Silva. Seguindo seu amadurecimento artístico, passei a transitar pelas linguagens de pintura, gravura e escultura em cerâmica. Na modelagem escultórica, sob a orientação do escultor Bosco Lisboa, desenvolvi e aprimorei a técnica de modelagem com Barro. Por meio do meu processo criativo, eu abordo a questão da natureza metamorfoseada inspirada pela herança do pintor Chico da Silva com a representação da fauna e flora imaginárias e um olhar atento às formas, texturas, volumes e cores da natureza.” —Julio Jardim
Navegante Tremembé (ela/dela; mulher indígena 60+), há quase 40 anos, retrata a sua cultura indígena por meio de pinturas com o toá, que é um pigmento natural extraído do solo do mangue, com cores produzidas por camadas geológicas formadas há milhões de anos na Terra. Esses pigmentos carregam consigo não apenas a materialidade da terra, mas também a conexão espiritual com o território e a memória do povo Tremembé. Em suas pinturas, vemos paisagens ancestrais onde diferentes seres vivos co-habitam o plano em um forte estado de harmonia, fazendo com que seus trabalhos se tornem arquivos e patrimônios da Terra.

“Sou Navegante Tremembé. Sempre fui e continuo sendo uma Guardiã dos Saberes Culturais do meu povo. A arte de pintar e desenhar é minha marca registrada desde pequena. Quando criança na escola, que acontecia debaixo dos pés de cajueiros da minha aldeia, eu não gostava muito de escrever e sim de pintar e desenhar a fauna e flora do meu lugar e assim fui crescendo desenhando e pintando. Descobri com os mais velhos, que na minha aldeia existia uma argila colorida que soltava um pigmento muito bonito, e foi aí que tive a ideia de utilizar essa argila para pintar. Daí em diante comecei usar toá, também conhecido por nós como melzinho, para pintar e fazer desenhos nas paredes da minha casa. Quando as outras mulheres da aldeia viram como ficaram bonitas as casas cheias de pinturas coloridas começaram a pedir que eu pintasse as casas delas também. A partir desse trabalho, fiquei conhecida como artista que se utiliza do toá para colorir e dar um ar de mais alegrias às moradias. Meu sonho sempre foi repassar esse conhecimento às futuras gerações. O meu desejo é fortalecer ainda mais a importância de utilizar esse conhecimento para a reafirmação étnica, cultural e social do meu Povo Tremembé. Acredito que através do trabalho dentro das escolas indígenas com crianças e jovens preservamos esse conhecimento e fortalecemos nossa identidade na luta pela demarcação de nossa terra.” —Navegante Tremembé
Portanto, “Memória elementar” é um convite para lembrarmos daquilo que é mais essencial para a vida: a conexão com a Natureza e o seu interminável movimento de transmutação. Afinal, o movimento da vida é o movimento da criação.
A Cave Galeria é uma galeria de arte brasileira, localizada em Fortaleza (Ceará) e interessada na produção artística do Nordeste do Brasil, a partir da ótica do território, da cultura, da decolonialidade e das poéticas contemporâneas. Nos últimos anos, a galeria vem desenvolvendo ações em contexto local, nacional e internacional. Entre as suas principais ações, está o desenvolvimento de um olhar sobre a produção dos artistas do Ceará, bem como o estímulo à sua valorização e posicionamento no mercado de arte. Com um perfil arrojado, a Cave busca agregar artistas que apresentam propostas que dialoguem de forma local e global, visando uma expansão da produção artística brasileira e do papel do Nordeste nesse sentido.
Lucas Dilacerda é Curador e Crítico de Arte. É sócio da AICA – The International Association of Art Critics; e também da ABRE – Associação Brasileira de Estética, da ABCA – Associação Brasileira de Críticos de Arte e da ANPAP – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (Comitê de Curadoria). Ganhou o prêmio ABCA 2023 pelo destaque regional no Nordeste com a curadoria da Bienal Internacional do Sertão. Realizou mais de 40 curadorias de exposições coletivas e individuais, 70 cursos e 200 apresentações em diversas instituições de arte no Brasil, tais como Museu de Arte Contemporânea – Dragão do Mar; Pinacoteca do Ceará; Museu da Imagem e do Som; Centro Cultural Banco do Nordeste, no Cariri; Arte Plural, de Recife; Museu de Arte Moderna da Bahia; Instituto Goethe; Parque Laje, do Rio de Janeiro; SESC, de São Paulo; e diversas outras galerias, tais como Galeria Leonardo Leal; Cave Galeria; Galeria Tato; OMA Galeria entre outras. Possui mais de 50 textos, críticas de arte e artigos publicados. É professor de “Estética” e “História da Arte” de Cursos Técnicos do Dragão do Mar e da Pós-Graduação em Arteterapia e Arte-Educação da UNIFOR. Doutorado e Mestrado em Artes, pela Universidade Federal do Ceará (UFC); Especialização em Arte: Crítica e Curadoria, pela PUC de SP; Especialização em História da Arte, pela Universidade de Uberaba de Minas Gerais; MBA em Curadoria, Museologia e Gestão de Exposições, pela Estácio; e Graduado em Artes Visuais, pela Universidade Estadual do Ceará; também é Graduado (Licenciatura e Bacharelado) em Filosofia, com ênfase em Estética e Filosofia da Arte, com distinção Summa Cum Laude, pela UFC; Especialista em Arte e Filosofia Clínica, pelo Instituto Packter; e Mestre em Filosofia, com ênfase em Estética e Filosofia da Arte, pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFC.
Gi Monteiro é artista, educadora e historiadora travesti negra. Seu trabalho estabelece intimidade com as práticas de desenho, pintura, vídeo e fotografia articuladas a uma pesquisa sobre como o movimento da vida grava suas marcas na matéria. A memória, o escuro, a fuga e a opacidade são fundamentos de sua poética. Atualmente, é graduanda em História pela Universidade Estadual do Ceará e fez parte do Laboratório de História e Arte (LEAH). Além disso, participou dos Percursos em Audiovisual e Artes Visuais, promovidos pela Porto Iracema das Artes.
Júlio Jardim nasceu no bairro do Pirambu, e é escultor e ceramista. Inspirado no movimento artístico em torno do pintor Chico da Silva, quando criança, morando em frente a sua casa, teve um despertar para a arte. Na década de 80, iniciou as atividades no Ateliê do artista plástico Raimundo Pereira Silva. Seguindo seu amadurecimento artístico, passou a transitar pelas linguagens de pintura, gravura e escultura em cerâmica. Na modelagem escultórica, sob a orientação do escultor Bosco Lisboa, desenvolveu e aprimorou a técnica de modelagem com Barro. Por meio do seu processo criativo, o artista aborda a questão da natureza metamorfoseada inspirada pela herança de Chico da Silva com a representação da fauna e flora imaginárias e um olhar atendo as formas, texturas, volumes e cores da natureza.
Navegante Tremembé é mulher indígena tremembé 60+, da aldeia Varjota, de Itarema, que há quase 40 anos retrata a sua cultura por meio de pinturas com o Toá, que é um pigmento ancestral extraído do solo do mangue, com cores produzidas por camadas geológicas formadas há milhões de anos na Terra. Navegante é uma guardiã dos saberes ancestrais de seu povo. A artista é profundamente comprometida em transmitir esse conhecimento às futuras gerações, trabalhando com jovens nas escolas indígenas.
SERVIÇO: exposição “Memória elementar”, de Gi Monteiro, Júlio Jardim e Navegante Tremembé. Entrada Gratuita. Abertura: Sábado, 22 de março de 2025, das 16h às 21h. Endereço: Rua Pereira Valente, 757 – Casa 03 – CEP: 60160-250 (Travessa Ana Benevides). Entre as Ruas Leonardo Mota e Vicente Leite. Período em cartaz: 22 de março de 2025 a 3 de maio de 2025. Horário de funcionamento: Terça à sexta – 13h às 19h, Sábado – 10h às 14h.