A ciência brasileira mundial é dominada por homens [1]. A despeito disso, eu escolhi (tentar) seguir a carreira de pesquisadora — oportunidades para mulheres não costumam ser abundantes mesmo, independentemente do ambiente. Na faculdade, não tive dúvida sobre o que queria pesquisar; desde a infância, eu sabia que seriam as plantas.
Há mais de um ano, realizei um intenso trabalho de campo, envolvendo entrevistas e coletas de plantas em comunidades não-urbanas. Após dias “em campo”, de volta a um centro urbano, presenciei um “superior” contar, em uma última confraternização com colegas da região, que eu só conseguira realizar o trabalho porque “[era] Deus no céu e [ele] na terra” para uma entrevistada-chave. Seu tom era jocoso. Os colegas à mesa riram. Eu peguei meu suco de taperebá, apostando num uso diferente para a boca.
De repente, senti algo na minha garganta: uma semente, logo pensei. As sementes de taperebá têm uns quatro centímetros de comprimento, portanto circunstância e dimensão pareciam compatíveis.
Eu havia levado para aquela viagem uma coletânea completa de poemas de Alberto Caeiro. Li uma boa parte dela nas noites de trabalho de campo, enquanto os mosquitos não tapavam a lâmpada da minha lanterna. Entre tantos outros versos, eu havia sublinhado um que me veio à mente na mesa, quando já estava sem suco: “Quem tem as flores não precisa de Deus” [2]. Pensei sobre a entrevistada-chave: em como ela tinha toda sua família coabitando o mesmo quintal; em como ela, naquele quintal, realmente tinha as flores. Então, eu pensei sobre o senhor “superior”. Como aquela frase dele foi inapropriada, por mim, e pela entrevistada! Mas foi só um comentário isolado. Mas talvez não. Lembrei de quando o senhor “superior” solicitou que eu “[desse] um levante” para revisar uma revisão dele, quando poucas horas antes da solicitação eu o havia atualizado sobre meu quadro de COVID; de quando eu reclamei do comportamento de outra pessoa em seu mesmo patamar de “superioridade”, e ele apenas sugeriu que eu tentasse ver a situação pelo “lado positivo”, pois “[era] só assédio moral, e não sexual”. Definitivamente, não havia sido só um comentário isolado.
Da mesa em diante, de volta à rotina, eu não conseguia mais deixar de refletir sobre cada novo comentário inapropriado do senhor “superior”. Nos longos meses que se sucederam houve muitos, até eu não conseguir mais tolerar calada. Ainda em tempo: “Sua denúncia vai dar em nada”.
Fazer ciência no Brasil sempre requereu, especialmente da mulher, flexibilidade para se adaptar às mais variadas posições sem quebrar. Dados de um relatório recente publicado pela Academia Brasileira de Ciências indicam que 63% das cientistas que se identificam como mulheres já tenham sido vítimas, no país, de assédio moral em seus ambientes de trabalho [3]. Seis a cada dez; uma proporção clangorosa que, no entanto, tende a não ecoar numa comunidade científica dominada pelo senso de que assédio moral “[dá] em nada”. Temendo terem seus nomes pintados com camadas extras de boicote, as mulheres vítimas, de modo geral, não levam seus relatos para além dos números apresentados em pesquisas do tipo. E pesquisas do tipo, de modo geral, não vão além do paper.
Particularmente, eu não vejo problema em sermos números às vezes. (Nunca tolerarmos ser números pode ser bastante cansativo.) Porém urge que busquemos representação também nas palavras.
Porque somente as palavras têm a capacidade de dispersar, de garganta em garganta, sementes de taperebá. E é somente após as sementes que nós teremos as flores.


RAYANE DA CRUZ ALBINO carioca que raramente vai à praia, farmacêutica especializada em plantas, vê a escrita como parte de seu trabalho como aspirante a pesquisadora e, eventualmente, como uma necessidade.


REFERÊNCIAS
[1] Science still seen as male profession, according to international study of gender bias, Rachel Bernstein, [Science], 2015.
[2] Poesia completa de Alberto Caeiro, Fernando Pessoa, [Companhia das Letras], 2022.
[3] Perfil do Cientista Brasileiro em Início e Meio de Carreira, Academia Brasileira de Ciências, [Academia Brasileira de Ciências], 2023.

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