esse canto é um lugar público e ao ar livre que sempre me atraiu, faz um convite às pausas e ao bem viver. gosto de observar os bancos, as pessoas passando, a vista ao redor, se há lojas por perto, árvores, flores, sombras para fugir do calor e outros elementos que compõem a paisagem. imaginem uma praça cheia de livros antigos, somam-se duas paixões, pois esses objetos afetuosos me atraem desde criança, mesmo antes de ter começado a ler: o cheiro do papel, sua textura e cor. estar com um livro leva à fruição e ao deleite. esse lugar que reúne uma praça com livros, existe no coração da cidade do recife, chama-se praça do sebo e abriga várias lojas dessa natureza.
um reduto bucólico fincado no centro, ao lado de arranha-céus, prédios antigos, ladeado pelo rio capibaribe, seus flamboyants e por muita história, dessa cidade pulsante da américa do sul. vão a essa praça, mães, pais e crianças para comprar livros escolares, amantes da literatura, passantes, escritoras/es e boêmios para ver a vida passar. entre uma conversa e outra, os/as sebistas/as, proprietários/as desses estabelecimentos, falam dos livros raros que chegaram ou acabaram de ser vendidos. essas figuras [assim como nós, mulheres] resistimos, apesar de, apesar de. não é fácil manter um negócio dessa natureza, durante tantos anos [também não é fácil ser mulher, na nossa sociedade, mas continuamos caminhando]. não poderia esquecer também, dos pombos que são quase sinônimo de praças, esses seres vivem andando pelas calçadas, reunidos em bandos, com seu andar característico, farejando tudo ao redor, em busca de comida. na praça do sebo você também pode se encontrar com mauro mota, poeta pernambucano que escreveu sobre o domingo no recife, num célebre poema. está lendo seu jornal e ladeado por livros, eternizado como estátua. o afeto e o desejo de viver movem as coisas e o mundo, vejo que é nesse pulsar, que os sebos continuam a existir, para nossa sorte [nós, mulheres, também seguimos nesse fluxo, viva!]


RAIZA FIGUERÊDO nasceu em Salgueiro, no sertão pernambucano, em 1989. Reside entre Recife e Gravatá, litoral e agreste. É poeta e escritora, autora dos livros de poesia: Escola das Horas (São Paulo: Editora Patuá, 2023) e O coletor (Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2019), que ganhou voto de aplauso da Assembléia Legislativa de Pernambuco, ALEPE. Participou de quinze coletâneas de textos literários e acadêmicos, várias dessas pelo selo off Flip, da Festa Literária Internacional de Paraty. Também é Doutora em Psicologia (UFPE), psicóloga e arteterapeuta na ClinicAteliê das horas e no Sistema Único de Saúde SUS. É professora-pesquisadora em Psicologia da Arte, estuda os processos de criação e criatividade na literatura, na visão da psicologia. Criou o grupo de estudos Psicologia e Literatura. Desenvolve ateliês criativos para expressão da escrita e da criatividade. Integra o coletivo feminino pernambucano: Teia Literária Vozes, desde 2014. Como autora, participou de diversos eventos, como bienais, dentre essas a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco (2017, 2019, 2021, 2023), Festa Literária Internacional de Paraty (Flip, 2023), bem como saraus, programas de rádio, entre outros eventos literários. Site: http://www.raizafigueredo.com.br e Instagram: @raizafigueredo. psi

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