Em homenagem à trajetória da artista plástica Renata Laguardia, a WG galeria apresenta a mostra “Pleno acaso”. Com curadoria de Ana Avelar, a exposição individual reúne apenas trabalhos inéditos em pinturas, que trazem novos estudos de paisagens, vegetação, retratos de grupos, temas da psicanálise, memórias, resíduos e zonas de apagamento. Os trabalhos são atravessados pela técnica que a pintora exercitou e vem aprimorando desde sua participação na residência artística P.AiR.S, em Sigriswil, na Suíça, em 2025.

Obra de Renata Laguardia.

Para a mostra, o versátil espaço da WG galeria, se transforma novamente pela expografia de Mariana e André Weigand, o casal que além da formação em arquitetura, é sócio da galeria. As paredes móveis recebem diferentes tons de cores terrosas a dialogarem com as cores das terras férteis expressas nos trabalhos de Renata e, uma das portas de entrada do espaço, acolhe uma instalação de 26 peças entre pequenas telas e tocos de madeira, sob o título “Escrita em água”.

Obra de Renata Laguardia.

Leia com exclusividade o texto curatorial de Ana Avelar para a mostra:

A pintura de Renata Laguardia opera em uma zona instável entre lembrança, sonho e percepção do mundo. Suas imagens, paisagens tomadas por vegetações densas, pequenos grupos reunidos em festas domésticas, figuras dispersas em ambientes abertos, não solucionam narrativas contadas. Há nelas algo de suspenso, como se estivéssemos diante de cenas vistas através das lentes da memória, que é imprecisa em sua natureza, ou de um estado de consciência intermediário, no qual realidade e projeção psíquica passam a coexistir.

Mais do que representar acontecimentos, Laguardia constrói atmosferas. Suas telas são atravessadas por uma temporalidade ambígua: algo parece já ter acontecido e, simultaneamente, ainda estar por acontecer. Essa sensação deriva não apenas da escolha de temas cotidianos, encontros familiares, convivências íntimas, fragmentos de paisagem, num brincadeira entre espaços internos e externos, mas, sobretudo, da maneira como a artista produz a imagem. A pintura se desenvolve por camadas sucessivas, em um processo que reúne e joga com o controle e o acaso. Sobre as cenas previamente construídas, Laguardia lança a tinta, formando uma velatura translúcida superior com a qual opera manchas, que encobrem parcialmente o que havia sido pintado. A superfície passa então a funcionar como uma espécie de membrana móvel: revela e esconde, dissolve contornos, desorienta a estabilidade da visão.

Esse procedimento, que lembra o staining, desenvolvido por Helen Frankenthaler, faz com que a pintura se aproxime de uma lógica psíquica. Assim como no inconsciente descrito por Freud, diferentes tempos, imagens e afetos coexistem simultaneamente na tela sem obedecer a uma racionalidade linear¹. A imagem nunca aparece inteiramente disponível ao olhar; ela emerge em fragmentos, lapsos, resíduos e zonas de apagamento. Em vez de afirmar a nitidez da representação, Laguardia está interessada justamente naquilo que escapa à consciência organizada da visão. Suas pinturas sugerem que ver nunca é um ato transparente: o olhar é constantemente atravessado por desejos, memórias, projeções e fantasias.

Não por acaso, o trabalho da artista estabelece aproximações possíveis com universos pictóricos como os de Marlene Dumas e Mamma Andersson. Em Dumas, encontramos a pintura como um campo de instabilidade emocional e psicológica, no qual a figura humana parece oscilar entre presença e dissolução. Em Andersson, a construção de atmosferas ambíguas transforma espaços domésticos e paisagens em territórios de estranhamento subjetivo.

Laguardia compartilha dessa dimensão psicológica da imagem, mas a desloca para um campo em que paisagem, corpo e memória se tornam inseparáveis. Em suas telas, o ambiente nunca funciona como mero pano de fundo, participando ativamente da constituição afetiva das cenas. Há também ecos de tradições históricas da pintura que atravessam sua produção de modo difuso e não literal. Certas relações cromáticas e a intimidade silenciosa das cenas evocam Pierre Bonnard e a herança dos Nabis, especialmente na maneira como o espaço doméstico se transforma em experiência sensorial e emocional. Ao mesmo tempo, suas paisagens parecem absorver elementos do simbolismo e do surrealismo, não por meio de imagens fantásticas explícitas, mas pela construção de estados mentais e atmosferas oníricas. A natureza surge frequentemente como uma presença excessiva e quase sublime: vegetações frondosas avançam sobre a composição, dissolvendo as fronteiras entre figura e ambiente.

Essa dimensão é intensificada pelo papel do acaso em sua prática. Ao lançar tinta sobre imagens já realizadas e permitir que a matéria escorra, manche e reorganize parcialmente a composição, Laguardia incorpora à pintura um componente de imprevisibilidade. A obra deixa de ser resultado de uma intenção que se quer consciente para tornar-se também um registro de acontecimentos materiais. A tinta age, reage, transforma. Assim, o gesto da artista convive com aquilo que a própria matéria produz autonomamente.

Nesse sentido, suas telas parecem afirmar que a pintura não é apenas um espaço de representação, realizando-se como um campo vivo de negociação entre controle e perda de controle. 

As figuras humanas que habitam essas cenas, grupos reunidos, corpos em repouso, personagens dispersos em ambientes externos, raramente assumem uma centralidade individual. Elas aparecem quase como presenças afetivas compartilhadas, atravessadas por uma condição coletiva e silenciosa.

Não há teatralidade evidente, tampouco psicologização narrativa. O que se constrói é uma espécie de suspensão emocional, em que pequenos gestos cotidianos adquirem densidade enigmática. Mesmo quando reunidos, os personagens parecem envoltos em solidões particulares, como se cada corpo estivesse parcialmente absorvido por sua própria deriva interior. A exposição revela, assim, uma artista profundamente interessada nos limites da percepção e nas zonas opacas da experiência humana. Suas pinturas recusam tanto a objetividade documental quanto a abstração total. Permanecem num território intermediário, onde imagem e matéria, consciência e inconsciente, presença e apagamento coexistem continuamente. Em vez de oferecer certezas visuais, Renata Laguardia produz pinturas que exigem um olhar disposto a atravessar superfícies instáveis, aceitar ambiguidades e reconhecer que toda imagem carrega sempre algo que não pode ser inteiramente revelado.

 

NOTA: ¹Griselda Pollock argumenta, com apoio no pensamento de Julia Kristeva, que o tempo do feminino é “monumental-cíclico, ou seja, o tempo dos corpos, gestações, ritmos. Da repetição e da singularidade.

Obra de Renata Laguardia.

Serviço: A exposição Pleno acaso, da artista Renata Laguardia, com curadoria de Ana Avelar, está em cartaz na WG Galeria até 1º de agosto de 2026. A galeria funciona de terça a sexta, das 11h às 19h, e aos sábados, das 11h às 17h. Endereço: Rua Araújo, 154, mezanino, Centro de São Paulo. Estacionamento no local.

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Publicado por:Philos

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