Nesta semana, QuatroTantos, novo quadro da revista Philos idealizado por Alessandro Araujo, recebe Cris Judar. Seu segundo romance, Elas marchavam sob o sol, foi publicado na Itália, no Egito e em breve será lançado nos Estados Unidos. Nesta 23ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, estará em mesas da Casa Queer e da Casa Pagã. Segundo Sérgio Tavares, crítico literário e escritor, “Judar coleta instantâneos do cotidiano e deles texturiza uma nova realidade”. Assim, Cris oferece uma estética que pode se movimentar feito uma peça publicitária, roteiro ou até mesmo como uma fotografia em contundente lucidez literária sobre o corpo, a memória, a oralidade e a psiquê de cada personagem. QuatroTantos é um espaço para alastrar e descentralizar a literatura contemporânea. 

Quais estéticas ou estruturas artísticas inspiram sua produção literária? 

É engraçado como, sempre que me perguntam algo parecido, sobre referências e inspirações, surgem vários buracos na memória e o meu primeiro impulso é o de responder: “não faço a menor ideia” (risos). É claro que são muitas as referências e as inspirações, eu tiro retratos do mundo e do que me cerca o tempo todo (e das mais diferentes formas, ou seja, sem celular ou máquina fotográfica) e sei que esse “material” arquivado em algum canto do meu corpo, da minha memória, vai ser matéria-prima, usada e reutilizada na elaboração textual, na construção da ficção, dos personagens, das vozes, das narrativas. Outro dia, eu estava no aniversário de um amigo, ele me mostrou o trecho de um diálogo pelo WhatsApp, era uma conversa meio proibida, que começava com a palavra “minhau” (risos), já morri de vontade de incluir em algum texto ou de criar algo em cima disso. Então posso dizer que, mesmo sem ter o distanciamento e a isenção suficientes para analisar quais movimentos ou características permeiam a minha escrita de forma mais contundente, não seria exagerado afirmar que pessoas, filmes que marcaram a minha vida, shows, uma infinidade de discos, assim como pistas de dança e cidades atravessaram e atravessam a minha criação, além de fetiches, padrões, linguagens, obsessões – e por aí vai. Mas, principalmente, o que eu desconheço é o que costura todos esses pontos. Eu gosto muito da ideia de escrever sobre o que eu não sei, sobre processos que eu não domino, nem tenho muita consciência sobre. Vemos muito hoje quem procura validação e respeitabilidade social via literatura, a figura do escritor que é sábio e “autoridade”, que domina todos os processos. Prefiro ir pelo caminho contrário, de praticar o não-saber como experiência estética, essa brecha me dá a liberdade da qual eu preciso, de ir, de voltar, errar, descobrir, inventar, tropeçar, duvidar, parar, começar de novo. O resto é cárcere.

“Prefiro ir pelo caminho contrário, de praticar o não-saber como experiência estética, essa brecha me dá a liberdade da qual eu preciso, de ir, de voltar, errar, descobrir, inventar, tropeçar, duvidar, parar, começar de novo. O resto é cárcere.” —CRIS JUDAR

Em uma recente entrevista para o UBEcast, podcast da União Brasileira de Escritores – UBE, você disse: “[..] como que a própria experiência da pessoa autora, no seu próprio corpo, na hora em que você está produzindo o texto literário, como que isso, determinadas representações, como elas afetam o corpo do texto? […]” Nas suas construções narrativas e textuais, considerando toda sua trajetória literária, quais personagens você considera mais impactados ou modificados pelas experiências corpo-político?

Eu acredito que todos são impactados, cada um à sua maneira. Mas não de forma intencional, algo como: “agora vou escrever as falas de tal personagem, que precisa trazer em si a representação de um corpo-político ou de uma experiência política”. De fato, não penso, nem trabalho, dessa maneira. Acredito que, quando se adota esse direcionamento muito marcado durante a criação, corre-se o risco de o texto ficar panfletário, didático demais, enrijecido. Prefiro quando tudo se dá de maneira “orgânica” (pra não dizer outra palavra bem pior, que seria “natural”, já que nada, de fato, é natural). No meu caso, não tenho como fugir de certas pautas diárias e mais urgentes, de me negar a vê-las, a falar sobre elas, porque elas fazem parte da minha vida, do meu cotidiano. Estou com elas até o topo da minha cabeça. Quando temos certos princípios cravados na pele, na alma, eles fatalmente aparecerão na escrita. Como eu disse acima, sobre a coisa toda ser “orgânica”, não forçada ou pensada demais.

Desde as primeiras histórias, quando eu escrevi meus contos, as questões de gênero e dos corpos, as vozes silenciadas, as existências apagadas que ocupam vãos e territórios desconhecidos já estavam lá, muito presentes, sussurrando, se exibindo ou se arrastando pelas linhas e palavras, consigo ver isso com alguma clareza e hoje dou forma a criações que se somam a essas todas. Elas dependem do que eu crio e construo textualmente, assim como, muitas vezes, eu dependo delas, que me sustentam quando eu canso, quando eu não quero saber de mais nada e quero seguir em outra direção, inovar. São vozes e corpos que me povoam. Ser pessoa escritora é carregar uma multidão que grita, luta, sobrevive e encontra saídas, também por você. A literatura tem dessas ambiguidades, ela torna tudo mais fácil e ao mesmo tempo tudo mais difícil. Tudo mais colorido e mais monstruoso.

“Ser pessoa escritora é carregar uma multidão que grita, luta, sobrevive e encontra saídas, também por você. A literatura tem dessas ambiguidades, ela torna tudo mais fácil e ao mesmo tempo tudo mais difícil. Tudo mais colorido e mais monstruoso.” —CRIS JUDAR

Agora, sobre o corpo do texto, a carne que deixa a escrita literária palpável e concreta, adoro pensar em estruturas narrativas e formas verbais, assim como em sonoridades agregadas ao que está sendo retratado no momento. Que linguagem veste o corpo dessa personagem? Vou experimentar, até descobrir. Por mais que leve séculos até eu me convencer de que, realmente, consegui encontrar o que eu queria ou chegar o mais perto possível do que eu queria. Sim, é carpintaria pura e muitas vezes a gente acaba com as mãos e os olhos machucados. É fascinante pensar e trabalhar isso tudo. O prazer e a dor do fazer literário estão contidos em todos esses detalhes. 

Quais personagens ou passagens foram mais difíceis para você criar e conviver?

Sobre complexidade, Serafim e Roma, do romance Oito do Sete, ganham disparado. Porque exigiram muito, porque não dava pra me basear apenas na experiência humana, embora eles sejam um ser e uma cidade personificados, humanizados, então precisou rolar essa sobreposição, essa transferência, essa troca de registro, a quebra de certas fronteiras. O estiramento da narrativa que se fez necessário para que fosse possível incluir tudo o que cabia neles foi desafiante e maravilhoso de se trabalhar. Foi a experiência delirante mais pé no chão que eu tive em toda a minha vida. Porque eu precisava saber muito bem o que apontar em cada caso, quais características deveriam ser enfatizadas, entendendo as naturezas de cada um deles, explorando todos esses pontos até o limite, extraindo o máximo daquelas essências que não são facilmente captáveis e que, literariamente, são muito difíceis de ser representadas. Eu me baseei demais nos ecos da cidade de Roma, nas pedras velhas pisoteadas, na correria louca dos turistas que só se atropelam e não veem nada. Quis ouvir algum silêncio e foi quase impossível, tentei captar alguma marca de Nero, mas as cruzes não deixaram. Roma só podia ser mesmo uma mulher de fala ininterrupta, que não te deixa pensar enquanto você a escuta. O Serafim foi construído numa jornada de encontros e desencontros com imagens novas e antigas, são pouquíssimas as obras e pinturas que trazem a figura dele, mas como ele é também da terra e do fogo, encontrei muitos Serafins em boates e cabarés, frequentadores de camas mistas, seduzindo as pessoas antes de subir ao sexto céu. Foi delicioso escrever e experimentar tudo o que ele contém, já que cada hora ele adquire uma aparência. Hoje eu penso que o Serafim é um filhote do Piva. A Joan, do meu romance Elas marchavam sob o sol, também foi bastante complexa de ser criada por todas as subjetividades que ela carrega, tanto no que diz respeito ao feminino, quanto pelos mistérios e códigos que estão embutidos na carne dela, no sótão de suas memórias e na forma dela ler o mundo, que é poética, altamente simbólica e não-linear, o que me exigiu um trabalho de linguagem que correspondesse a essa condição, que fosse à altura disso tudo. No momento, estou escrevendo outros personagens, desafiantes de outras formas, vamos ver no que vai dar.

Por que produzir literatura no Brasil?

Porque preciso me expressar de inúmeras formas, aqui ou em qualquer outro canto. O dia precisaria ter setenta e oito horas para dar conta de tudo o que eu quero fazer, incluindo a escrita e indo além dela. E a criatividade se dá dessa forma, desde sempre. Porque a conversa, as relações, o trabalho “formal”, não dão conta de tudo o que eu vivo e penso. Eu carrego dentro de mim muitos cenários e situações e tenho fascinação pela criação textual. De minha parte, preciso da escrita pra sobreviver, para subverter e também – e especialmente – por estar no Brasil de hoje. A impressão que eu tenho é que damos três passos para recuarmos cinco. E essa impressão já é uma constatação, o que se torna ainda mais grave. Então, com honestidade, se eu conseguir desacomodar algumas mentes, se eu fizer algumas pessoas saírem do sofá e questionar alguns padrões impostos desde a nossa colonização, já está ótimo. O prazer de ler, o significado da literatura e das outras artes para a vida das pessoas, a fruição da língua escrita, tudo isso será consequência. 

“Então, com honestidade, se eu conseguir desacomodar algumas mentes, se eu fizer algumas pessoas saírem do sofá e questionar alguns padrões impostos desde a nossa colonização, já está ótimo.” —CRIS JUDAR

Sempre preferi “consumir” a arte que desacomoda, que desloca, que inverte a ordem, então, se eu puder, de alguma forma, causar esse tipo de impacto ou reação, será a glória. Porque se fosse para manter a ordem geral, eu teria escolhido outra “função”, bem mais cômoda e que me garantisse muito mais conforto. 


Cris Judar cursa o doutorado em Letras na Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), com foco na Literatura Brasileira Contemporânea de autoria de vozes dissidentes e não-binárias. É autore das graphic novels Lina e Vermelho, Vivo e do livro de contos Roteiros para uma vida curta (Menção Honrosa no Prêmio Sesc de Literatura). Escreveu o romance Oito do sete (finalista do Prêmio Jabuti e ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura). Lançou o romance Elas marchavam sob o sol, que teve os direitos de publicação vendidos para os mercados estadunidense, árabe, italiano e moçambicano. Integra a seleção de autoria brasileira da antologia CUÍER, publicada pela editora estadunidense Two Lines Press. 


Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024) e Longe de todas aquelas nuvens (2020). É colaborador dos jornais Rascunho e Le Monde Diplomatique Brasil, da revista Philos e da editora Selvageria. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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