Romper com padrões de comportamento e transgredir normas vigentes para produzir arte são características inerentes do convidado dessa edição de QuatroTantos, uma conversa com um dos mais importantes escritores brasileiros, que é ainda ensaísta, roteirista, diretor de cinema, tradutor, dramaturgo e doutor honoris causa pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia). 

Ele nasceu em uma pequena cidade do interior de São Paulo, Ribeirão Bonito, região de Araraquara e, para fugir do pai alcoolista, foi seminarista com menos de 10 anos de idade. Após uma década, abandonou a prática religiosa, assumindo a sua sexualidade e iniciando sua carreira profissional no cinema e na dramaturgia. Orgia ou o homem que deu cria, de 1971, único longa-metragem de sua autoria, foi censurado pela repressão instaurada pela ditadura civil-militar. Assim, buscou exílio no México e nos EUA. Em 1978, ajudou a fundar a primeira publicação homossexual do país, o jornal Lampião da Esquina

É dono de uma imensa obra artística. Recebeu três vezes os prêmios Jabuti e APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes). Traduzido para o inglês, alemão, espanhol, italiano, polonês e o húngaro, seus livros são tecidos com sentimento de exílio, não somente do físico, de corpo-político, mas também pela psiquê do despertencimento, percorrendo tragédias familiares, desamores, o ativismo e, claro, a política. 

Esteticamente, seus livros são ainda experimentações entre as fronteiras demarcadas pela prosa, poesia, conto, romance ou até mesmo pelo roteiro, é uma produção literária que afronta e questiona limites. E sentar com ele para conversar é também acessar a nossa recente história, seja pela perspectiva do totalitarismo, que persiste em nos rodear, dogmas que nunca cessam, ou pela força cultural do passado e do presente, que podem transformar vidas e desmistificar a nossa sociedade.

Nesta quinta-feira, QuatroTantos, quadro da revista Philos idealizado por Alessandro Araujo, é por João Silvério Trevisan.

João Silvério Trevisan, o seu livro, Os sete estágios da agonia, foi escrito em 1979 e lançado somente em 2024. São mais de quatro décadas de espera. O que aconteceu? Se você insistiu pela publicação durante este tempo, por que fez isso? Valeu a pena a espera?

Escrevi Os sete estágios da agonia no período em que fui um dos editores do jornal Lampião da Esquina. Eu, Darcy Penteado e Aguinaldo Silva nos propusemos escrever cada qual um romance curto para publicação na editora Esquina, a mesma do jornal. Mas encerramos a atividade jornalística antes de lançar as obras. Não lembro se Darcy e Aguinaldo chegaram a publicar as suas posteriormente. Nesses 40 anos, fiz mais de uma tentativa em várias editoras, mas em vão. Cheguei até a entregar o texto a um musicólogo, na esperança de que ele pudesse se interessar em adaptar para uma ópera contemporânea, já que a obra tem uma estrutura operística, deliberadamente. Ele nunca me respondeu. Da última vez, tentei uma editora de certo prestígio, que pretendia lançar uma coleção de livros experimentais de escritores à margem. Entreguei os originais, achando que o projeto podia ter a minha cara.  O editor não se interessou e seu projeto experimental nem foi adiante. Desisti por muito tempo. Lançado agora, finalmente, Os sete estágios da agonia pode ser uma cápsula arqueológica, no sentido de comportar dizeres e afetos de uma testemunha ocular da ditadura militar brasileira. Ou seja, como um jovem escritor movido por convicção antifascista resistiu ao sufoco da repressão através da sua obra. Com toda a minha raiva, tesão e indignação de quem se sente acuado, eu queria arrebentar barreiras e arrombar portas para falar do amor que brota na contramão. Exatamente porque ninguém ia me desviar do meu desejo.

“Com toda a minha raiva, tesão e indignação de quem se sente acuado, eu queria arrebentar barreiras e arrombar portas para falar do amor que brota na contramão. Exatamente porque ninguém ia me desviar do meu desejo.” João Silvério Trevisan

Quem é o leitor que você quer atingir com Os sete estágios da agonia?  Tem alguém que ficou para trás?

Os sete estágios da agonia é um romance experimental, de inventividade intensa na estilística e na temática. Seu propósito é mobilizar, para tirar da zona de conforto as pessoas leitoras, que podem saborear uma literatura inquieta. Ele está disponível a quem quiser ter prazer em transgredir o cânone e encontrar a poesia da ruptura. Não faço restrição a ninguém. Tem luz no fim do túnel, mesmo a quem ficou para trás.

A literatura brasileira de 1979 é muito diferente da consumida nos dias atuais? 

“Havia um forte motivo que nos levava, quase obsessivamente, a pensar o país, um outro Brasil. Nosso sonho era inquietar. Hoje vivemos uma promessa de democracia que acaba sendo inibidora justamente por neutralizar arroubos coletivos.” João Silvério Trevisan

Sim, extremamente diferente. Naquela época, a gente encontrava pela frente a muralha ditatorial, com sua censura rigorosa. Mas também por isso tínhamos um pique de enfrentamento político e ousadia inovadora nas mais diversas áreas, com vocação para transgredir. Pense no cinema novo, na Tropicália, no teatro Oficina, nos Mutantes, no cinema marginal, no romance Zero, do Ignácio de Loyola Brandão. Mais ainda, esse foi o período em que entraram em cena os Dzi Croquetes e os Secos & Molhados, com todo seu ímpeto transgressor. Havia um forte motivo que nos levava, quase obsessivamente, a pensar o país, um outro Brasil. Nosso sonho era inquietar. Hoje vivemos uma promessa de democracia que acaba sendo inibidora justamente por neutralizar arroubos coletivos. Não há essa coceira de enfrentamento. Hoje são majoritários os movimentos de integração, tanto na política quanto nas artes. Agora, supõe-se que o Brasil esteja sendo pensado por intelectuais e políticos. Se não chegam  a provocar conformismo e domesticação, as expectativas criadas de um sistema mais igualitário cumprem uma função de aquietar, mesmo quando não cumpridas. É claro que a internet tem sua responsabilidade nisso, insuflando modismos, gerando um debate de baixa qualidade e forçando uma literatura imediatista. Um sabor de mediocridade paira no ar.

Das obras que você escreveu, qual transformou a sua vida? As pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ vêm até você de alguma forma para dizer que sua obra mudou a trajetória delas?

“A fase feroz de chutar portas foi deflagrada antes dele, justamente por Os sete estágios da agonia, no qual dei os primeiros passos em direção a uma pornografia poética.” João Silvério Trevisan

Gosto da minha literatura estar em permanente devir, daí não posso falar de uma única obra que me transformou. Mas acho que o grande impacto abrange a produção do período ditatorial. Em nome do desejo foi meu primeiro romance publicado, mas não o primeiro escrito. A fase feroz de chutar portas foi deflagrada antes dele, justamente por Os sete estágios da agonia, no qual dei os primeiros passos em direção a uma pornografia poética, que logo após se consolidou em Vagas notícias de Melinha Marchiotti, à qual foi adicionado o deboche como recurso literário. Mas a raiz já estava plantada na novela de 1979: a descoberta do gozo amoroso que enfrenta a morte, em meio à podridão e à merda, numa articulação de expressividade desvairada. Por outro lado, minha obra que mais mobilizou o público LGBTQ+ tem sido, sem dúvida, Devassos no paraíso. Encontro pessoas e recebo incessantes mensagens me agradecendo por esse livro que, segundo elas, salvou sua vida. 


João Silvério Trevisan é escritor, dramaturgo, diretor e roteirista de cinema, jornalista, palestrante e coordenador de  oficinas literárias. Nasceu em 1944, em Ribeirão Bonito, São Paulo. Na década de 1970, iniciou sua produção artística e assumiu-se homossexual, duas facetas que sempre estiveram imbricadas em sua vida. Seu primeiro, polêmico e único longa-metragem, Orgia ou O homem que deu cria, de 1971, foi censurado pela ditadura civil-militar e, entre outras razões, o levou ao exílio. Já de volta ao Brasil, participou, em 1978, da fundação do lendário jornal Lampião da Esquina, primeira publicação homossexual do país, e do Grupo Somos – movimento vanguardista na promoção dos direitos da comunidade LGBTQ+. Suas mais recentes obras são a narrativa autobiográfica Meu irmão, eu mesmo (2023), o romance A idade de ouro do Brasil (2019) e a 2ª edição ampliada do ensaio Seis balas num buraco só, sobre a crise do masculino (2021). É também autor de Devassos no paraíso, clássico ensaio multidisciplinar sobre a história da homossexualidade no Brasil. Venceu por três vezes os Prêmios Jabuti e AP.C.A. Foi finalista do Jabuti e Oceanos com suas recentes obras auto-ficcionais Pai, Pai (em 2018) e Meu irmão, eu mesmo (em 2024). Sua primeira novela, Os sete estágios da agonia, inédita desde 1979, foi publicada em 2024. Conquistou, entre outras, uma bolsa da prestigiosa Fundação Vitae, para escritura do romance Ana em Veneza. Sua vasta produção artística e intelectual conta quinze livros publicados, dos quais dez romances, duas coletâneas de contos e três obras ensaísticas, além de roteiros de cinema, peças teatrais e artigos na mídia de todo o país. Em 2023, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Uberlândia (MG).


Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024) e Longe de todas aquelas nuvens (2020). É colaborador dos jornais Rascunho e Le Monde Diplomatique Brasil, da revista Philos e da editora Selvageria. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Avatar de Desconhecido
Publicado por:

Deixe uma resposta