Tijolo sobre tijolo. Um ar quente e úmido anunciava as águas torrentes que brevemente cairiam sobre o asfalto. Nos buracos do telhado das casas humildes do bairro era possível ver frestas de luz entrando, assim como os respingos das chuvas fortes entre fevereiro e março, e que pareciam fazer o céu desabar. Um mundaréu d’água. As últimas casas de madeira que ali insistiam em sobreviver durante anos, certamente tem os dias contados em uma nova proposição de mundo. E não mais ultrapassará décadas, quem dirá um século. Os tijolos espalhados no quintal estavam umedecidos pelas águas e cobertos de limo. Lembravam um projeto não levado adiante. Um progresso que nunca ocorreu. Traumas. Esquizofrenia. O igarapé tinha destruído o asfalto, e agora cheirava à esgoto à céu aberto, era perigoso passar por ali quando as chuvas tomavam conta dos dias. Na época das grandes águas escutávamos histórias sobre peixes, cobras e pequenos jacarés que transitavam, levados pela correnteza, desaparecendo rapidamente. As pessoas diziam se tratar de pavulagem. Só potoca mana, como dizem. As moradas estavam parcialmente submersas. E, ao final do dia, se observava uma coloração sépia e bronze. O que criava uma atmosfera misteriosa e particular para aquela imagem. Era bonito estar debaixo daquele céu. Uma casinha rósea de madeira por onde passava um igarapé, estava entortando no terreno aquoso e parecia lutar para continuar ali. Soube que uma jovem de nome Sebastiana, vinda do interior, se instalava ali vez ou outra. Era de poucas palavras. Vista raramente. Diziam que a casinha era da família da moça, mas também que ela era garota da vida e que vinha à Belém para fazer dinheiro. Diziam que a casa pertencia ao seu amante, um pescador de Breves, com quem era “amigada” desde criança. A gente nunca pode confiar totalmente na língua do povo. Se ela não fosse bonita, diria que se tratava da Matinta Perera!, me contou uma senhora. O povo brinca assim. Ela aparecia e desaparecia feito coisa visagenta. Fiquei com aquele nome na cabeça: Sebastiana. Uma moça com nome de velha que aparecia na casinha de palafita.
Nos fundos era possível observar algumas palmeiras de açaí que germinavam aos montes. As bandeirolas vermelhas, disputavam a atenção. AÇAÍ acenando o costume caboclo da farinha com tambaqui, pratiqueira, camarão, charque ou mortadela frita. E muitos nem sabiam mais que o AÇAÍ é uma encante: IAÇÁ a sagrada mãe que saciou a fome dos Tupinambás e dos paraenses. Dizem que aqui se consome mais açaí do que leite. Se toma açaí na mamadeira desde muito curumim, mana.
Uma cidade que desaparecia com dificuldade. Talvez pelo fato de sempre chover e a periferia ter uma significativa população ribeirinha e indígena. Uma faixa pendurada no meio da rua anunciava a festa de aparelhagem: TREMENDÃO TUPINAMBÁ. O crescimento da violência urbana, a expansão do mercado de concreto e cimento, os mesmos e antigos interesses capitalistas de negociação em torno da matéria prima. Látex. Ouro. Água. Castanhas. Animais. Cosmologias. Eu não ando muito bem. E pensei se Sebastiana pensava as mesmas coisas que eu… O nome dela ficou na minha cabeça, confesso.
As árvores centenárias em praças públicas e o sabor refrescante do sorvete de bacuri. A Samaúma, árvore sagrada, mãe de todas. Mairi é uma cidade ancestral. Sonho nortista de permanecer, mas em melhores condições. Um país inteiro chamado Pará. No Norte do Brasil. A linha de desenvolvimento adentrando Roraima, Acre e Rondônia. Com lobbies realizados, exitosos… É um sonho antigo dos negociadores de terra. E te roubam a velha casa, as antigas brincadeiras, te dão outro nome… Tudo pomba lesa!
Uma ilha inteira que desaparece. Arquitetos e fotógrafos negociando imaginárias formas de vida. Quem tu és na fila do pão, maninha? Sou é ninguém na era de ouro, eles é quem decidem sobre as Amazônias! A bienal dos curadores. Dizem que eles… Hummmm tá, cheirosinha. Tudo articulação. Nas mãos de quem? Parece que eu tô mundiada, mana!
Os prédios de vidro espelhando a floresta que os pedestres não conseguem avistar. E nunca conseguirão observar do alto dos arranhas céus. De Cayenna à Belém uma rota intermitente de negociações, contrabandos, especulação de petróleo e água potável pirateada. Um modelo duradouro e resistente. O cheiro de patchouli vindo de algum lugar, trazido pela ventania… Ao menos um vento.
Esta cidade nunca será dos Tupinambás novamente. Ai, credo, mana! A velha conveniência para fazer morrer. Mas daí chove. E tudo cresce novamente. Velhos rostos, que agora imploram por reconhecimento em fotos 3×4. Desesperados por seu desaparecimento. Os álbuns de família mostrando a pele embranquecendo. Foi amarelando, foi empardecendo. A herança indígena que circula nos pesadelos noturnos gemendo de terror e medo. Tu és branca ou parda? -Sou cabocla!
A crise climática sendo o campo de análise para os debates durante a Conferência das Nações Unidas. Tá um calor insuportável mana, a gente fica igual pupunha. Só o óleo! Há tantas histórias debaixo do asfalto. Aterradas com lixo. Um vapor que vem debaixo. Uma cidade submersa. Aquática. Morada de cobra e boto. As meninas novinhas de Breves e Soure trazidas por homens mais velhos nos navios, futuras empregadas, esposas e prostitutas. -Isso é real? Veja bem: Belo Monte, Carajás, Tucuruí, Transamazônica, Belém-Brasília. E te digo mais: Não te digo é nada! Esqueletos sem nomes. O levante Tupinambá e a Cabanagem. Encantaria não morre nunca! Mas no Norte do Brasil há tanta Morte. Uma cidade escondida no fundo. Brasões, continências e apertos de mãos. A Amazônia Brasileira. E o antigo modelo de integração nacional. Os vídeos passam rápido nos stories. O mormaço certamente me perturba um pouco. Está bastante quente. Meu cérebro cozinhando. E não é o calor equatorial. A cabeça não está boa. As notícias dizem: em 2050, Belém será a cidade mais quente do mundo. Sinto que estou me afogando no meu próprio suor. Sebastiana o nome da pequena, não? O que ela pensava sobre isso? A casinha de madeira desaparecendo. Parece que o céu vai cair, mana! Era possível escutar os estrondos vindos relampejantes do céu. Sebastiana! Será que ela tinha vergonha desse nome? Tão nova e tão velha.
XAN MARÇALL (Pará, 1986) Atriz, escritora, contadora de historias, professora de teatro, realizadora de cinema, mestranda em antropologia. É uma artista interdisciplinar amazônida. Seu trabalho tem como interesses memória, decoloniedade, biopoder, ancestralidade trans e travestis e táticas de vida no dialogo entre arte, espiritualidade, em que imagem e imaginários afroindígenas orientam processos de cura, resistência e emancipação.