Penso em Zbigniew, meu voador imaginário, quando ele despertava nos dias sanguíneos [vésperas de um carnaval insólito?] e não haveriam as funções cut/paste que o mudassem de lugar, que o deslocassem para fora, fora da história inteira do coração. A sua palavra de poeta: dela só resta o sopro e os meus olhos buscam decifrar as linhas no ar.
Zbi, caríssimo, alma mortificada e inconstante, após o seu dilúvio particular, que nos entregássemos à união do raio de sol aos fios de sol naquele dia ardente, notoriamente ardente o dia que sucede a todos os outros e no qual nos enfiamos agradecidos pela aventura inconfundível. Para alguns, resta o corpo, para nós o sopro.
Os sóis se multiplicam alucinados. Houveram erros no tocante a Uranus.
Lembra das florestas dentro das florestas que nos entretinham amiúde a cadência dos passos e nos colocávamos ajoelhados, as duas mãos atrás da cabeça, deixando-nos cercar pelos coelhos vivos no propósito único de desencontrar o tempo, desalinhavar as horas dos números e nós queríamos crer estarmos suspensos porque o amor demora a apagar?
Ah, o Relógio Maior, as rosas cujos espinhos vinham abaixo por doença, e nos entreolhamos para perguntar: somos todos os livros que lemos? Ali, na presença de um e de outro, ainda assim era possível sentir a falta, intuir as páginas arrancadas, o teor da loucura das metáforas.
Ajoelhados, os dedos teclando na nuca mensagens sinuosas, divertíamos na admiração pelos lábios privados de fôlego, a prosopopéia dos coelhos espalhava os sonhos de uma época nossa, aqueles sentimentos do acaso que pediam uma nova tempestade sobre nossas cabeças quiméricas. Você me disse: a chuva é infalível, salva um deserto, intima a paz.
Não se tratava de paz e sim do que se estampava na realidade dos nossos rostos. Que o mundo nos encerrasse numa câmara fria e sinistra, o amor demora a apagar. A chama dupla iluminará até a nossa vergonha última e, Zbi, você estupefato se surpreenderá com as vozes vindouras das florestas virgens.
Ele se exalta e permite que eu me perca. Pés de movimentos imprevisíveis. O ato calmo contido no ponto morto do coração, a graça tardia que pudesse explicar uma noite pura de amor, o nosso pacto tácito.
Amanhã de manhã, espere, espere porque amanhã de manhã confessarei: voilá la poesie ce matin avec le café et un pain au chocolat, circunstâncias solares que derrubam a sua perpétua insônia, a ansiedade que o devora. Dê-me a síntese de três árvores para venerarmos. O desejo, o perfume, o beijo infinito renascem de um abismo como as rosas do mal e iremos adormecer no templo de Kafka.
Aceitemos a ajuda daqueles animais que dançam conosco na sombra da folhagem e você descobriria a nuca rosa ao apanhar os meus cabelos eriçados sobre a pele clara e tudo o que a morte um dia viesse arrasar estaria no som dos nossos corpos roçando um no outro, um no outro, um no outro, aperfeiçoando-nos.
The spirit is the hollow being in the making, com olhos lâmina, os seres ocos da floresta correm à caça porque a fome amaldiçoada os possui. Na rua em que vivemos, a velha, às duas da manhã, distribuía migalhas proibidas aos columbídeos madrugadores e o seu corpo frágil sacolejava com o riso, os cotovelos apoiados no umbral da janela, a brisa anestesiando a sua mania de zombar da mortalidade. Espia o poema morcego que nos descreve ao reverso.
Ingeborg escreveu a Celan: convém fazer de conta que as nossas ações entre as oito da manhã e seis da noite importam tanto quanto colocar uma vírgula ou um ponto vírgula num pedaço de papel. E Celan: eis o poema a parecer uma máscara, para os outros esconderem as feições diárias, as palavras chegam a mim pelo ar e temo que de novo alcancem-me no sono. Ingeborg: pelo ar, os meus pensamentos sempre buscam você. Por favor me escreva para que eu saiba que continua aí e não me sinta tão só. O amor demora a apagar enquanto, distinguindo-se das amizades, pede constância.
A súplica da sua mão, Zbi, no instante derradeiro da terra, as imagens concretas de pedra, o lampejo de estrelas agonizantes diante das flechas mágicas que nos tatearam e agora o amor que demora a apagar e expira como expira o mundo, não como uma explosão, mas com um suspiro, uma vírgula deletada.
KÁTIA BANDEIRA DE MELLO é escritora, poeta e artista visual natural do Rio de Janeiro. Radicada desde 1998 nos Estados Unidos, tem passagens pela School of Visual Arts, The Art Students League of New York, EAV – Escola do Parque Lage, Fondazioni Zavrel (Sarmede, Itália), Billar de Letras e Laboratoria Emília (Madri, Espanha), ArCo (Lisboa, Portugal). Possui diversos livros de ficção, poesia e ilustrações publicados. É editora e curadora da Revista Philos.