Philos lança Excessos que faltavam, novo livro de poemas de Igor Calazans. Sexto livro publicado pelo poeta, quinto de poesia, reúne uma escrita marcada pelo desassossego, pela investigação do tempo, da memória, do corpo e das inquietações humanas.

A Philos lança Excessos que faltavam, novo livro de poemas de Igor Calazans Abreu, poeta, jornalista, professor e produtor cultural nascido em Niterói (RJ). Sexto livro publicado pelo autor e quinto dedicado à poesia, a obra chega ao público como uma reunião de poemas atravessados pela inquietação, pela investigação da linguagem e por uma insistente disposição para observar aquilo que permanece irresolvido.

Concebido e produzido pela Casa Philos no outono-inverno de 2026, na cidade do Recife, o livro nasce de uma proposta editorial que acompanha a própria natureza da escrita de Calazans: uma poesia que se movimenta entre pensamento e experiência, entre abstração e matéria, entre o íntimo e aquilo que diz respeito à condição humana.

Em Excessos que faltavam, pensar não significa necessariamente encontrar respostas. A poesia se estabelece justamente no espaço da pergunta, no intervalo entre aquilo que pode ser nomeado e aquilo que permanece como sensação, memória, dúvida ou inquietação.

É essa característica que a escritora Mariana Ianelli identifica no posfácio da obra. Aqui, apresentamos o texto na íntegra:

O “LIVRO DO DESASSOSSEGO”
de IGOR CALAZANS

Convém lembrar o que nem sempre se reconhece: que a poesia tem seu modo de pensar. Pode estar em contínua correspondência com outros sistemas de pensamento, mas tem, ela própria, seu orbital, suas leis, seus circuitos, de sorte que nada fica a dever à bem afamada vizinhança. É importante dizê-lo justamente aqui, pois, se é verdade que a poesia de Igor Calazans toca o que é existencial e filosófico, o modo como o faz é da ordem do poético.
Sim, as indagações do poeta são inúmeras e recorrentes. Mas não se trata do tipo de indagação que persegue respostas ou esclarecimentos. Trata-se mais de dar respiração e configuração poéticas ao desassossego deste que escreve. Pois Igor é um poeta movido pelas próprias inquietações (que não se calam), “um ser inconformado”, a quem o irresolvido, o inexplorado e o impossível estimulam, poeta que observa ciclos, traslados, migrações, sincronicidades, observando-se também a si mesmo em seu pensar ritmado, em suas figurações e abstrações, em sua geometria de retas, curvas, círculos e arestas rebeldes de seus limites.

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Esse pensar obstinado, dado aos excessos e aos desvios, de um voraz leitor da própria mente, é nele que entramos ao entrar neste livro. E a rebeldia que lemos nesses poemas, em sua respiração e em seus caminhos (ou descaminhos) atravessados por desertos, vazios e sombras, excede igualmente o pensamento: é uma rebeldia de criatura humana, uma inquietação de alma. Daí encontrarmos em seu léxico grande incidência de signos religiosos, demônios, anjos, prece, milagre, pecado, culpa, castigo, contrição, salvação, redenção, sacrifício. O poema Transferência parece exemplar desse grito de criatura logo nos primeiros versos: “Tenho uma transferência com Deus / que me tirou quase tudo enquanto havia / chances de se ater em paz”. Ou nestes versos mais adiante: “O que tenho de Deus, recebi em vão, / como uma súplica de fazer tremer qualquer fé dissimulada”.

Assim, o poeta se observa não apenas em meio a sua galáxia de ideias e abstratas conexões. Observa-se enquanto homem que ama, que se pergunta pelos outros e pelo coração dos outros, que se atém às conexões de corpo e alma entre os seres – inconformados ou não – deste mundo. O voraz leitor da própria mente é, pois, o mesmo que desce ao próprio coração, sem faltar aí sua penetrante inteligência de menos entender do que observar. Na amplitude desse pensar poético, de mente e coração (inquietos) se interpenetrando, Igor toca o sentimento do tempo, a matéria espectral da memória, o muito que se perde e o que fica, a chaga que é de um, a chaga que é de mil. Por todo o livro, um sondar de caminhos, distâncias, alturas, horizontes, vias, rumos, voltas, saídas, destinos. Por todo o livro, olhos para abismos, rupturas, ruínas, vestígios. Olhos para os chagados, os crucificados, os sozinhos, os “pobres de mundo”.

Cada leitor há de encontrar em Excessos que faltavam sua constelação de poemas e versos inapagáveis, como os encontrei nas muitas reverberações que me ficaram dessa leitura, logo estendida e espiralada em releitura. Volto agora a visitar alguns deles, como No Fundo da Imagem, O Íntimo Espaço da Catástrofe, Guia Espiritual, Lembre-se, A sós, Boca, Saliva, Dentes e Lâminas, Ao Corpo que me Caiba, Fora da Lei.

Ou ainda, entre um sem fim de perguntas que não calam: “Quem duvida / de que temos uma dívida externa / com os detalhes?”; “É indiferente / ainda estarmos aqui?”; “Para onde vai tudo que não começa?”; “Você que me lê, sabe com quem lida?”; “Será que consente quem me escuta sozinho?”.

Antes que Eu me Esqueça, poema que fecha o livro (sem o fechar, continuando-o), merece uma atenção à parte. Imagino-o sendo lido pelo próprio poeta, em viva voz, num de seus saraus (que poetas e leitores do Rio conhecem de perto). Imagino os ouvintes desse sarau, o que cada um expressaria em seu rosto, o que diriam seus olhos, acompanhando esse longo poema que condiz a todos, também ele ardorosamente interrogante, inquietante, a observar os nossos tempos, suas forças de pensamento, suas formas humanas cruentas, seus rebentos desconformes, crenças, ídolos, emblemas, a agonia dos sentidos, a loucura, o absurdo.

Sim, sabemos que tudo é linguagem, e o que a linguagem poética mobiliza, em seu modo muito próprio de pensar, seja por ideias, imagens ou musicalidade dos versos, é também da ordem do indizível, do que foge não somente ao esperado, mas do que foge também à palavra, através mesmo da palavra, isso que se prefigura, configura e transfigura, infinitamente mutante, movediço, irresolvido. Igor Calazans bem sabe disso, e nos dá esse indizível, neste Excessos que faltavam, que é seu “livro do desassossego”.

O desassossego anunciado pelo próprio universo do livro aparece como uma espécie de princípio de movimento. Calazans escreve a partir de uma condição de inconformidade, examinando ciclos, deslocamentos, migrações, coincidências, memórias, rupturas e possibilidades.

A escrita percorre também uma dimensão profundamente humana. O poeta se observa enquanto sujeito que ama, que se relaciona com os outros e que procura compreender as conexões entre corpo, alma, memória e existência. Nesse percurso, surgem imagens de abismos, ruínas, distâncias, horizontes, caminhos e vestígios.

Sem mais delongas, leia abaixo três poemas inéditos do autor presentes no livro. Aproveite e compre o seu agora mesmo na lojinha da Casa Philos.

SOBRE SALTOS E PLATAFORMAS

Sobre saltos e plataformas,
lançar-se alto,
até ornamentar o pulo.
E, quando cair, levantar,
ao menos até conseguir tomar
todo o árduo ar sozinho.

PEQUENAS GRANDEZAS

Tudo era tão grande
E agora que ficou maior
Até parece aconchegante…
Esgarça o que estava contraída,
Abrange, por menor o seu alcance,
E cresce até perder de vista
A distância encolhida que se expande.
Detalhes das pequenas minorias
Escolhidas por medidas limitantes
Deixam espaçar por quem se alinha
A tamanhos que não bastam ser bastantes.
Tudo conforme se assimila:
O tempo e suas variantes
Abrem a melhor perspectiva
E ampliam em outras vias quase unânimes
Pouco mais do que se mostra e apropria
Uma infinda vontade de ver longe
As lacunas em alturas recaídas
Encontradas sem saídas por quem some.

O BECO. E HÁ SAÍDA?

Perdermos o beco.
Ninguém mais quer escrever no escuro.
Os enigmas saíram pelas ruelas
em remendos. Ainda há uma pressão
no ouvido.
Quem sabe por onde anda a cabeça
de quem chegou por último?
Quem sai pela porta da frente
ou por trás da moita,
fazendo acrobacias animalescas?
Antes da intuição,
as narinas dilatam pela alucinação
do coito interrompido,
do cuspe de sangue
na marca de nascença.
Onde está a luz de um novo túnel?


Igor Calazans Abreu, nascido em Niterói-RJ, é poeta, jornalista, professor e produtor cultural. Excessos que Faltavam é o seu sexto livro publicado, quinto de poesia. É editor do site RecantodoPoeta.com, coordenador da oficina poética LaB Poético e curador dos saraus Epoché, Ode ao Poeta e Roda de Poesia, todos realizados no Rio de Janeiro. Em 2022 recebeu o Prêmio José Cândido de Carvalho, oferecido pela Câmara Municipal de Niterói, por suas atividades e obras literárias.

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Publicado por:Philos

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