Ainda sem saber como deixei o monstro dormir. A responsabilidade me deixava apavorado e preferia contar histórias de terror para os primos mais novos. Ora, que desculpa esfarrapada. Admita ao menos uma vez, o nome disso vai. Certo. Picardias. Isso mesmo; picardias – ou espírito de porco – como preferir. É legítimo sentir raiva. Disse a analista. Fique tranquilo, você não é psicopata, de alguma forma a inconsequência se transformará em sombra mais cedo ou mais tarde. Continuou.
Quando estiver no último galho da quaresmeira, você salta e já puxa o barbante. Ordem de irmão mais velho para o mais novo. Tem certeza de que esse paraquedas vai funcionar? Perguntou o caçula. Temos que testar primeiro, assim saberemos. A sacolinha plástica de supermercado estava numa pequena mochila infantil desgastada. Ele devia ter uns cinco, eu oito. A cicatriz no pulso após o pulo da árvore, uns 24 anos.
Desde pequeno me levavam à missa, forçado, obviamente. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe. Logo em seguida, respondia em tom alto e com os olhos virados para cima – Graças a Deus. Ao lado do rosto reprovador paterno.
No interior, domingo à noite, íamos nós cinco; meus dois irmãos e meus pais, a uma lanchonete jantar. A cumplicidade ao ver susto inesperado fortalecia a irmandade, assim como também o castigo ou o arrependimento que iriam chegar.
Ele foi ao banheiro, vai, pega logo o palito de dente e coloca dentro da batata-frita. O riso ancorado no silêncio forçado nos deixava vermelhos de ansiedade. Não que esperávamos o mal, mas o devir dele. A inconsequência só se estabelece algumas vezes. Depois que o palito sangra a boca do pai, a piada acaba e alguma sequela de responsabilidade surge.
O espanto sempre me fascinou. Não um espanto terrível, onde existe um sofrimento definitivo. Mas me fascinaram sempre as pessoas que, de repente, começam a pensar coisas que quebrem com a monotonia cotidiana. Seria lindo ver a avó salgar o café, algumas gotas de vinagre no copo de água, ao lado da cama do irmão, cortar o número das páginas do livro didático do colega, gritar em uma meditação, desejar feliz Natal mostrando o dedo do meio.
Inventar algumas ações na cabeça não quer dizer que as coloque em prática. Afinal, jogar a bomba e esperar por algum arranhão é mais que pífio, porém, jogar a bomba sem causar nenhum dano, voltamos ao fervor. Criei um mundo assim, para me salvar. Talvez, com tantas esquisitices lógicas impostas diariamente, o imprevisto é mais que vívido. “Tanto mais vivo, de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá”, descontextualizando Gil.
Nesse momento, dentro da minha geladeira, encontra-se um par de meias novas embaladas. Por quê? Bem, não moro sozinho. É sempre digno pensar no coletivo, dividido pra lá e pra cá.

Victor Grizzo é artista visual, ilustrador e escritor. Graduado em História pela Universidade de São Paulo. Desde muito pequeno cursou aulas de desenho e pintura. Frequentou diversos ateliês de artistas contemporâneos relevantes na produção visual brasileira. Sua pesquisa artística trabalha questões relacionadas à ciência, anatomia e reflexões acerca da História da Arte, tomando como plataforma diferentes mídias (pintura, desenho, instalações). Participa de inúmeras exposições coletivas e individuais em galerias, centros culturais e museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Como educador, já passou por inúmeras instituições de ensino como Colégio Tutor, Teia Multicultural e Senac. Desenvolve trabalhos na área de ilustrações para livros, capas de disco e colaboração em ativações de empresas. Possui dois livros publicados: “Luz dos Olhos Meus” publicado pela Casa Philos e “O Segredo que Habitava o Armário” publicado pela editora Flamingo no Brasil, Portugal e Angola.