Anita Schwartz Galeria de Arte apresenta MARMITA, exposição coletiva que investiga trabalho, fome e desejo a partir de um objeto popular brasileiro. Com curadoria de Ulisses Carrilho, exposição nasce da coleção de marmitas em porcelana da galerista Anita Schwartz e reúne artistas de diferentes gerações em torno do recipiente que acompanhou um século de transformações do país.

A Anita Schwartz Galeria de Arte, na Gávea, Zona Sul do Rio apresentará a coletiva Marmita, que reúne artistas de diferentes gerações sob a curadoria de Ulisses Carrilho. A mostra elege um objeto coadjuvante do cotidiano brasileiro como fio condutor para examinar as relações entre trabalho, fome e desejo no país. Poucos objetos circularam por tantos territórios da vida nacional.

Companheira do operário no chão de fábrica e do trabalhador em trânsito pelas grandes cidades, a marmita serviu de emblema político já na campanha presidencial de Eurico Gaspar Dutra, em 1945, quando o “marmiteiro” virou personagem de um dos jingles mais lembrados da história eleitoral brasileira. De lá para cá, o recipiente nunca saiu de cena: condensou, ao mesmo tempo, a precariedade e a dignidade do trabalho, a escassez e a garantia do sustento.

Sua trajetória recente revela outras camadas. A marmita migrou do universo fabril para as academias e os aplicativos de dieta, convertida em mercadoria da cultura fitness e da gestão do corpo. Na língua falada, ganhou ainda um sentido inesperado: virou gíria para vínculos amorosos informais e relações não monogâmicas. Entre o alimento e o erotismo, o utensílio se transformou em síntese de fantasias sociais brasileiras.

O ponto de partida da exposição é a coleção de marmitas em porcelana reunida ao longo dos anos pela galerista Anita Schwartz. Diante dessas peças, a curadoria formula as perguntas que organizam a mostra: como um objeto criado pela necessidade atravessa fronteiras de classe? O que acontece quando um instrumento de sobrevivência entra no circuito do colecionismo, do design e da arte?

Marmita parte da hipótese de que os objetos possuem vida social. Poucos artefatos atravessam tantas escalas da experiência brasileira quanto a marmita: do trabalho ao desejo, da sobrevivência ao colecionismo, da intimidade doméstica à circulação pública. A exposição acompanha os deslocamentos desse objeto para investigar como formas materiais aparentemente banais condensam relações de classe, afeto e imaginação política. Mas esses objetos também pertencem ao campo da fantasia e do fetiche: são suportes de projeção e identificação. Interessa-me justamente tornar visíveis essas camadas, expondo os modos como a cultura brasileira investe seus objetos de valor simbólico e erótico.” —Ulisses Carrilho

A dimensão histórica da mostra é construída por obras fundamentais da arte brasileira que investigam as relações entre alimento, trabalho e cultura material. Entre elas está Lute [Marmita] (1967), de Carlos Zílio, produzida em um contexto de intensificação da repressão política no país e hoje reconhecida como um marco da arte conceitual. A exposição reúne ainda os desenhos Órgãos na Bacia e Carne na Tábua, de Anna Bella Geiger, nos quais utensílios domésticos e fragmentos do corpo aproximam intimidade, consumo e violência simbólica.

“Em Marmita, esse signo atravessa a mostra como um gesto relacionado à história da desigualdade brasileira e ao contexto da Ditadura Militar em que muitas dessas obras foram produzidas.” —Ulisses Carrilho

A presença recorrente do arroz e do feijão em obras históricas de Carlos Vergara remete à alimentação como elemento constitutivo da experiência social brasileira, enquanto Um Sanduíche Muito Branco (1966), de Cildo Meireles, um dos primeiros trabalhos conceituais do artista, desloca o alimento para o campo da linguagem e da crítica. 

Artistas como Waltércio Caldas, Lenora de Barros, Farnese de Andrade e Ivens Machado ampliam esse percurso, revelando como objetos cotidianos podem condensar memória, imaginação e relações de poder. Em diálogo com essa genealogia, a produção recente de Andréa Hygino reinscreve palavras como “arroz”, “feijão” e “carne” em debates contemporâneos sobre escassez, valor e fome simbólica.

No campo das referências, a coletiva evoca dois textos fundadores do pensamento brasileiro sobre fome e cultura. Em Estética da Fome (1965), Glauber Rocha defendia que a carência material da América Latina não era apenas um problema econômico, mas uma experiência histórica geradora de linguagem e invenção. Décadas antes, o Manifesto Antropófago (1928), de Oswald de Andrade, já havia proposto o ato de comer e devorar como operação ao mesmo tempo biológica, política e simbólica. Na mostra, a fome se expande para além do prato: fome de reconhecimento, de contato, de prazer, de pertencimento e de futuro.

O tema segue no centro do debate público. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em 2025, com menos de 2,5% da população em situação de subalimentação no triênio 2022-2024. Os números do IBGE, porém, indicam que a desigualdade persiste: em 2024, cerca de 48,9 milhões de brasileiros viviam abaixo da linha de pobreza, dos quais aproximadamente 7,4 milhões em extrema pobreza. Em 2023, cerca de 64,2 milhões de pessoas moravam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar.

Claudia Jaguaribe, Menino Xadrez

É nesse intervalo entre avanço e ameaça que a exposição se situa. A indústria do bem-estar, os regimes de controle do corpo e a exposição permanente dos estilos de vida nas redes transformaram o ato de comer em disputa estética, econômica e afetiva. Ao reunir artistas em torno de um signo aparentemente banal, Marmita propõe um retrato das economias materiais e emocionais do Brasil: entre o recipiente e o corpo, entre a refeição e o desejo, a mostra persegue aquilo que circula, transborda e escapa a qualquer tentativa de contenção.

Cildo Meireles, Um sanduíche muito branco, 1966

Há quase 30 anos, a Anita Schwartz Galeria de Arte atua de forma contínua no campo da arte contemporânea brasileira, com contribuição consistente para a circulação, a institucionalização e a consolidação da produção artística nacional. Ao longo de sua trajetória, a galeria participou de relevantes feiras nacionais e internacionais, estabelecendo interlocuções duradouras com diferentes agentes e contextos do circuito da arte.

Fundada em 1998, no Rio de Janeiro, a galeria passou a ocupar, em 2008, sua sede atual no bairro da Gávea, um dos principais polos culturais da cidade. O edifício, com aproximadamente 700 metros quadrados distribuídos em três pavimentos e projeto arquitetônico assinado pelo escritório Cadas Arquitetura, consolidou-se como a primeira galeria carioca concebida segundo o conceito de cubo branco, projetada especificamente para a realização de exposições de arte contemporânea. A Anita Schwartz Galeria de Arte representa artistas consagrados, nomes historicamente relevantes da arte contemporânea brasileira e expoentes da nova geração. Seu espaço expositivo viabiliza a realização de exposições, instalações e projetos especiais, reafirmando sua atuação no circuito institucional e no mercado de arte, em diálogo contínuo com museus, curadores e colecionadores.


SERVIÇO: Exposição Marmita, com curadoria de Ulisses Carrilho. Abertura dia 23 de junho de 2026, às 19h. Em cartaz até o dia 8 de agosto de 2026 na Anita Schwartz Galeria de Arte, Rua José Roberto Macedo Soares, 30, Gávea, Rio de Janeiro.

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Publicado por:Philos

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