Desde 2022, a ArPa vem se consolidando como uma das principais feiras do circuito nacional e latino-americano por sua primorosa curadoria, infraestrutura de alta qualidade, localização central e icônica, programação paralela singular e autêntica, e a pluralidade de olhares dos curadores convidados que colaboram a cada edição. E a Revista Philos convidou o curador e crítico de arte Lucas Dilacerda, para construir nossa listagem de destaques e nos contar suas impressões acerca da quarta edição da feira de arte. Sem mais delongas, eis os nossos destaques da ArPa 2025:
A curva é um desvio para o imprevisível
Esta seleção não pretende listar os “melhores” artistas da ArPa, tampouco ressuscitar o velho fantasma da crítica judicativa, moral ou estética. O que se apresenta aqui é um recorte e, como todo recorte, é situado.
Trata-se de destacar 10 perspectivas poéticas que, a meu ver, produzem um desvio fora da curva. Em meio às tramas do circuito, esses trabalhos operam fissuras, instauram zonas de experimentação plástica, estética, visual, conceitual e política. São obras que não apenas ocupam o espaço, mas o tensionam; que não se acomodam na linguagem, mas a reviram; que não se contentam com o visível, mas insistem no insondável, no equívoco, no por-vir.
Essa lista é, antes de tudo, um convite ao olhar atento e à escuta demorada, em um tempo dilatado. É um mapeamento sensível, um gesto curatorial provisório que busca vislumbrar, na cena da ArPa, algumas das práticas que, com suas singularidades, estão redesenhando os modos de fazer, pensar e sentir a arte hoje no contemporâneo.
Curva como desvio. Curva como aquilo que rompe o traçado linear, que desestabiliza a rota reta e previsível do gosto, do mercado, da norma. Como no barroco e no rococó, onde o ornamento recusa a contenção e transborda. Como no gótico, onde a verticalidade desafia a gravidade e a matéria se retorce em direção ao sagrado. Como nos corpos distorcidos que recusam o padrão, nos rios que serpenteiam sem mapa, no sulco imprevisível da madeira, na organicidade desobediente das plantas e da natureza. Curva como gesto que se lança no campo da imprevisibilidade — onde forças inauditas podem emergir.
Lucas Dilacerda é Curador e Crítico de Arte, sócio da AICA – International Association of Art Critics.