Alice Puterman expõe violência sexual e saúde mental em Candura,
livro que denuncia a violência contra mulheres.
Alice Monteiro Puterman nasceu em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 2002 e vive atualmente na capital fluminense. Graduanda em Pedagogia, com passagem pelo curso de Letras na UERJ, dedica-se também à especialização na área de inclusão. Autista com mutismo seletivo na infância, encontrou na palavra escrita a primeira linguagem que conseguia acessar. Candura, seu livro de estreia, é fruto de seis anos de escrita sobre suas experiência com saúde mental e violência sexual.
Leia uma mostra de poemas da autora:
1.
começaria
este poema com
eu me lembro quando
como se de alguma coisa eu
lembrasse
então, o começo
dizendo
tenho saudade
mais do que meu peito é capaz de suportar
eu adentrei uma sala
dentro de um hospício
pra ser eletrocutada
vinte e uma vezes
e enquanto meu cérebro fritava
eu via
você
o motivo de eu
estar cá, em
primeiro lugar
como se rezando tua imagem
fosse cravá-la no meu peito
que só bate ti
(que parou de bater por ti)
de repente
termino
de frente pros
trilhos da
Maracanã, e aí
vai UTI
cirurgia
internação
e eu me encontro viva
olha só que desastre?
(mas não lembro)
e então,
chamo teu nome
e você
não vem
sonhei uma vida toda em te beijar
e descobri que o fiz
pelos últimos
anos
mas não
lembro
em vez disso
lembro da falta
que meu peito sentiu
quando você cortou as
palavras
não me perdoo
por na tentativa de
viver
perder a
vida
talvez, eu não lembre que te amo
amanhã
mas hoje,
eu
lembro
hoje
essa é a única
coisa
que eu lembro
2.
a última vez
que o silêncio
foi ensurdecedor
eu estava trancada
entre quatro paredes
escrevendo cartas de adeus
nos meus próprios pulsos
por um instante
o mundo parou de rodar
e desde então
eu só ouço ruído
e por mais que
silêncio demais
doa os ouvidos
você já sentiu
a adrenalina
que é o mundo
parar?
de todas as vozes
da sua cabeça
calarem a boca
é como nicotina
vicia
destrói
e eu não sei mais
como lidar
com tanto barulho
eu estou sempre
gritando por socorro
e ninguém
ninguém
parece ser capaz de distinguir
o meu implorar por misericórdia
de trilha sonora
todo mundo dança
como se a vida fosse isso
sem entenderem que
eu não sei
fazer outros sons
eu só quero que o mundo
pare
nunca houve tanta calmaria
quanto quando eu estava prestes a acabar
e agora, eu entendo porque as pessoas
vão à beira do precipício
não é sobre cair
é sobre aqueles nove segundos
em que os gritos cessam
e o seu coração pulsa
e o mundo nunca
nunca
esteve tão quieto
3.
às vezes eu rezo mecânica quântica
se uma partícula pode estar em dois estados
isso significa que
em alguma dimensão, você não foi embora
e parece estranho pensar
que esse desejo vem na frente de
não precisar ter medo dos homens
ou de não ter um cérebro que
tenta me enterrar viva
mas nenhuma quantidade de tragédia é maior
do que não ser amada por você
meus vinte anos nessa Terra
foram marcados
por feridas que nunca saram
que nunca param
eu estou sempre sangrando
seja lá de onde vierem os cortes
e ainda assim
eu não me encontro agora
implorando aos céus
pelo fim das agressões
eu rezo pelo amor
e não é lindo pensar
que por maior dor que contraia a nossa caixa torácica
e se espalhe pelo nosso ser
que
o amor
importa mais
do que a violência?
então, eu sei
que mesmo num mundo
que me põe em chamas
e ainda me pede pra dançar
enquanto eu viro pó
ainda assim
eu não preciso de escapatória
porque
o amor importa mais do que a violência
e isso,
é tudo que importa
4.
eu te prescrevo acupuntura
fratura de ossos calcificados da maneira errada
tilápias para tratar queimaduras
cirurgia sem anestesia
eu quero que você se cure
do jeito mais excruciante
pra você entender
o que me fez passar
eu quero que você floresça
mas crescer dói
faz a gente ter que sair da gente
e virar parasita
pra entender o que é ser outro
eu quero que você se limpe
de tudo aquilo que você nem sabe que fede
talvez assim
suas mãos parem de cheirar à morte
talvez assim
haja esperança pra você
5.
a partir de hoje,
vou acolher rachaduras em janela,
e deixar que toda a luz que vem de mim
reflita para fora
vou tatuar meu nome nas sombras,
batizar que elas não pertencem mais
a você
costurar cada ferida
como quem remenda asas,
e chorar só onde as sementes
esperam por chuva
não vou afogar no naufrágio
nem deixar o furacão ser mais alto
que a minha voz
vou recolher as águas da tempestade,
e lavar toda a imundice que você
tentou
deixar em mim
eu estou coberta de sujeira,
mas
a vida foi feita do barro, afinal
“Candura: qualidade de quem é ingenuamente crente. Amável. Puro. Mulheres são ensinadas a serem cândidas. E é aí que, teoricamente, mora nossa fraqueza. Não importa quantos golpes me atinjam, é só por ela — a candura — que ainda estou de pé.” —Alice Puterman