Escrever foi se tornando progressivamente mais difícil. Ao contrário de múltiplas faculdades mundanas que conforme a prática e acúmulo de experiência tornam-se mais fáceis, escrever não obedece às mesmas leis. Lembra a superação de um amor que chegou ao fim; ter vivido uma, duas, três vezes uma separação não nos ensina como fazê-lo na próxima. O que funcionou no fim do último rompimento ou na escrita última não funciona mais agora. 

Sempre fui leitora; assim sigo me vendo, muito acima de escritora. Ler é um bálsamo, enquanto escrever é sempre penoso. Há quem aprecie a primeira etapa do trabalho – o despejo de ideias, cenas e pensamentos no papel –, mas não sou uma dessas. Essa parte é a pior. Pegar uma bolota disforme de sensações, sentimentos, memórias e projeções e confiná-las em palavras sempre limitadas me parece uma tarefa masoquista. A edição não; da edição eu gosto. Lapidar, melhorar e sobretudo cortar me dá grande satisfação. Escrever simples dá um trabalhão, parafraseando livremente Hemingway, e o faço com coração de leitora, porque o ouvido do leitor não é penico e ser lida e compreendida é pelo menos parte do objetivo de qualquer pessoa que decida se expressar pela palavra. 

Com o passar das décadas, certamente um dos pontos de maior dificuldade tem sido encontrar concentração no meio de muitas outras preocupações, afazeres e microtarefas cotidianas. Os hiatos entre escritas são cada vez maiores. É mais difícil me esvaziar e abrir espaço para a criação, me colocar em estado de atenção distraída, o que costumava fazer sem precisar pensar a respeito, com muito pouco ou nenhum esforço. Existe também a fuga do ato de sentar para escrever por receio de não conseguir, de ficar horrível, de depois vir a ser incompreendida e também exposta. 

Percebo que, ultimamente, mais que tudo, existe uma falta de confiança maior que o habitual neste ofício. A quem eu falo quando escrevo? O que eu tenho a contribuir? A quem interessa o que eu escrevo? Para que escrever mais um texto ou livro nesse mundo atordoado? Durante a escrita, sempre tive um leitor imaginário a quem me dirigia. Esse leitor, essa leitora já foi gente da família, amizades, amores. Tomando a parte pelo todo, essa pessoa imaginária também acaba representando um coletivo. Podem ser mulheres mais velhas, podem ser adolescentes, pode ser a classe média (com e sem consciência de classe). Não quer dizer que esse grupo comporá a maioria dos leitores futuros deste texto, mas dá um foco à escrita. 

É isso que perdi. Não sei mais a quem falo.

Passar por tranformações ao longo da vida é inevitável e bem vindo – e não inconsequente. Na última década, sinto que a cadência das transformações que se operaram em mim se intensificou, acelerou e multiplicou mais do que consegui ter tempo de processar. E eu gosto de ter tempo para processar. Tenho ascendente em virgem e marte em capricórnio; detesto que me afobem. O Teatro Oficina, contudo, não nos dá este tempo. Se no início a inspiração foi imensa e até me impulsinou a escrever, com o andar da carruagem, ao invés das abóboras se ajeitarem, elas foram se esmigalhando. Eu fui me desintegrando, sem tempo de entender aonde foi parar cada parte, o que virou suco. Tentei agarrar a realidade fractal no desespero. Me recomendaram largar todo ímpeto de controle, a abraçar o desconhecido e caótico tudão e deixar quem eu achava que eu era pelo caminho, sem necessidade de recolher os pedaços. Fiz isso, ou tentei. Escrevi um livro nessa época.

Depois a coisa desandou. Não sei quem eu sou e não sei quem você é, leitora, leitor. Antes eu suspeitava. O mundo, é claro, girou comigo e mais rápido que eu, mudando a conjuntura e as relações macro e micro de formas imprevistas, irreversíveis e, tantas vezes, incompreensíveis. Umas coisas pioraram; outras, melhoraram. Não rejeito a influência que possam ter tido nessa desorientação a cultura de haters na internet, as eleições de 2018, a cacofonia de vozes no mundo digital e, por fim, a pandemia. Mas não apenas.

As palavras e a leitura sempre foram território confortável para mim. Sempre tive facilidade para me expressar na escrita, na conversa na mesa de bar, no táxi, na fila, em qualquer lugar. Gosto de conversar por horas, de conhecer pessoas novas, de discordar, de mudar de opinião. Leio muito e há mais de 30 anos, gêneros variados. Mas uma dessas coisas que mudou em mim, em tempos recentes, foi a perda de uma espécie de fé nas palavras. E talvez ainda mais na palavra escrita. (E, claro, percebo a contradição que estou cometendo ao dizer isso por escrito. Viva a contradição!) A necessidade de me expressar por escrito, de investigar as memórias, as experiêcias e as observações foi perdendo sentido para mim. Algo que, até então, eu pensava ser constituinte da pessoa a que chamo eu. E não dissocio esta mudança de uma das maiores alegrias que o teatro trouxe à minha vida que é a de viver no presente. A contracenação. 

E isso é mais valioso para mim do que escrever. Não tenho dúvida.

Universidade 2, fotografia de Maria Bitarello.

Eu bem que poderia deixar tudo isso para lá, como fiz um tempo. Mas, ao mesmo tempo, já me disseram muitas vezes que seria loucura da minha parte não escrever, não articular em palavras e não ligar ideias que podem ecoar (e tantas vezes ecoam) em quem me lê. Que a gente nunca dá valor ao que faz sem grande esforço. É verdade que eu preferiria muitas e muitas vezes ser uma excelente baixista a ser escritora. No entanto, tento não desmerecer a beleza desta faculdade que é organizar os pensamentos, as sensações, a observação dos outros e de mim mesma, a habilidade de me colocar no lugar do outro. E por que não compartilhar o resultado desta investigação íntima?

Suponho que uma parte desta minha propensão à observação e escuta é inata. Coisa de temperamento. Mas reconheço que outra parte foi revelada e nutrida pelas circunstâncias. Para uma escritora, em específico, uma artista, em geral, a capacidade de deslocar seu ponto de vista, de se colocar no lugar de outra pessoa, de desmaterializar com a mente as hierarquias e máscaras sociais: tudo isso é ouro. Fui ao longo da vida registrando e catalogando lugares, pessoas, regras de aceitação e recompensa e, como boa claustrofóbica, rotas de fuga também. Durante muito tempo, esse emaranhado do qual fui sendo tecida me deu um aparato que usei sem reservas para escrever e ligar ideias e mundos. Por que essa trama que me sustentou e me muniu de recursos não parece mais bastar é o que estou investigando. De uns anos para cá, mantendo a máxima de ouvir de mais e falar de menos, fui silenciando por completo. Sem lugar, parei de escrever.

Por sorte, algumas pessoas ao longo da vida nos catapultam em nosso ofício; tive algumas. Já outras nos enterram. Meu amigo cartunista me lembrou disso ano passado; para não deixar que os coveiros com que cruzamos tenham êxito nos sepultamentos de astral. Esse amigo, claro, é dos catapultadores circenses que me trazem de volta à vida. “Você observa e traduz”, ele me disse, “é o que você faz”. Peguei embalo na corda que ele me deu e de vez em quando preciso revê-lo para dar corda de novo. Minha maior coveira, claro, sou eu mesma.

Talvez (como eu repito a palavra ‘talvez’!) seja uma crise de fé, como já me disse uma astróloga. Quíron na casa 9. Crise de fé em mim, nas filosofias, nas religiões, no tudão. Estou sempre negociando com isso. Tenho tanta fé nos outros, na vida e na trajetória e na contribuição dos outros. Sinto muito amor por muitas pessoas, admiro muitíssima gente por razões que vão desde a forma como pisam o chão ao timbre de voz. Sou capaz de perdoar atrocidades de uma pessoa que toca com tesão e coração um instrumento. Mas amor próprio é outra coisa. Admiro mais e mais quem tem a autoestima bem calibrada. Quem sabe sua real dimensão no mundo. Meu pai era uma dessas pessoas: não se achava nem mais nem menos do que era, portanto seria difícil tanto iludí-lo quanto humilhá-lo. Sabia seu tamanho e seu valor. Encontrou sua vocação e seguiu nela, acreditando e agindo.

Não sei se essas coisas são genéticas, se vêm da educação, se são adquiridas com a maturidade. Acho que um pouco de cada, como quase tudo na vida. Sei que a minha não é muito boa. Não sei receber elogios, não os aceito, e tenho muita dificuldade em reconhecer meu valor, algo muito temerário nas mãos erradas, como um ou uma amante com inclinações sádicas e manipuladoras. Tenho consciência de que parte disso é porque sou mulher, e também mineira. E ainda de que isso é uma das coisas que me dificulta escrever aqui em 2026. Afinal, quem está interessada nessa divagação existencial em plena quarta-feira? É o que eu penso. Na maior parte dos dias que não essa quarta-feira, nem me digno a escrever nada. Engulo o que vem à boca e vida que segue. (Bora tomar uma cerveja?)

Hoje, tateando com humildade e sem qualquer convicção, retornei aqui à página. Para ver se consigo encontrar essa pessoa que me lê. Preciso dela para nortear as palavras. Não se trata de preocupação em agradar o leitor, a leitora, tampouco de querer me encaixar num ou noutro nicho literário para ter fama ou dinheiro (risos). Nem sei fazer isso. É porque sem a pessoa leitora nada disso faz sentido. A comunicação só se estabelece quando o ciclo se fecha e recomeça. Ideias que viram palavras que são lidas e por sua vez viram novas ideias em outra pessoa. Preciso de você, que agora me lê, aqui dentro de mim enquanto escrevo.

Por fim, sinto um anacronismo na forma com a qual me identifico na escrita (e muitas vezes também na leitura). Os tempos são de muitas afirmações categóricas, de muitas certezas, de muita moral e, honestamente, de muita coisa ruim escrita. Muita. Tenho lido livros mais atuais, contrariando meus instintos de base, para ver como as pessoas estão se expressando hoje. Pessoas diversas. Ouso profetizar que a maioria não vai sobreviver, assim como esse texto. Profetizo consciente, como me ensinou meu amigo gringo, de que prever é sempre muito difícil, sobretudo o futuro. E a verdade é que eu, anacrônica que sou, sigo interessada nas questões que perpassam eras, culturas, continentes. A onda do momento quase sempre me entedia. As perguntas sobre as quais quero refletir são as mesmas que estão sendo feitas há milhares de anos e adoram ‘talvez’, ‘depende’ e ‘não sei’ como possíveis respostas. Se isso é anacronismo, aceito e me reconheço na pecha elogiosa que me foi alcunhada por uma amiga.

Se eu não te reencontrar, leitor ou leitora imaginária, sei lá, de repente meu texto, meu lugar de fala (falha? phalus que não tenho?) estejam também anacrônicos, só que aí no mau sentido. E o melhor seja mesmo manter-me calada. Seguirei lendo com vigor. Por hoje, despeço-me sem saber se fui lida, compreendida ou incompreendida, condenada ou perdoada. E muito menos se devo insistir. Concluir este texto foi uma peleja e uma alegria: e eu escrevo também, assim como leio, para me aperfeiçoar na arte de viver. E isso já é uma forma de encantamento com a vida, uma forma de feitiço.


Maria Bitarello é artista do texto, da fotografia, do teatro e da música, e desde 2015 integra a Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona. Tem três livros lançados: “Vermelho-Terra”, “O tempo das coisas” e “Só sei que foi assim”. Site oficial: mariabitarello.com


Leia os textos da Primeira Temporada de Gaveta Azul na Philos:

Gaveta Azul: “Universidade Antropófaga 2015 – 2ª Dentição”, uma coluna de Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Uzyna Oficina”, por Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Incredible India”, por Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Inland Empire”, por Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Nepal em 120mm”, por Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Narradora: dúvida | certeza”, por Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Os modernistas se divertem”, por Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Postais do topo do mundo”, por Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Os rostos de Varanasi e do Ganga”, por Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Casa na praia”, uma coluna de Maria Bitarello

Gaveta Azul: “Um dia na vida de uma escola primária em Bombay”, por Maria Bitarello

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