Em diálogo com Luna Miguel, esta conversa percorre as tensões que atravessam sua escrita: o corpo, a genealogia e as formas contemporâneas de ler e escrever. Entre poesia, ensaio e edição, suas respostas desenham um espaço em que a literatura se pensa em movimento.

Nesta era peculiar e sombria em que vivemos — sempre cambiante, constantemente revisionista e volátil —, a literatura contemporânea oscila entre a exigência de acessibilidade e o impulso pela experimentação (como forma de legitimar autoras e autores realmente originais), e a figura da escritora passa a se constituir também como um espaço de disputa. A escrita deve se abrir a todos os públicos ou resistir às lógicas do mercado? Em que medida a radicalidade formal implica um gesto político, e quando passa a ser percebida como distanciamento? O que o mercado e os leitores esperam hoje da literatura feita pelas autoras? Nesse território incerto, atravessado por debates sobre o cânone, o feminismo e as formas de leitura no presente, a obra de Luna Miguel emerge como um campo fértil de perguntas, mais do que de respostas fechadas.

Não é nenhuma novidade dizer que Luna Miguel tem se consolidado ao longo da última década como uma das vozes mais visíveis e prolíficas da literatura espanhola contemporânea, transitando com fluidez entre a poesia, o ensaio e o romance. Desde seus primeiros textos, marcados por um intenso diálogo com outras escritoras e pela corporeidade da própria linguagem, até suas experimentações mais recentes, Miguel tem buscado traçar um mapa pessoal da escrita que combina introspecção, genealogia literária e reflexão crítica sobre a sociedade. Seu trabalho não se limita à criação: como editora e gestora cultural, ela assumiu a responsabilidade de recuperar vozes femininas esquecidas e de questionar os cânones estabelecidos, abrindo espaço para a pluralidade em um campo historicamente dominado por perspectivas masculinas.

No entanto, as considerações sobre seu papel no mundo literário não estão isentas de tensões. Suas decisões editoriais e sua defesa da experimentação literária têm suscitado debates sobre os limites entre a coragem criativa e o elitismo cultural. As críticas de certos setores, ao rotulá-la como “pretensiosa” por obras híbridas ou transgressoras, refletem a resistência da indústria a formatos não convencionais e levantam questões incômodas: até que ponto é possível equilibrar inovação e acessibilidade? Há o risco de que a literatura feminista se torne um circuito fechado, mais apreciado por seus próprios defensores do que por um público mais amplo?

“Luna Miguel, em Incensurable, me ajuda a encontrar uma explicação para esse prazer de ler aquilo que nos incomoda.” —Julia Didriksson      

Ao longo da entrevista a seguir, Luna Miguel aborda essas e outras questões com uma franqueza que combina a paixão pela escrita com a consciência de suas próprias contradições. Do valor dos diários e cadernos como laboratório criativo à possibilidade de a literatura incidir sobre os discursos sociais acerca do amor, da sexualidade e do desejo, seu olhar é ao mesmo tempo reivindicativo e crítico. Longe de construir um retrato meramente elogioso, esta conversa convida a refletir sobre os desafios de ser escritora e agente cultural em um contexto global marcado por retrocessos políticos, censuras veladas e expectativas mutáveis de público e mercado.

No seu primeiro livro, Estar enfermo, você introduz a poesia como uma espécie de mal-estar, uma alteração tanto física quanto mental. O poema parece se tornar uma ferramenta de luta e de redefinição pessoal, na qual a própria linguagem entra em conflito. Como você entendia, aos 19 anos, o ato de escrever nesse contexto de “doença” e como o vê agora?

É curioso. E também me parece um pouco cômico. Os poemas de Estar enfermo foram escritos entre os meus 15 e 18 anos. São breves, incômodos, e já trazem algo que continuei desenvolvendo ao longo do tempo: por um lado, o diálogo com outras escritoras dentro do próprio poema — ali aparecem, nomeadas ou sugeridas, figuras como Elena Medel, Marina Tsvetáieva, Vladimir Nabokov, Miriam Reyes, Federico García Lorca ou Virginia Woolf —; e, por outro, a obsessão com o corpo. Embora eu gostasse de me arrepender desses poemas antigos e infantis, na verdade, quando penso nisso, só consigo sentir carinho; eles são a base de tudo o que hoje me importa: a leitura somática, a intenção palimpséstica, a escrita auto-bio-bibliográfica, etc.

Que papel os diários — tanto os seus quanto os de outras pessoas — desempenham no seu processo criativo? Em que medida eles te ajudaram a compreender a sua própria voz?

Mais do que diarista, eu me considero uma “cuadernista”. Tomo esse termo emprestado de Cristóbal Polo que escreveu um ensaio incrível sobre essa distinção. Interessa-me muito a escrita íntima, aquela que nunca chega a vir totalmente à luz, que permanece nas frestas do processo criativo, mas que, ao mesmo tempo, é o que dá densidade às nossas teorias, aos nossos personagens, às nossas metáforas. Adoro escrever em cadernos. Não faço isso todos os dias — acontece por fases, em surtos. Às vezes, anoto apenas a data e uma palavra. Ou uma leve descrição de um estado de espírito ou de uma paisagem. Outras vezes, escrevo poemas inteiros, capítulos de um ensaio ou esboços de uma trama. E, embora pessoalmente eu me veja como “cuadernista”, também me considero leitora dos diários alheios. A vida não seria a mesma sem os diários de Alejandra Pizarnik, por exemplo. Uma verdadeira bíblia oracular!

Cheio de humor e erudição, Incensurable é uma viagem que difumina as fronteiras entre ficção, pensamento e crítica, na qual Miguel explora a instabilidade da verdade, a política da linguagem e o exílio literário como forma de castigo. E nos interpela: queremos fazer parte desse delírio incensurável ou nos limitar a compreendê-lo à distância?
Cheio de humor e erudição, Incensurable é uma viagem que difumina as fronteiras entre ficção, pensamento e crítica, na qual Miguel explora a instabilidade da verdade, a política da linguagem e o exílio literário como forma de castigo. E nos interpela: queremos fazer parte desse delírio incensurável ou nos limitar a compreendê-lo à distância?

Em um contexto global em que os direitos das mulheres vêm sendo cada vez mais atacados e o avanço de discursos fascistas se torna cada vez mais visível, como você vê o papel da escrita de mulheres como forma de resistência e reivindicação?

A cada época de avanços como os que vivemos nos anos 2010, corresponde uma época de retrocessos como a destes anos 2020. É desesperador, mas isso apenas significa que precisamos continuar colocando o corpo na escrita, no pensamento e na ação. No setor editorial, no qual atuo, não devemos recuar, e sim seguir com a busca genealógica — isto é, não desistir da recuperação de vozes de mulheres do passado, do questionamento do cânone e dessa visão plural, intergeracional e ampla da literatura, que tem nos proporcionado tantas vozes novas nos últimos anos. Acomodar-se, dar um passo atrás ou ceder às dinâmicas de apagamento do mercado seria favorecer discursos conservadores ou diretamente, como você bem disse, fascistas.

Sua obra percorreu, ao longo dos anos, desde a poesia mais introspectiva até ensaios e romances. Como você vê a relação entre poesia e ensaio no seu trabalho? Diria que existe uma forma mais direta de dizer algo importante em um formato ou outro?

Justamente uma das minhas autoras preferidas é Anne Carson, que considero uma espécie de poeta-ensaísta. Acredito que a poesia também é pensamento e, por isso, estou convencida de que o ensaio e a criação lírica caminham muito juntos. A única vantagem aparente do ensaio convencional em relação à poesia é que ele alcança mais pessoas. Os códigos, por vezes complexos, lúdicos ou experimentais da poesia podem afastar certo público — o que não significa que não haja ali ideias importantes ou determinantes. Penso, por exemplo, na já citada Anne Carson, mas também na poesia de Sara Uribe, do México, e de Berta García Faet, da Espanha.

Sobre experimentação e formatos. Você acredita que o mundo editorial questiona a experimentação literária das mulheres?

Sim. Quanto mais nos afastamos não apenas do cânone masculino, mas também das fórmulas estabelecidas, mais somos penalizadas. Trata-se, na verdade, de uma colocação em dúvida da nossa coragem, da nossa imaginação ou da nossa inteligência. Quando eu mesma escrevi um ensaio como o último que publiquei, Incensurable, no qual misturo pensamento, ficção, teatro e jornalismo, fui chamada de “pedante” ou “pretensiosa”. Já quando outros colegas escreveram esse tipo de artefatos desgenerados ou híbridos, foram chamados de gênios.

No Brasil, onde a revista Philos é publicada, há um forte movimento feminino em todas as artes, com diferentes autoras explorando o poliamor e o desejo feminino sem barreiras. Você acredita que a literatura tem a capacidade de redefinir as convenções sociais sobre o amor e as relações entre indivíduos, ou ela é mais um espelho das lutas que já estão acontecendo na sociedade?

Que interessante! Gosto de saber que é um tema que não perde relevância no Brasil. Na Espanha, no entanto, tenho a impressão de que cada vez se fala menos desses modelos relacionais diversos, e que até há uma certa condenação a quem tenta redefinir o desejo. Felizmente, vozes como as de Gabriela Wiener, Brigitte Vasallo, Elisa Coll, Blanca Llum Vidal ou Sara Torres têm bastante peso por aqui, embora a “moda editorial sobre o amor” pareça já ter passado. No México, por outro lado, o debate continua aberto. Recentemente, Aura García-Junco publicou a antologia Cuando hablamos de amor, com textos belíssimos sobre o amor, atravessados por questões de classe social, o queer, a maternidade, a precariedade ou a fé. Eu mesma colaborei com um texto sobre a relação entre a não monogamia e o cristianismo, talvez porque, no meu país, a religião esteja voltando a pesar bastante. Não sei se a literatura pode redefinir certas convenções, mas estou convencida de que, se continuarmos falando desses temas em nossas obras, o debate não se encerrará.

Sobre isto e para terminar. Você tem alguma referência de autores e autoras de língua portuguesa que tenham sido significativos para você ou que tenham marcado o seu processo criativo? Pode nos contar um pouco?

Talvez a autora de língua portuguesa que mais li seja Clarice Lispector — óbvio! Ainda assim, a liberdade de Hilda Hilst também me marcou muito; sempre a li com admiração. Acho que o último livro que comprei dela foi na Colômbia, porque lá a Ediciones Vestigio tem um catálogo maravilhoso de vozes brasileiras. Sei que também publicaram Marília Garcia, de quem gosto muito, e que é editada na Espanha pela Kriller71. E, sim, esse é outro selo espanhol no qual é possível acompanhar autoras brasileiras potentes. Tenho um carinho especial pelo livro impressionante Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas. Que poeta extraordinária. Por fim, voltando à Europa, adoro Gonçalo M. Tavares e recentemente comecei a ler Adília Lopes. Sei que ainda tenho muito a descobrir, então todas as recomendações são mais do que bem-vindas.

Incensurable é o último livro de Luna Miguel.

Luna Miguel pelas lentes de Monika Sed.

“Um livro que te tira da zona de conforto […] que tem muito erotismo, muito humor e muita erudição.” —Aura García-Junco


Juan Quintero Herrera é um contador de histórias nascido na América (na Colômbia), com fortes vínculos com o Brasil, Portugal e o mundo lusófono. Publicou dois livros de ficção e também dirigiu dois curta-metragens. Um apaixonado pelo jornalismo cultural, pelas boas crônicas e pela psicologia.

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Publicado por:Philos

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